sábado, 15 de janeiro de 2011

Reia e a tempestade de Saturno

O pólo sul de Reia com Dione e os anéis como pano de fundo, um cenário observado pela Cassini no final do encontro com Reia a 11 de Janeiro de 2011. A imagem foi construída com outras quatro captadas através de filtros de infravermelho próximo (752 nm), verde (568 nm), ultra-violeta (338 nm) e de espectro contínuo (filtro de espectro alargado, do ultra-violeta até ao infra-vermelho próximo, centrado a 611 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Emily Lakdawalla.

A passagem da Cassini por Reia, no passado dia 11 de Janeiro, deu origem a um interessante grupo de imagens que eu vos aconselho vivamente a explorar. A sonda sobrevoou a superfície da segunda maior lua do sistema saturniano a uma altitude de apenas 75,9 km no seu ponto de maior aproximação, o que permitiu a recolha de imagens de alta resolução da acidentada topografia reiana.
O encontro terminou com a captação de um conjunto de imagens do pólo sul de Reia, enquadradas por um cenário onde se cruzaram os anéis e algumas luas de Saturno. Numa das imagens, a sonda Cassini conseguiu reunir no mesmo retrato 5 luas: Reia, o alvo do encontro, e outras 4 mais distantes (tentem identificá-las na imagem em baixo).

5 luas saturnianas e os anéis. Imagem captada pela câmara de grande angular da sonda Cassini a 11 de Janeiro de 2011. Reia aparece acompanhada de Dione (logo abaixo), Tétis (em baixo, do lado direito), Prometeu (quase invisível no meio dos anéis, do lado direito de Dione) e Epimeteu (pairando entre Reia e Tétis).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

Par de imagens captadas pela sonda Cassini durante o encontro com Reia a 11 de Janeiro de 2011. A imagem da esquerda foi captada pela câmara de ângulo fechado e corresponde a um pormenor de uma profunda cratera de Reia adornada com um sulco. A mesma estrutura é visível no centro da imagem da direita. Esta segunda imagem foi captada pela câmara de grande angular que, embora tenha dez vezes o campo de visão da câmara de ângulo fechado, tem apenas 1/10 da sua resolução.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Depois do encontro com Reia, a Cassini voltou-se para a face de Saturno em busca da gigantesca tempestade que desde o início de Dezembro assola as latitudes médias do hemisfério norte. As imagens recolhidas mostram que as grandes nuvens esbranquiçadas se expandiram bastante nas últimas duas semanas, ocupando uma faixa bem delimitada na atmosfera superior do planeta.

A recente tempestade no hemisfério norte de Saturno numa sequência de 5 imagens captadas pela Cassini na banda do infra-vermelho próximo (752 nm), a 11 de Janeiro de 2011.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/montagem de Sérgio Paulino.

Mosaico construído com duas imagens captadas pela sonda Cassini a 12 de Janeiro de 2011, mostrando o aspecto da tempestade numa das bandas de absorção de luz do metano (infra-vermelho próximo, a 890 nm). Reparem também na cintura brilhante no equador do planeta, uma estrutura que se mantém visível desde o passado equinócio de Agosto de 2009.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A fronteira está em toda a parte

Nestes tempos contorbados não há nada melhor que uma boa dose de Carl Sagan para manter o optimismo relativamente ao destino da humanidade. Só ele soube reproduzir em poucas palavras a natureza indomável da curiosidade, um impulso que anima a nossa espécie desde tempos imemoráveis. É este instinto presente em todos nós que, (tenho esperança) com o esforço paciente de sucessivas gerações, nos levará à exploração de outros mundos além do Sistema Solar.
Neste vídeo criado por um entusiasta do programa espacial da NASA, as palavras de Sagan cruzam-se com belas imagens no sentido de promover a principal missão da agência espacial norte-americana: explorar a vastidão do espaço em busca de novas fronteiras.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Kepler descobre pequeno inferno

Representação artística de Kepler-10b, um pequeno mundo com uma órbita demasiado próxima da sua estrela.
Crédito: NASA/Kepler Mission/Dana Berry.

Foi anunciada anteontem a descoberta do primeiro planeta telúrico extrasolar por parte da missão Kepler. Designado Kepler-10b, a sua presença foi denunciada pelas pequenas variações no brilho estelar causadas pela passagem do planeta na frente da sua estrela hospedeira. O conhecimento das características espectrais da estrela, da quantidade de luz bloqueada em cada trânsito, e da frequência com que os trânsitos são observados, permitiu aos astrónomos deduzir com rigor o diâmetro e o período orbital do novo planeta.
Kepler-10b tem cerca de 1,4 vezes o diâmetro da Terra, o que o torna um dos mais pequenos exoplanetas descobertos até hoje. O seu período orbital de apenas 20 horas coloca-o a curta distância da superfície da sua estrela Kepler-10: cerca de 0,017 UA, o correspondente a 1/20 da distância média entre o planeta Mercúrio e o Sol! Ou seja, Kepler-10b deverá ser um mundo infernal, com temperaturas na sua superfície acima dos 1.300º C (superiores às temperaturas registadas nos fluxos de lava terrestres).

Kepler 10b orbita uma velha estrela de tipo espectral G, com massa e temperatura ligeiramente inferiores às do Sol. O sistema situa-se a cerca de 560 anos-luz de distância do Sistema Solar, na direcção da constelação do Dragão.
Crédito: NASA/Kepler Mission/Dana Berry.

Esta descoberta foi já confirmada por observações independentes realizadas com o espectrómetro HIRES do Observatório W.M. Keck. As leituras precisas da velocidade radial da estrela Kepler-10 providenciadas pelo HIRES, permitiram ainda a obtenção dos dados necessários para os astrónomos calcularem a massa e a densidade do planeta: respectivamente, 4,6 vezes a massa da Terra e 8,8 g.cm-3 de densidade (para comparação, a Terra tem 5,5 g.cm-3 de densidade). Estes valores indicam que Kepler-10b é inequivocamente um objecto de natureza metálico-rochosa.

Diagrama mostrando a composição teórica dos planetas Kepler-10b, CoRot-7b e GJ 1214b, de acordo com a sua massa e tamanho. Estão representados os planetas Marte, Vénus e Terra para comparação.
Crédito: NASA.

A equipa de investigadores responsável pela descoberta identificou um segundo sinal nos dados do telescópio Kepler, que poderá corresponder a outro planeta com uma massa até 20 vezes superior à da Terra e um período orbital de cerca de 45 dias. A confirmação da presença deste segundo objecto carece, no entanto, da sua detecção pelo método da velocidade radial.
Podem consultar o artigo com os pormenores desta descoberta aqui.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O futuro da Akatsuki

"Voltarei!" Este cartoon é o espelho do carinho que a JAXA e o povo japonês têm pela Akatsuki. Faz parte do conjunto de trabalhos realizados por fãs da missão, publicados no site da agência espacial nipónica.
Crédito: JAXA.

Fez anteontem um mês que a sonda japonesa Akatsuki falhou a entrada na órbita de Vénus. Depois do incidente, a JAXA foi actualizando com regularidade a evolução da sua investigação às causas da falha técnica que colocaram a sonda em modo de segurança num momento tão crítico da sua missão. Segundo as mais recentes informações da agência nipónica, as anomalias observadas na manobra de inserção orbital deveram-se à avaria de uma pequena válvula no tanque do propulsor, que por sua vez, provocou uma diminuição drástica na pressão do combustível. Como consequência, o propulsor perdeu potência antes da conclusão da manobra. Os engenheiros da JAXA pensam ainda que a avaria identificada tenha conduzido todo o sistema a um sobre-aquecimento, o que terá provocado necessariamente a destruição da tubeira de cerâmica (componente essencial para o funcionamento do propulsor).
Apesar destas serem, obviamente, más notícias para a missão, a JAXA não desistiu ainda de encontrar possibilidades alternativas para fazer regressar a Akatsuki a Vénus. Aparentemente, a órbita heliocêntrica adquirida pela sonda após a passagem pelo planeta, colocaria-a em posição para nova tentativa de inserção orbital daqui a seis anos. Curiosamente, a sua velocidade parece ser inferior ao esperado, pelo que o encontro com o planeta poderá ser antecipado em cerca de um ano.
Entretanto, correm rumores na internet que a JAXA poderá estar a ponderar usar a sonda e os seus instrumentos científicos para o estudo de asteróides próximos de Vénus, uma missão alternativa caso a entrada na órbita do planeta seja impossível. Esta informação carece, no entanto, de confirmação oficial.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Eclipse solar de 4 de Janeiro: visões a partir da órbita terrestre

Já era esperado. Na manhã de terça-feira passada a nebulosidade cobriu todo o território português, impedindo a observação do primeiro eclipse solar de 2011. Em muitos locais no resto da Europa, a maior contrariedade foi mesmo o frio intenso, que provocou bastante desconforto a todos os entusiastas que se aventuraram no exterior para contemplar o fenómeno. Ainda assim foram muitos aqueles que aproveitaram esta rara oportunidade para fotografar a passagem da Lua em frente do astro-rei.
Quem não teve qualquer problema para observar o fenómeno foram os dois satélites Hinode e Proba-2. Devido ao seu posicionamento bem acima da atmosfera terrestre, puderam acompanhar todo o espectáculo sem as contrariedades trazidas pelo clima.
Como o satélite nipónico Hinode orbita a Terra a uma altitude de cerca de 680 km, beneficiou ainda de outra vantagem em relação aos observadores no solo: adquiriu a geometria ideal para assistir a um eclipse anular.

Eclipse anular do Sol observado a 04 de Janeiro de 2011, pelo satélite nipónico de estudo da física solar Hinode.
Crédito: JAXA/ISAS/NAOJ.

O microsatélite da ESA não teve os mesmos benefícios da órbita da Hinode, mas em compensação contou com a observação de um duplo eclipse. Lua e Sol alinharam-se momentaneamente em frente da câmara da Proba-2, pouco antes da sua entrada na sombra da Terra.

O satélite europeu Proba-2 observou no dia 04 de Janeiro de 2011, o alinhamento quase perfeito da Terra, da Lua e do Sol.
Crédito: ESA/ROB.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MRO avista Opportunity junto à cratera Santa Maria

O robot Opportunity na orla sudoeste da cratera Santa Maria. Imagem captada a 31 de Dezembro de 2010 (sol 2466 da missão), a partir da órbita de Marte, pela câmara HiRISE da sonda Mars Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

A sonda Mars Reconnaissance Orbiter obteve mais uma espectacular imagem do robot Opportunity na superfície de Marte. Desta vez, o cenário incluiu a cratera Santa Maria, o último local de paragem do explorador marciano, antes da sua jornada derradeira até à cratera Endeavour.
Deslocando-se nos últimos dias ao longo da orla oeste de Santa Maria, a poucos metros de precipícios escarpados, o Opportunity tem-se mantido ocupado a reunir imagens do interior da cratera, documentação importante para a caracterização da estratigrafia das paredes da estrutura. Com este movimento, a equipa da missão planeia encaminhar o robot em direcção ao extremo este da cratera, local onde poderá estudar um interessante conjunto de depósitos de sulfatos hidratados.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Primeiro eclipse solar de 2011 visível a partir de Portugal

A Europa assistirá amanhã, dia 04 de Janeiro, ao primeiro dos quatro eclipses parciais do Sol previstos para 2011. A sombra penumbral varrerá todo o velho continente, partindo de oeste pelas 06:40 (tempo universal) e terminando a leste, já em território russo, cerca de 4 horas depois. O corredor da totalidade passará a apenas 510 km da superfície terrestre, sobre o norte da Suécia, região onde o eclipse atingirá a magnitude 0,858.
Em Portugal continental, o máximo do eclipse ocorrerá escassos minutos após o nascer do Sol, atingindo em Lisboa e no Porto, respectivamente, as magnitudes 0,484 e 0,517. Para observar o fenómeno deverão procurar um local com o horizonte completamente desobstruído a nascente (não esquecer de usar óculos com filtros apropriados para a observação de eclipses solares, de modo a evitar lesões oculares irreversíveis). Caso as condições meteorológicas não se mostrem favoráveis, podem acompanhar todo o espectáculo em directo aqui.
Este é o 14º eclipse da série Saros 151, uma série que se inicia com 18 eclipses parciais consecutivos entre 1776 e 2083, e que termina com um eclipse parcial de pequena magnitude no hemisfério sul a 01 de Outubro de 3056 (ver animação com toda a série aqui).