terça-feira, 11 de outubro de 2011

De Victoria a Endeavour: 3 anos nas dunas de Meridiani Planum

Passaram mais de 3 anos desde que o Opportunity abandonou a cratera Victoria em direcção às vertentes ricas em filossilicatos da cratera Endeavour. Foi uma espectacular odisseia de 20 km que o robot da NASA foi registando em imagens obtidas a cada paragem. Esta longa viagem pode ser agora disfrutada num excelente vídeo produzido pela equipa da missão com 309 fotografias centradas no horizonte em direcção a Endeavour. Vejam...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inclinação de Urano produto de uma série de colisões?

Sempre foi um mistério a inclinação extrema da rotação de Urano. Quase perpendicular ao plano orbital, o eixo de rotação do gigante gelado é certamente uma relíquia do passado violento do Sistema Solar. Desde cedo, os astrónomos sugeriram que esta característica singular teria sido produto do impacto de um corpo com pelo menos a massa da Terra. No entanto, esta teoria tem um problema. Tal catástrofe deveria ter deixado as órbitas das luas uranianas nas suas inclinações originais, e não, tal como observamos hoje, em órbitas regulares no plano equatorial do planeta.

A extrema inclinação do sistema uraniano reproduzida numa imagem obtida no infravermelho próximo, região do espectro luminoso onde o sistema de anéis é mais proeminente.
Crédito: Lawrence Sromovsky, (Univ. Wisconsin-Madison), Keck Observatory.

Um novo trabalho divulgado ontem na EPSC-DPS Joint Meeting parece trazer uma nova solução para este antigo problema. Através de simulações, uma equipa de cientistas liderada por Alessandro Morbidelli (Observatoire de la Cote d’Azur) testou vários cenários de impacto que pudessem reproduzir a actual inclinação do sistema uraniano. Descobriram que se o Urano tivesse sido atingindo quando ainda se encontrava rodeado por um disco protoplanetário (um disco de material donde posteriormente iria emergir o séquito de pequenas luas), então todo o sistema se reorganizaria na nova inclinação.
O novo modelo seria um sucesso, não fosse a simulação gerar um outro resultado intrigante. Depois da violenta colisão, muitas das luas de Urano passavam a exibir órbitas retrógradas, ou seja, no sentido contrário ao que se observa hoje. Para ultrapassar este impasse, Morbidelli e colegas reviram os seus parâmetros, e para sua surpresa, descobriram que duas ou mais colisões menores diminuíam significativamente a probabilidade da ocorrência de órbitas retrógradas nas luas de Urano.
Estes novos resultados prometem abalar alguns dos principais aspectos da actual teoria da formação dos planetas. Segundo Morbidelli, "a teoria da formação dos planetas actualmente aceite assume que Neptuno, Urano e os núcleos de Júpiter e Saturno foram formados pela acreção de apenas pequenos objectos do disco protoplanetário. Nenhum deveria ter sofrido qualquer colisão gigante. O facto de Urano ter sido atingido pelo menos duas vezes sugere que os grandes impactos foram fenómenos vulgares na formação dos planetas gigantes, pelo que a teoria vigente tem que ser revista."

Oceanos terrestres: confirmada uma origem cometária?

Nos seus primórdios, a região mais interior do Sistema Solar era demasiado quente para que materiais voláteis como a água pudessem condensar, pelo que a sua chegada à jovem Terra deverá ter acontecido numa fase posterior. Durante décadas, os cientistas especularam que o impacto de asteróides e (principalmente) de cometas na superfície terrestre em arrefecimento terá fornecido água suficiente para encher todos os oceanos terrestres. No entanto, esta teoria tinha alguns problemas, sendo o maior o facto da razão deutério/hidrogénio (D/H) nos cometas até então estudados ser duas vezes superior à medida na água da Terra.
Um grupo de investigadores vem agora apresentar novos dados que poderão solucionar este enigma. Fazendo uso do espectrómetro HIFI (Heterodyne Instrument for the Far Infrared) do observatório espacial europeu Herschel, Paul Hartogh e colegas examinaram a cauda do cometa 103P/Hartley 2 (o mesmo visitado em Novembro passado pela missão EPOXI), e descobriram que a água contida no seu núcleo apresenta uma razão D/H semelhante à dos oceanos terrestres!

O cometa 103P/Hartley 2 numa montagem de 5 imagens captadas pela sonda EPOXI a 04 de Novembro de 2010.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UMD.

Hartley 2 formou-se na cintura de Kuiper, ao contrário dos cometas anteriormente estudados, todos com origem na distante nuvem de Oort. Estes novos dados parecem demonstrar que a formação do Sistema Solar terá sido um processo muito mais complexo do que se pensava anteriormente, e que pelo menos uma parte da população de cometas foram, de facto, os grandes responsáveis pelo aparecimento dos oceanos terrestres. A equipa vai agora analisar as leituras já realizadas com o mesmo espectrómetro no cometa 45P/Honda-Mrkos-Pajdusakova, outro objecto com origem na cintura de Kuiper, de forma a dar mais consistência a este resultado. Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Belas imagens de Encélado e de Dione

A Cassini concluiu no passado Sábado o primeiro dos três encontros com Encélado programados para os meses de Outubro e de Novembro. Neste primeiro encontro, a sonda centrou grande parte da sua atenção nos impressionantes jactos de partículas de gelo e de vapor de água da região do pólo sul, agora imersos da escuridão do longo Inverno meridional. A fase de maior aproximação foi realizada directamente sobre o pólo sul, a uma altitude mínima de 99 km, o que possibilitou a aquisição de leituras in situ da composição do material expelido nesta região. O encontro terminou poucas horas depois com uma série de leituras das temperaturas equatoriais de Encélado durante e depois da sua passagem pela sombra de Saturno, e com algumas fotografias do hemisfério líder.
Pelo caminho, a Cassini obteve ainda duas séries de imagens da lua Dione. A primeira foi realizada antes do encontro com Encélado e cobriu uma boa parte do hemisfério adornado pelos grandes sistemas de desfiladeiros Padua Chasmata e Eurotas Chasmata. A segunda centrou-se no hemisfério oposto e incluiu algumas imagens obtidas com filtros de cor.
Aqui ficam alguns dos registos.

O fino crescente de Encélado numa imagem obtida a 01 de Outubro de 2011, durante a fase de aproximação. É possível vislumbrar os famosos gêiseres enceladianos na região do pólo sul.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Os gêiseres do pólo sul de Encélado iluminados em todo o seu esplendor numa imagem obtida pela Cassini a pouco mais de 74 mil quilómetros de distância.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Encélado, os anéis e a pequena lua Epimeteu.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Região de transição entre terreno antigo coberto por crateras (a leste) e terreno mais recente rasgado por fissuras (a oeste). É possível identificar a estranha cratera Ali Baba a norte.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

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Sequência de 15 imagens obtidas num período de 6 horas, mostrando uma pequena parte da rotação de Dione. É possível ver a região dos grandes sistemas de desfiladeiros.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/animação de Sérgio Paulino.

O hemisfério líder de Dione em cores naturais. Composição construída com imagens obtidas pela sonda Cassini a 02 de Outubro de 2011, através de filtros para as cores azul (460 nm), verde (567 nm) e vermelho (648 nm). Reparem na grande bacia de impacto Evander na região do pólo sul e no proeminente pico central da cratera Aeneas junto ao terminador.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O cometa suicida e a ejecção de massa coronal

O SOHO registou no passado Sábado mais uma passagem de um cometa da família Kreutz pela atmosfera solar. Nos derradeiros momentos de vida do fragmento cometário, o Sol libertou uma espectacular ejecção de massa coronal, aparentemente, na direcção oposta ao local do impacto. Estarão os dois fenómenos relacionados?

O coronógrafo LASCO do observatório solar SOHO observou no passado dia 01 de Outubro de 2011 o mergulho fatal de um cometa suicida na atmosfera do Sol, seguido de uma violenta ejecção de massa coronal. A imagem estática do Sol (visível ao centro) foi obtida dias antes e representa o tamanho relativo do disco solar.
Crédito: LASCO/SOHO Consortium/NRL/ESA/NASA/Helioviewer.

Não é a primeira vez que o SOHO capta imagens de ejecções de massa coronal na sequência da desintegração de cometas na atmosfera solar. No entanto, é muito improvável que objectos tão pequenos como os cometas possam interagir de forma tão dramática com o Sol, pelo que a explicação mais simples (e mais provável) é que a ocorrência quase simultânea dos dois fenómenos seja mera coincidência.

sábado, 1 de outubro de 2011

MESSENGER observa surpreendentes evidências de actividade geológica recente em Mercúrio

A equipa científica da missão MESSENGER publicou ontem um conjunto de sete artigos numa secção especial da conceituada revista Science dedicada a Mercúrio. Os trabalhos reúnem análises detalhadas aos mais importantes dados obtidos pela missão durante os primeiros 6 meses na órbita do pequeno planeta, e incluem, entre outros aspectos, a observação de novas evidências da presença de actividade geológica recente na superfície mercuriana.
Num dos artigos, a equipa relata a descoberta de grandes planícies vulcânicas na região do pólo norte de Mercúrio, que se estendem por uma área total superior a 6% da superfície do planeta! De acordo com os autores, as planícies foram formadas por espessos depósitos vulcânicos que cobriram crateras e outros acidentes geológicos, incluindo os locais de erupção. Os depósitos aparentam ser posteriores ao impacto que deu origem à grande bacia de Caloris, o que demonstra que o vulcanismo esteve presente em Mercúrio enquanto processo geológico global, muito depois do "Grande Bombardeamento Tardio".

Ilustração do hemisfério norte de Mercúrio centrada no pólo norte. Estão representadas a vermelho a localização de crateras de impacto com mais de 20 km de diâmetro. As extensas planícies vulcânicas descobertas pelos cientistas da missão encontram-se delimitadas por uma linha preta, e cobrem o correspondente a 4,7 milhões de km2 de superfície. Reparem que o número de crateras no interior das planícies é muito inferior ao das regiões envolventes, o que indica uma formação relativamente recente.
Crédito: Science/AAAS/ Brown University.

Os cientistas estimaram nalguns locais das planícies vulcânicas uma espessura dos depósitos de lava superior a 1 km! Este valor resultou da estimativa da altura das vertentes de crateras fantasma, crateras pré-existentes subterradas pelos depósitos. Podem observar à direita uma estrutura circular com 90 km de diâmetro formada pelo fino contorno de uma dessas crateras. À esquerda encontra-se a cratera Hokusai (114 km de diâmetro) com a sua estrutura conservada, o que permite a medição directa da altura das suas vertentes.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Noutro artigo, membros da equipa dão a conhecer um conjunto de curiosas formações que denunciam a presença de processos geológicos anteriormente desconhecidos em Mercúrio. Apelidadas de "cavidades", estas estruturas são depressões com dezenas de metros a alguns quilómetros de diâmetro, vulgarmente encontradas em grupo no interior de várias crateras por todo o planeta. Muitas apresentam interiores cobertos por depósitos muito brilhantes que aparentemente não acumularam pequenas crateras de impacto, o que indicia uma formação muito recente.
Imagens em alta resolução obtidas pela sonda MESSENGER mostram que as "cavidades" encontram-se associadas a rochas formadas em profundidade e expostas na superfície por violentos impactos, o que leva os autores do artigo a associar a sua génese à libertação de compostos voláteis através de diversos processos que poderão incluir vulcanismo piroclástico, sublimação ou violentas erupções gasosas. A estimativa da taxa de crescimento destas estruturas revela ainda outro aspecto surpreendente: muitas "cavidades" poderão estar ainda em actividade, o que sugere a presença de processos geológicos actuais em Mercúrio - uma imagem radicalmente diferente daquela que emergiu das passagens da sonda Mariner 10 pelo planeta nos anos 70.

A bacia de impacto Raditladi e o seu anel concêntrico brilhante (indicado com uma seta na imagem em cores falsas).
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Imagens de porções do interior da bacia de impacto Raditladi mostrando "cavidades" nas montanhas do anel concêntrico (setas amarelas) e no chão da depressão (setas brancas). Estas estruturas surgem nas imagens com baixa resolução (em cima) como formações brilhantes e relativamente azuladas em comparação com o terreno envolvente.
Crédito: Science/AAAS/NASA.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Forte actividade na região activa 1302

O gigantesco complexo de manchas solares 1302 tem estado a produzir violentas erupções nos últimos dias. No passado Sábado, pelas 10:40 (hora de Lisboa), libertou uma espectacular erupção classe X, a segunda na região em menos de 3 dias! O fenómeno esteve na origem de uma ejecção de massa coronal que, no entanto, teve poucos efeitos no campo magnético terrestre.

O Solar Dynamics Observatory registou uma erupção solar classe-X1,9 na manhã do dia 24 de Setembro de 2011. Reparem na violenta onda de choque que se propagou pela coroa solar em direcção a sul.
Crédito: SDO/NASA/Helioviewer.

A região activa 1302 sustenta neste momento um complexo campo magnético beta-gama-delta, com energia suficiente para mais erupções classe M e X, pelo que poderá ocorrer um aumento considerável da actividade geomagnética nos próximos dias.

A AR1302 destaca-se no disco solar pela sua dimensão, como se pode observar nesta imagem obtida no dia 26 de Setembro de 2011 pelo Solar Dynamics Observatory.
Crédito: SDO(NASA)/AIA.