sábado, 2 de outubro de 2010

Mundo de água

O planeta Terra visto do espaço numa imagem detalhada construída a partir de observações realizadas em 2005 pelo MODIS, um dos principais instrumentos do satélite Terra da NASA.
Crédito: NASA/MODIS/Robert Simmon/Marit Jentoft-Nilsen.

Admito que esta fabulosa imagem da Terra quase que me deixa sem palavras. Dias depois do anúncio da descoberta de um planeta na "zona habitável" do sistema planetário de Gliese 581, esta visão de uma orbe azul suspensa no espaço fez-me reflectir no quanto frágil e único é o nosso planeta. No entanto, esta imagem também estimula a minha imaginação. Os futuros exploradores de distantes novos mundos terão certamente oportunidade de lançar um último olhar sobre o nosso planeta; um olhar sentido sobre a única casa que até então conheceram: um mundo de água onde a vida floresce à milhares de milhões de anos. Quão semelhantes serão esses novos mundos?

Sonda chinesa Chang'E-2 a caminho da Lua


A China está de parabéns após o lançamento bem sucedido da sua segunda sonda lunar, ontem às 11:59:57 (hora de Lisboa). Ao contrário da sua predecessora, a Chang'E-2 rumará directamente para uma órbita lunar, prevendo-se a sua chegada na madrugada de quarta-feira, dia 6 de Outubro. A sonda deverá, no entanto, realizar algumas manobras de travagem antes de se posicionar numa órbita operacional a cerca de 100 km da superfície lunar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Gliese 581g, um admirável novo mundo

Representação artística dos quatro planetas interiores do sistema planetário Gliese 581. Em primeiro plano encontra-se representado Gliese 581g, um planeta telúrico, aparentemente, com condições ambientais favoráveis para a existência de água no estado líquido.
Crédito: Lynette Cook.

Investigadores americanos liderados por Steven S. Vogt da Universidade da Califórnia e R. Paul Butler do Carnegie Institution of Washington, anunciaram anteontem (ver aqui) a descoberta de dois novos planetas a orbitar a anã vermelha Gliese 581, elevando agora a contagem neste sistema para seis planetas. A descoberta resultou da combinação de 11 anos de observações realizadas com o espectrógrafo HIRES (High Resolution Echelle Spectrometer) num dos telescópios do W. M. Keck Observatory, no Hawaii, com as observações publicadas no ano passado pela equipa de astrofísicos europeus do Observatório de Genebra.
Situado a cerca de 20,5 anos-luz de distância da Terra, na direcção da constelação de Balança, o sistema planetário de Gliese 581 já era conhecido anteriormente por albergar o gigante gasoso Gliese 581b e três outros planetas telúricos: Gliese 581c, Gliese 581d e Gliese 581e. Juntam-se agora a estes quatro os planetas f e g.
Dos dois novos objectos, Gliese 581g é, sem dúvida, o mais interessante. Com cerca de 3 vezes a massa da Terra e um diâmetro 1,2 a 1,4 vezes o diâmetro da Terra, este novo planeta telúrico orbita a sua estrela a cerca de 0,146 UA de distância, no interior da chamada "zona habitável", uma região em torno da estrela onde a água poderá existir no seu estado líquido! Este aspecto tem, sem dúvida, fortes implicações para a potencial existência de vida (como a conhecemos) na sua superfície. No entanto, como o próprio Paul Butler afirma: "Nesta altura, qualquer discussão relativa à existência de vida [em Gliese 581g] é pura especulação".

As órbitas dos 6 planetas no sistema de Gliese 581 em comparação com as órbitas dos três planetas interiores do Sistema Solar. De notar que o planeta mais exterior do sistema se encontra numa órbita mais próxima da estrela que a órbita da Terra relativamente ao Sol.
Crédito: Zina Deretsky, National Science Foundation.

Gliese 581g possui outra particularidade interessante. O planeta apresenta sempre o mesmo hemisfério voltado para a estrela hospedeira, o que indicia a existência de diferenças significativas de temperatura entre o lado diurno e o lado nocturno.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Cassini observa as maiores nuvens alguma vez detectadas em Titã

Nuvens titanianas numa imagem captada a 27 de Setembro de 2010, a cerca de 1,3 milhões de quilómetros de distância, pelo sistema de imagem da sonda Cassini através de um filtro para o comprimento de onde de 938 nm (infra-vermelho próximo).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

A sonda Cassini observou na passada segunda-feira o maior sistema de nuvens alguma vez detectado na atmosfera de Titã! O gigantesco sistema foi localizado em latitudes equatoriais, sobre a região de Senkyo, um facto que poderá significar o início de grandes mudanças sazonais na maior lua de Saturno. Esta campanha de observação de nuvens em Titã teve a participação de outros instrumentos, entre eles o espectrómetro VIMS (Visual and Infrared Mapping Spectrometer), pelo que em breve deverão ser anunciados mais pormenores relacionados com este fenómeno.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

China prepara lançamento da sonda lunar Chang'E-2

Representação artística da sonda lunar chinesa Chang'e-2.
Crédito: CNSA/CLEP.

Encontra-se já posicionado no Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, na província de Sichuan, na China, o foguetão CZ-3C que irá colocar no espaço a segunda sonda lunar chinesa, a Chang'E-2. O lançamento deverá ocorrer no dia 1 de Outubro, o dia em que se comemora o 61º aniversário da fundação da República Popular da China.
Originalmente construída como sonda suplente da Chang'E-1, a Chang'E-2 é, na sua estrutura básica, um duplicado da sua antecessora. Alterações introduzidas em alguns instrumentos e no plano da missão deverão, no entanto, produzir melhorias significativas no desempenho da Chang'E-2, em particular, na resolução das imagens da superfície da Lua e na velocidade de transmissão de dados para a Terra. A sonda deverá ainda reunir um conjunto de informações fundamentais relativas aos locais candidatos para as futuras alunagens das sondas Chang'E-3 e Chang'E-4.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A misteriosa lua Titã

Retrato em cores aproximadamente naturais da lua Titã, obtido pela sonda Cassini a 25 de Setembro de 2010, a cerca de 140 mil quilómetros da sua superfície. Foram usadas nesta composição três imagens captadas através de filtros de luz visível para as cores azul (460 nm), verde (567 nm) e vermelho (648 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A sonda Cassini teve novo encontro planeado com a maior lua de Saturno na passada sexta-feira. A passagem a cerca de 8.175 km da sua superfície permitiu dois conjuntos de observações. O primeiro, realizado durante a aproximação, incluiu medições da composição da atmosfera titaniana e das densas camadas de aerossóis que se formam em diferentes altitudes. O segundo adicionou às observações atmosféricas, o mapeamento de parte do hemisfério anti-saturniano e a detecção e monitorização de sistemas de nuvens na atmosfera. Parte deste segundo conjunto de observações, a imagem que aqui vos trago mostra com clareza o quanto opaca é a atmosfera de Titã à luz visível. Felizmente, a densa neblina alaranjada é relativamente transparente a comprimentos de onda no infra-vermelho próximo, uma faixa do espectro luminoso para o qual estão dedicados alguns dos filtros do sistema de imagem da Cassini.

sábado, 25 de setembro de 2010

Fobos poderá ter sido formada após impacto catastrófico em Marte

A pequena lua marciana Fobos numa imagem a cores captada pela câmara HRSC (High Resolution Stereo Camera) da Mars Express, a 22 de Agosto de 2004.
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

As duas pequenas luas de Marte sempre intrigaram os astrónomos. A maioria das teorias sobre a sua formação sustenta que Deimos e Fobos são asteróides formados na Cintura de Asteróides e, posteriormente, capturados pela gravidade do planeta vermelho em órbitas progressivamente mais estáveis. No entanto, as respectivas densidades (significativamente inferiores às observadas nos asteróides) evidenciam estruturas demasiado frágeis para que os dois corpos pudessem ter sobrevivido intactos às tensões gravitacionais geradas durante o processo.
Esta semana, dois investigadores europeus anunciaram no Congresso Europeu de Ciência Planetária, em Roma, uma possível solução para este problema. De acordo com os trabalhos apresentados por Marco Giuranna do Instituto Nacional de Astrofísica de Roma, e por Pascal Rosenblatt do Observatório Real da Bélgica, a formação de Fobos deverá ter ocorrido in situ, após um impacto catastrófico em Marte, por re-acreacção de material ejectado da superfície marciana. A surpreendente conclusão resulta da interpretação das observações da superfície de Fobos em comprimentos de onda no infravermelho, realizadas independentemente pela Mars Global Surveyor e pela Mars Express.
Segundo Marco Giuranna, estas observações permitiram a detecção inequívoca, pela primeira vez, da presença de filossilicatos na superfície da lua, particularmente nas áreas a nordeste de Stickney, a maior cratera de Fobos. O achado é deveras intrigante, uma vez que a ocorrência destes minerais implica a interacção de materiais ricos em silicatos com a água em estado líquido, um processo que se sabe, deverá ter ocorrido no passado na superfície de Marte. A presença dos filossilicatos em Fobos parece assim indicar uma íntima ligação entre a pequena lua e as rochas da superfície marciana.

Locais em Fobos onde foi detectada a presença de filossilicatos.
Crédito: Marco Giuranna.

Pascal Rosenblatt reafirmou o cenário da acrecção in situ de Fobos, depois de apresentar a análise das leituras realizadas pelo instrumento MaRS (Mars Radio Science Experiment) que segue a bordo da Mars Express, durante diferentes passagens pela pequena lua. Partindo do estudo das variações na frequência das comunicações rádio entre a sonda europeia e a Terra, a equipa da MaRS reconstruiu com precisão as perturbações gravitacionais induzidas por Fobos na trajectória da Mars Express. Com esses dados, a equipa conseguiu calcular a massa da pequena lua com uma precisão sem precendente, e deduzir a respectiva densidade, limitando-a para valores de 1,86 ± 0,02 g/cm3 (a melhor estimativa de sempre). De acordo com Rosenblatt, os valores obtidos indiciam que a estrutura interna de Fobos deverá ter uma porosidade na ordem dos 25-45%, uma característica que parece confirmar o cenário da formação por re-acrecção.
O veredicto final relativamente ao problema da formação das luas marcianas não está ainda, no entanto, completamente definido. A questão só deverá ficar completamente elucidada com a realização da missão russa Phobos-Grunt, uma missão à superfície de Fobos cujo objectivo principal será a obtenção e devolução à Terra de uma amostra da pequena lua marciana.