terça-feira, 29 de novembro de 2011

Paisagem mercuriana: o horizonte de Van Eyck

Visão oblíqua de parte da formação de Van Eyck, uma região adjacente à bacia de Caloris. Mosaico construído com uma sequência de 9 imagens obtidas pela sonda MESSENGER a 03 de Junho de 2011.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

A equipa do missão MESSENGER divulgou ontem este espectacular mosaico que retrata um visão oblíqua da superfície de Mercúrio. Obtido pela combinação de 9 imagens sequenciais, o mosaico mostra uma perspectiva invulgar de parte da formação de Van Eyck, uma extensa região formada pelo ejecta da bacia de Caloris.

Correlação entre a visão oblíqua e uma visão perpendicular sobre a mesma região. Estão indicadas cinco crateras facilmente identificáveis na visão oblíqua, bem como a direcção para onde estava voltada a câmara da sonda MESSENGER quando obteve as imagens que constituem o mosaico. Na visão perpendicular é possível observar ainda parte da bacia de Van Eyck, uma depressão com cerca de 270 km situada a leste de Caloris.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

A formação de Van Eyck é a mais proeminente de todas as unidades estratigráficas que rodeiam a bacia de Caloris. Distinguem-se em Van Eyck duas subunidades estreitamente relacionadas: crateras secundárias ao impacto que esculpiu Caloris; e lineações radiais que se prolongam desde Caloris Montes a locais mais periféricos situados até 1.000 km de distância. No mosaico de cima são visíveis algumas destas lineações a rasgar as planícies vulcânicas que caracterizam a região. A visão perpendicular desta região denuncia a presença nestas planícies de "crateras fantasma", antigas crateras de impacto preenchidas por copiosos volumes de lava solidificada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Exploração de Marte: retrato de família de todas as missões enviadas ao planeta vermelho

O autor do blog Astrosaur.us Jason Davies criou um bonito poster que junta num mesmo retrato todas as missões enviadas a Marte. Estão incluídas junto a cada representação das sondas as datas de lançamentos e um breve comentário aos respectivos destinos.

Retrato de família de todas as missões enviadas a Marte, incluindo a Curiosity lançada ontem (clicar na imagem para aumentar).
Crédito: Jason Davies.

sábado, 26 de novembro de 2011

Curiosity está a caminho de Marte!

O robot Curiosity já se encontra na sua jornada em direcção ao planeta vermelho! De acordo com a NASA, a cápsula que transporta o sofisticado robot está em excelentes condições e a transmitir telemetria para o centro de comando da missão. Se tudo correr bem, o Curiosity deverá chegar a Marte a 06 de Agosto de 2012 para uma descida até ao interior da cratera Gale, onde iniciará uma busca pelos vestígios de antigos ambientes habitáveis. Vejam (ou revejam) em baixo o lançamento da missão e a fase de separação da cápsula do Curiosity do módulo Centaur.


Missão Curiosity: lançamento em directo

Já se encontra posicionado no Complexo de Lançamentos Espaciais 41, em Cabo Canaveral, Florida, o foguetão Atlas V com a sua preciosa carga, o robot Curiosity. Caso as condições meteorológicas o permitam, a ambiciosa missão deverá partir dentro de pouco mais de 14 horas numa viagem de 36 semanas até à cratera Gale na superfície de Marte!
Podem assistir à transmissão do lançamento em directo aqui no blog ou através da NASA TV. A janela de lançamento estará aberta entre as 15:02 e as 16:45 (hora de Lisboa). Os primeiros comentários em directo deverão começar, no entanto, pelas 12:30.
Força, Curiosity!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Espectacular erupção de um filamento magnético seguida de uma ejecção de massa coronal

O gigantesco filamento que adornou o disco solar durante vários dias desintegrou-se anteontem após uma violenta explosão. A erupção lançou no espaço uma densa nuvem de plasma para longe do plano orbital dos planetas, pelo que nenhum deverá ser atingido. Os observatórios espaciais SOHO e SDO registaram imagens impressionantes do fenómeno.

A erupção de um gigantesco filamento magnético no quadrante noroeste do disco solar. Imagens obtidas a 22 e a 23 de Novembro de 2011 pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory (SDO), através do canal de 304 Å (He II), e pelo coronógrafo LASCO do Solar and Heliospheric Observatory (SOHO).
Crédito: SDO/AIA consortium/LASCO/SOHO Consortium/NRL/ESA/NASA/Helioviewer.

Comparação das dimensões do filamento pouco antes da erupção com o diâmetro da Terra.
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium/NASA (imagem da Terra)/montagem de Sérgio Paulino.

domingo, 20 de novembro de 2011

Crónicas de uma supertempestade em Saturno

No início de Dezembro do ano passado, a face aparentemente serena de Saturno foi perturbada pelo súbito aparecimento de um poderoso turbilhão de nuvens esbranquiçadas. Em apenas dois meses, uma violenta tempestade convectiva irrompeu desse foco inicial, expandindo-se para leste numa colossal banda que abraçou as latitudes temperadas do hemisfério norte do planeta. Com mais de 300 mil quilómetros de comprimento, esta foi a maior perturbação atmosférica observada em Saturno nos últimos 20 anos!

A cabeça da supertempestade de Saturno num mosaico em cores falsas obtida pela sonda Cassini a 11 de Janeiro de 2011, através de filtros de infra-vermelho sensíveis a diferentes graus de absorção do metano. As diferentes cores representam nuvens a diferentes profundidades na atmosfera saturniana. Vermelho e laranja representam nuvens profundas. As nuvens coloridas a amarelo e verde encontram-se em níveis intermédios. As nuvens mais altas e a neblina das camadas superiores da atmosfera surgem aqui coloridas a azul e a branco.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

Fenómenos extremos como este não são novidade em Saturno. Intensas tempestades com as mesmas características fustigam o hemisfério norte do planeta a cada 20 a 30 anos. No entanto, desta vez os cientistas puderam contar com a presença de uma sonda interplanetária na órbita do planeta. Com a ajuda da sonda Cassini, puderam observar com um detalhe sem precedente o nascimento e a evolução de uma supertempestade de Saturno, registando de forma sistemática as mudanças tumultuosas por si exibidas ao longo de cerca de 200 dias de actividade (um verdadeiro recorde, tendo em conta que a mais longa até então observada, a tempestade de 1903, tinha durado apenas cerca de 150 dias).
Na semana passada, a equipa de imagem da missão deu a conhecer no seu site parte das belíssimas imagens que compõem este magnífico espólio. Deixo-vos aqui algumas para vossa apreciação.

Evolução da supertempestade de Saturno, desde o seu nascimento a 5 de Dezembro de 2010 até à fusão da frente da tempestade com a sua cauda, cerca de 9 meses depois. Imagens em cores aproximadamente naturais.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

A supertempestade de Saturno da cabeça à cauda. Mosaico de 126 imagens em cores aproximadamente naturais obtidas pela sonda Cassini a 06 de Março de 2011, mostrando toda a extensão da tempestade.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

Detalhes da supertempestade e do seu movimento num intervalo de 11 horas. Mosaicos construídos com imagens obtidas a 07 de Agosto de 2011 pela sonda Cassini, através de filtros para bandas específicas do infravermelho próximo.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Lagos subsuperficiais na crusta gelada de Europa?

A lua Europa em cores aproximadamente naturais. Mosaico construído com imagens obtidas pela sonda Galileo.
Crédito: NASA/Ted Stryk.

Foi publicado ontem na revista Nature um interessante artigo que descreve um novo modelo de formação do terreno caótico da lua Europa. Baseado em análises fotogramétricas e fotoclinométricas da topografia de Conamara Chaos e de Thera Macula, o novo modelo sugere que estas regiões são produto da infiltração e expansão de grandes massas de água líquida no seio da crusta gelada de Europa.
As duas regiões encontram-se entre as poucas superfícies europeanas fotografadas em alta resolução pela sonda Galileo. Ambas são formadas por matrizes de gelo de aspecto desordenado e textura irregular, que rodeiam blocos elevados, aparentemente correspondentes a fragmentos do terreno pré-existente. Cerca de 15 a 40% da superfície de Europa é formada por terrenos com esta natureza.

Mosaico cobrindo uma parte da região de Conamara Chaos, com uma área aproximada de 35 por 50 quilómetros. Reparem como os blocos irregulares embebidos na matriz congelada parecem conservar os padrões de falhas tectónicas que se encontrariam desenhadas no terreno pré-existente.
Crédito: NASA/JPL.

Até hoje , os cientistas têm interpretado o aspecto bizarro do terreno caótico de Europa como resultado de três processos distintos: actividade criovulcânica localizada; movimento de células convectivas ou diapiros no interior da crusta de gelo; ou fusão da camada de gelo superficial por contacto directo com as águas tépidas do oceano global europeano. Os primeiros dois processos funcionam apenas se a crusta de gelo tiver uma espessura superior a 10 quilómetros. O terceiro necessita de uma crusta fina e permeável, algo apenas possível se o calor de maré gerado no interior de Europa for substancialmente superior àquele calculado pela maioria dos investigadores.

Crusta fina ou crusta espessa? Representação artística dos dois modelos do interior de Europa. No modelo da crusta fina, a quantidade de calor gerada no fundo do oceano global europeano pode provocar a fusão da fina camada de gelo superficial, e consequentemente a formação de terreno caótico com deslocação de blocos de gelo. No modelo da crusta espessa, o calor gerado no interior de Europa não é suficiente para fundir a espessa camada de gelo que separa o oceano da superfície, pelo que estruturas como o terreno caótico se devem ao movimento de células convectivas de gelo.
Crédito: NASA/JPL/Michael Carroll.

O novo trabalho congrega aspectos dos dois modelos. De acordo com os autores, a análise da topografia destas regiões e a sua comparação com ambientes terrestres com características semelhantes, sugere que a formação do terreno caótico é um processo complexo que resulta da interacção das camadas superficiais de gelo impuro com gelo relativamente puro transportado por convecção das camadas mais profundas da crusta. Esta interacção tem como consequência directa a formação de massas líquidas de água que se concentram a profundidades mínimas de 3 quilómetros. A perda de volume resultante da fusão do gelo conduz à deformação e fragmentação da camada superficial - um processo que, segundo os autores, se encontra actualmente em actividade em Thera Macula. O ciclo encerra-se com a solidificação da massa liquida subsuperficial, o que provoca a formação de irregularidades topográficas típicas de regiões como Conamara Chaos.

Representação artística de um grande lago subsuperficial no interior da crusta de gelo de Europa.
Crédito: Britney Schmidt/Dead Pixel FX/University of Texas, Austin.

Apesar de ser fundado na concepção da crusta espessa, este novo modelo permite o transporte de nutrientes e energia do oceano europeano para as camadas mais superficiais, uma particularidade interessante do ponto de vista da Astrobiologia. Caso se confirme a sua existência, os lagos subsuperficiais de Europa serão certamente alvos preferenciais para futuras missões científicas a este magnífico pequeno mundo.
Podem encontrar este artigo aqui. Sugiro também a leitura destes dois artigos: Chaos on Europa, por Greenberg e colegas; e A Melt-through Model for Chaos Formation on Europa, por O'Brien e colegas.