sábado, 12 de março de 2011

LRO completa o melhor retrato de sempre da superfície da Lua

O lado mais distante da Lua num mosaico que reúne milhares de imagens captadas entre Novembro de 2009 e Fevereiro de 2011 pela câmara de grande angular da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (carreguem aqui para verem a versão com melhor resolução).
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

Recordam-se do espectacular mosaico da face visível da Lua publicado aqui no Imperium Solis no mês passado? Pois bem, a equipa da Lunar Reconnaissance Orbiter Camera (LROC) publicou ontem um novo mosaico, desta vez com o lado mais distante da Lua. Fica assim completo o retrato mais detalhado de toda a superfície lunar até hoje realizado, um retrato construído com cerca de 15 mil imagens captadas entre Novembro de 2009 e Fevereiro passado.
A Lua mantém sempre a mesma face voltada para a Terra, devido à coincidência exacta do seu período de rotação com o período de translação em redor do nosso planeta. Como tal, o lado mais distante manteve-se escondido dos olhares humanos até 1959, ano em que a sonda soviética Luna 3 obteve as primeiras imagens da sua superfície.

A primeira imagem do lado mais distante da Lua, captada a 07 de Outubro de 1959 pela sonda soviética Luna 3. Apesar do ruído e da baixa resolução são reconhecíveis pelo menos 4 maria: Mare Crisium, Mare Marginis e Mare Smithii (à esquerda), e Mare Moscoviense (em cima, à direita).
Crédito: NSSDC Photo Gallery.

E que surpreendentes foram as primeiras observações. Radicalmente diferente do lado visível da Terra, o lado mais distante da Lua é dominado por terreno elevado e acidentado, com poucos e pequenos maria. Esta assimetria na geologia dos dois hemisférios é explicada pela presença de uma crusta mais espessa no lado mais distante da Lua, que dificultou, ao longo dos tempos, a erupção de magma na superfície e a consequente formação das bacias de impacto cobertas de basalto que caracterizam os maria do lado visível.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Estranha Miranda

O hemisfério sul de Miranda visto pela Voyager 2. Mosaico construído com imagens captadas em Janeiro de 1986, durante a passagem da sonda americana pelo sistema uraniano.
Crédito: NASA/JPL/processamento de Daniel Macháček.

Encontrei ontem este magnífico mosaico da lua Miranda, da autoria de Daniel Macháček, um dos membros mais activos do fórum UnmannedSpaceflight.com. Mostra detalhes impressionantes do hemisfério sul desta enigmática lua de Urano.
Foi enorme a perplexidade dos cientistas da missão Voyager quando analisaram pela primeira vez as imagens de Miranda, captadas pela sonda Voyager 2 durante a sua passagem pela pequena lua a 24 de Janeiro de 1986. A sua pequena dimensão (cerca de 472 km de diâmetro) não fazia adivinhar quaisquer sinais de actividade geológica recente. No entanto, perante os seus olhos surgia uma estranha superfície que mais parecia uma colagem de pedaços retirados de diferentes corpos do Sistema Solar.
Miranda possui pelo menos três extensas regiões estriadas conhecidas como coronae. Formadas por profundos desfiladeiros paralelos, as coronae interrompem terreno mais elevado coberto por crateras (presumivelmente mais antigo).
Os cientistas discordam quanto à origem da bizarra superfície de Miranda, mas todos aceitam que esta é apenas uma das mais recentes versões da pequena lua. Logo após a passagem da Voyager 2, muitos sugeriram que Miranda deverá ter sido despedaçada por uma colossal colisão, e posteriormente reorganizada pela força da gravidade na sua forma actual. Mais recentemente ganhou preponderância a hipótese da sua superfície ser produto da actividade geológica resultante do efeito de maré provocado por uma ressonância orbital 3:1 transitória com a lua Umbriel.

terça-feira, 8 de março de 2011

Magnífico mosaico da tempestade de Saturno

A gigantesca tempestade do hemisfério norte de Saturno num mosaico construído com 14 imagens captadas a 26 de Fevereiro de 2011 pela câmara de ângulo fechado da sonda Cassini, através de um filtro para o infravermelho próximo (750 nm).
Crédito: NASA/JPL/SSI/mosaico de Astro0.

A sonda Cassini tem estado a enviar para a Terra excelentes pormenores da enorme tempestade que assola as latitudes médias do hemisfério norte de Saturno. Reparem só nos detalhes deste belíssimo panorama construído por Astro0, um dos membros do fórum UnmannedSpaceflight.com (carreguem na imagem para ampliar).

Cassini descobre surpreendente fluxo de energia térmica no pólo sul de Encélado

Damascus Sulcus, uma das fissuras geologicamente activas no pólo sul de Encélado. Vista em perspectiva gerada a partir da combinação de imagens captadas pela Cassini em Agosto de 2008, com um mapa topográfico da região criado por Paul Schenk do Lunar and Planetary Institute, Texas, Estados Unidos (resolução de 12 a 30 metros por pixel).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Universities Space Research Association/Lunar and Planetary Institute.

Encélado volta a surpreender. De acordo com um estudo publicado na semana passada na revista Journal of Geophysical Research (consultar artigo aqui), a região mais meridional desta pequena lua de Saturno emite muito mais calor do que o que havia sido estimado anteriormente. Estes resultados baseiam-se numa nova análise dos espectros das emissões térmicas registados em 2008 no pólo sul de Encélado pelo Cassini Composite Infrared Spectrometer (CIRS), um dos 12 instrumentos científicos da sonda Cassini.

Gráfico comparando as emissões térmicas detectadas em 2008 no pólo sul de Encélado pela sonda Cassini (à direita), com as emissões estimadas em estudos anteriores (à esquerda). A energia térmica gerada no interior da lua de Saturno é comparável à produzida por 20 centrais termoeléctricas.
Crédito: NASA/JPL/SWRI/SSI.

De acordo com os autores do estudo, são gerados na região do pólo sul de Encélado cerca de 15,8 GW de energia térmica, cerca de 10 vezes mais do que o previsto em estudos anteriores, um valor que desafia os modelos de produção endógena de calor actualmente aceites. Estes novos resultados têm fortes implicações quanto à presença de água líquida no interior de Encélado. Curiosamente, a existência de um oceano subsuperficial ou de uma bolsa de água salgada na região do pólo sul aumentaria a eficiência na produção de calor pelo efeito de maré, ao permitir uma maior distorção das camadas superficiais de gelo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um estranho eclipse visto do espaço

Observem com atenção este eclipse solar parcial registado anteontem pelo Solar Dynamics Observatory (SDO).

Eclipse parcial do Sol visto do espaço. Imagens captadas a 04 de Março de 2011 pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory (canal de 304 Å).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium.

Tudo parece normal até que... num movimento que aparentemente desafia as leis da Física, a silhueta da Lua desliza sobre o disco solar, pára e retoma o movimento no sentido contrário! O que é que aconteceu?
Nada de estranho. A Lua prosseguiu o seu movimento orbital em redor da Terra; o SDO também. Como faz parte da missão do SDO a contínua observação do Sol, o astro-rei parece permanecer estacionário nas imagens. A Lua, por seu turno, por estar mais próxima, tem o seu movimento aparente afectado pelo movimento orbital do observatório solar. Assim, dependendo do local em que o SDO se encontra na sua órbita, a Lua movimenta-se nas imagens ou para a esquerda ou para a direita. Nesta sequência, o SDO encontrava-se no ponto exacto da sua órbita em que a Lua invertia o seu movimento aparente, criando um efeito visual conhecido por paralaxe.

sábado, 5 de março de 2011

Crateras marcianas com nomes portugueses: a cratera Aveiro

Provavelmente muitos de vós desconhecem o facto de existirem crateras em Marte cuja designação oficial teve origem em localidades portuguesas.
A nomenclatura das formações geológicas dos planetas e satélites do Sistema Solar está a cargo do Working Group for Planetary System Nomenclature (WGPSN) da União Astronómica Internacional (UAI), e respeita um conjunto de regras e convenções bem definidas. No caso do planeta vermelho, as crateras com um diâmetro inferior a 60 km recebem os nomes de cidades e vilas de todo o mundo com menos de 100 mil habitantes. Como demonstra uma rápida busca no site do WGPSN, são 4 as crateras marcianas com nomes de localidades de Portugal. Estes locais não receberam até hoje grande atenção por parte da comunidade científica, mas não deixam ainda assim de estimular a minha curiosidade relativamente ao seu aspecto. Tive de me embrenhar nas bases de dados das diversas missões a Marte para encontrar imagens destas estruturas, e descobrir alguns aspectos interessantes da sua geologia. Foi este o pretexto para iniciar convosco uma pequeno périplo por estes locais, uma viagem com partida na cratera Aveiro.

A cratera Aveiro num mosaico de imagens obtidas a 31 de Março de 2004 pelo instrumento THEMIS da sonda 2001 Mars Odyssey (ver aqui imagem original).
Crédito: NASA/JPL/Arizona State University.

Aveiro é uma cratera de impacto com cerca de 9,11 km de diâmetro, situada a nordeste de Tharsis Montes, a meio caminho entre Kasei Valles e a cratera Fesenkov. A sua formação é posterior às erupções que à cerca de 3,36 mil milhões de anos cobriram de lava toda a planície em redor.
Os numerosos barrancos que sulcam a vertente norte são talvez os pormenores mais interessantes visíveis em toda a cratera. Tal como acontece em outros locais em Marte, estas estruturas aparentam ter sido esculpidas recentemente por água corrente proveniente de lençois de gelo subterrâneos.

Barrancos na vertente norte da cratera Aveiro. Imagem obtida a 14 de Março de 2003 pela sonda Mars Global Surveyor (ver aqui imagem original e imagem de contexto).
Crédito: NASA/JPL/Malin Space Science Systems.

Próxima paragem: cratera Coimbra.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Descoberta uma gigantesca caverna em Oceanus Procellarum

Caverna lunar identificada em imagens captadas pela sonda indiana Chandrayaan-1. À esquerda, a imagem de contexto mostrando o tubo de lava lunar que abriga a gigantesca estrutura. À direita, uma projecção tridimensional do tubo de lava com a secção intacta evidenciada com um rectângulo vermelho.
Crédito: ISRO.

Cientistas indianos afirmam ter encontrado uma enorme caverna no subsolo lunar com potencialidade para ser usada como base para futuras missões humanas na Lua (ver artigo aqui). A estrutura corresponde a uma secção intacta de um tubo de lava situado a norte de Rima Galilaei, na região equatorial de Oceanus Procellarum, e foi identificada em projecções tridimensionais construídas a partir de imagens obtidas pela Terrain Mapping Camera da sonda Chandrayaan-1. Com cerca de 120 metros de diâmetro e 1,72 km de comprimento, esta é a maior caverna lunar até hoje descrita.