quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Opportunity descobre mais uma evidência do passado húmido de Marte

No início de Novembro, o robot Opportunity observou uma estranha linha esbranquiçada a sobressair ligeiramente da superfície rochosa no extremo noroeste do Cabo York. Baptizada com o nome Homestake pela equipa da missão, a pequena formação não tinha mais de 40 a 50 cm de comprimento e 1 a 2 cm de largura, mas destacava-se claramente pelo seu intenso brilho na paisagem desta região da superfície marciana.

Um pequeno veio mineral conhecido informalmente por Homestake, observado pelo robot Opportunity no extremo noroeste do Cabo York. Imagem obtida a 07 de Novembro de 2011 pela sua câmara frontal.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

Depois de uma inspecção mais próxima ficou claro que a curiosa formação era um veio de um depósito sedimentar aparentemente constituído por gesso, um mineral muito comum na Terra (os maiores cristais terrestres de gesso encontram-se na famosa mina de Naica, no México). Formada por moléculas diidratadas de sulfato de cálcio, o gesso (também conhecido por gipsite ou gipsita) é depositado em veios rochosos pela circulação de soluções sulfatadas saturadas. No caso do veio descoberto pelo Opportunity, a solução aquosa que lhe deu origem resultou provavelmente da dissolução de cálcio e compostos de enxofre provenientes de rochas e gases vulcânicos.

Imagem em cores naturais de Homestake obtida a 07 de Novembro de 2011 pela câmara panorâmica do robot Opportunity.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Cornell/ASU.

Visão aproximada de um fragmento de Homestake obtida pela câmara microscópica do robot Opportunity.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Cornell/USGS.

Durante a sua longa viagem pelas planícies arenosas de Meridiani Planum, o robot Opportunity encontrou materiais rochosos compostos por sulfatos de magnésio, ferro e cálcio, minerais que apontam para um passado húmido em Marte. O veio brilhante encontrado no Cabo York apresenta altíssimas concentrações de cálcio e sulfato, numa razão que sugere a presença no local de cristais de sulfato de cálcio relativamente puros. Esta invulgar composição é um forte indício de que os depósitos de Homestake foram produzidos em condições mais neutras que as que geraram outras rochas analisadas pelo Opportunity. Homestake "poderá ter sido formado num ambiente aquoso diferente, um mais favorável para uma grande variedade de organismos vivos" afirmou ontem Benton Clark, um dos membros da equipa científica da missão, numa pequena conferência no encontro de Outono da American Geophysical Union.
O robot Opportunity prepara-se agora para passar mais um longo inverno marciano, o seu quinto desde que chegou ao planeta vermelho. Neste momento, o explorador da NASA dirige-se para uma vertente soalheira no extremo norte do cabo York, um local com vista para o interior da cratera Endeavour, pelo que deveremos vir a ter belas panorâmicas sobre a gigantesca cratera nos próximos tempos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Missão Kepler confirma o seu primeiro planeta na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol

Representação artística de Kepler-22b, uma super-Terra recentemente detectada pelo telescópio espacial Kepler na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol.
Crédito: NASA/Ames/JPL-Caltech.

A equipa da missão Kepler anunciou ontem a confirmação do seu primeiro planeta na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol. Também conhecida como zona de Goldilocks, a zona habitável de uma estrela é uma região em seu redor onde a pressão e a composição da atmosfera de um planeta telúrico possibilitam a presença de água no estado líquido. O telescópio espacial Kepler já tinha identificado dezenas de potenciais candidatos planetários cuja órbita se situa em tais regiões; no entanto, até ontem, nenhum tinha sido confirmado com observações subsequentes.
O novo objecto denomina-se Kepler-22b e é uma super-Terra com um raio 2,4 vezes maior que o nosso planeta e um período orbital de 289,9 dias. A estrela hospedeira Kepler-22 (também designada KOI-087) encontra-se a cerca de 600 anos-luz da Terra, na direcção da constelação do Cisne, e tem um tipo espectral G semelhante ao Sol (embora seja ligeiramente mais pequena e fria).

Diagrama comparando o sistema de Kepler-22 com o Sistema Solar interior. Estão representadas as respectivas zonas de Goldilocks de cada estrela.
Crédito: NASA/Ames/JPL-Caltech.

Não se sabe ainda qual a composição de Kepler-22b pois a sua massa ainda não é conhecida com precisão. O novo planeta poderá ser maioritariamente metálico como Mercúrio, rochoso como a Terra, ou poderá ser um "planeta de água", um objecto pouco denso coberto por um profundo oceano global.
Podem ler mais sobre esta descoberta aqui e sobre todas as novidades da missão Kepler aqui.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Cometa rasante da família Kreutz descoberto por astrónomo amador

O astrónomo amador australiano Terry Lovejoy descobriu no passado dia 27 de Novembro um pequeno cometa numa trajectória que o torna verdadeiramente especial. Designado oficialmente C/2011 W3 (Lovejoy), o novo objecto vai passar no próximo dia 15 de Dezembro a cerca de 180 mil quilómetros da superfície do Sol, o suficiente para que não sobreviva intacto ao encontro.

O cometa C/2011 W3 (Lovejoy) numa imagem resultante da combinação de 10 exposições de 10 segundos cada obtidas no passado dia 02 de Dezembro.
Crédito: Michael Mattiazzo.

C/2011 W3 (Lovejoy) é o mais recente membro da família Kreutz, um grupo de cometas rasantes ao Sol que partilham os mesmos parâmetros orbitais. A grande maioria destes objectos apenas se tornam suficientemente brilhantes quando se encontram a pouca distância do Sol, pelo que nos últimos anos têm sido identificados em grande quantidade em imagens obtidas pelo coronógrafo LASCO do observatório solar SOHO. Na verdade, este novo objecto tem a particularidade de ter sido o primeiro cometa rasante a ser detectado através de telescópios terrestres em mais de 40 anos - um feito verdadeiramente extraordinário! Curiosamente, Terry Lovejoy, o autor desta descoberta, é também um pioneiro na detecção de cometas em imagens do SOHO.
Espera-se que C/2011 W3 (Lovejoy) realize a sua primeira aparição nas imagens do coronógrafo LASCO a 12 de Dezembro. Os cometas são objectos imprevisíveis; no entanto é muito provável que este se torne num dos membros da família Kreutz mais brilhantes dos últimos anos. Por isso, olhos postos nas imagens do SOHO porque poderemos vir a assistir a um espectáculo memorável dentro de alguns dias.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Possíveis glaciares em montanhas marcianas

A água é certamente um dos recursos mais limitantes na exploração humana de Marte. O seu transporte até à superfície do planeta vermelho é impraticável dadas as grandes quantidades de combustível requeridas, pelo que embarcar futuros exploradores em tamanha empresa poderá depender tão somente da descoberta de fontes de água no subsolo marciano.
Desde a sua chegada a Marte, a Mars Reconnaissance Orbiter tem sondado a superfície marciana com o seu instrumento SHARAD (Shallow Radar) em busca de água líquida ou congelada no subsolo a profundidades até 1 quilómetro. Nos seus quase 6 anos de actividade, a sonda da NASA conseguiu detectar um número impressionante de vastas massas de gelo de água protegidas por mantos de fragmentos rochosos em encostas montanhosas situadas nas latitudes médias do planeta vermelho. Recentemente, a sonda europeia Mars Express fotografou uma dessas regiões.

Secção sul de Phlegra Montes fotografada pela câmara HRSC da sonda Mars Express, a 01 de Junho de 2011. A imagem tem uma resolução de cerca de 16 metros/pixel.
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

Phlegra Montes é uma extensa cordilheira montanhosa que se prolonga desde a porção nordeste dos terrenos vulcânicos de Elysium Planitia até às terras baixas a leste de Arcadia Planitia. Pensa-se que as suas baixas montanhas e colinas terão sido elevadas da superfície pela acção de antigas forças compressivas numa longa falha existente na região.

Mapa topográfico mostrando a cadeia montanhosa de Phlegra Montes e os terrenos adjacentes. O rectângulo mais pequeno indica a região representada na imagem obtida pela Mars Express.
Crédito: NASA MGS MOLA Science Team.

As novas imagens obtidas pela Mars Express mostram que quase todas as montanhas de Phlegra Montes se encontram rodeadas por unidades geológicas morfologicamente semelhantes aos glaciares terrestres. Estudos anteriores demonstraram que os fragmentos rochosos observados na superfície destas estruturas fluíram lentamente pelas encostas montanhosas, o que sugere a presença de glaciares subsuperficiais nestas regiões. Estas interpretações são corroboradas pelas imagens de radar obtidas nestes locais pela Mars Reconnaissance Orbiter, que mostram evidências da presença de gelo provavelmente a profundidades de apenas 20 metros!
Pensa-se que estas estruturas poderão ter surgido várias vezes ao longo das últimas centenas de milhões de anos, em períodos em que o eixo de rotação de Marte apresentava uma inclinação significativamente diferente da observada nos dias de hoje. Segundo os cientistas, as diferentes condições climatéricas presentes nesse período poderiam ter gerado um ambiente propício à queda e acumulação de neve nestas regiões, que ao ser compactada nas vertentes inclinadas das montanhas e crateras marcianas produziriam grandes glaciares que esculpiriam as características formações actualmente visíveis nas latitudes médias do planeta vermelho.

Perspectiva frontal sobre um dos vales glaciares de Phlegra Montes. É visível ainda uma cratera coberta por uma estrutura lobada provavelmente formada por gelo de água coberto por detritos rochosos.
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

Outra perspectiva sobre a mesma região. Reparem na extensa formação lobada que se espraia a norte do vale glaciar. Será esta uma vasta massa de gelo subsuperficial?
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Júpiter sobre a Torre de Belém

Júpiter brilhando alto no céu vespertino sobre as águas tranquilas do estuário do rio Tejo.
Crédito: Sérgio Paulino.

Na passada sexta-feira, depois de sair do trabalho, parei junto ao edifício da Fundação Champalimaud para apreciar o desfile de cores garridas que animava o céu logo após o pôr-do-sol. À medida que o ambiente escurecia, dois pontos brilhantes foram tomando o protagonismo em lados opostos do céu. A oeste, sobre o Forte de São Lourenço do Bugio destacava-se (ainda timidamente) o planeta Vénus, enquanto que a leste, na direcção da ponte 25 de Abril, pairava o gigante Júpiter. A imagem que aqui vos trago retrata este último brilhando sobre as águas do estuário do rio Tejo, um cenário onde também se incluiam outros monumentos icónicos da paisagem lisboeta: a Torre de Belém e o Santuário Nacional de Cristo Rei.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Paisagem mercuriana: o horizonte de Van Eyck

Visão oblíqua de parte da formação de Van Eyck, uma região adjacente à bacia de Caloris. Mosaico construído com uma sequência de 9 imagens obtidas pela sonda MESSENGER a 03 de Junho de 2011.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

A equipa do missão MESSENGER divulgou ontem este espectacular mosaico que retrata um visão oblíqua da superfície de Mercúrio. Obtido pela combinação de 9 imagens sequenciais, o mosaico mostra uma perspectiva invulgar de parte da formação de Van Eyck, uma extensa região formada pelo ejecta da bacia de Caloris.

Correlação entre a visão oblíqua e uma visão perpendicular sobre a mesma região. Estão indicadas cinco crateras facilmente identificáveis na visão oblíqua, bem como a direcção para onde estava voltada a câmara da sonda MESSENGER quando obteve as imagens que constituem o mosaico. Na visão perpendicular é possível observar ainda parte da bacia de Van Eyck, uma depressão com cerca de 270 km situada a leste de Caloris.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

A formação de Van Eyck é a mais proeminente de todas as unidades estratigráficas que rodeiam a bacia de Caloris. Distinguem-se em Van Eyck duas subunidades estreitamente relacionadas: crateras secundárias ao impacto que esculpiu Caloris; e lineações radiais que se prolongam desde Caloris Montes a locais mais periféricos situados até 1.000 km de distância. No mosaico de cima são visíveis algumas destas lineações a rasgar as planícies vulcânicas que caracterizam a região. A visão perpendicular desta região denuncia a presença nestas planícies de "crateras fantasma", antigas crateras de impacto preenchidas por copiosos volumes de lava solidificada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Exploração de Marte: retrato de família de todas as missões enviadas ao planeta vermelho

O autor do blog Astrosaur.us Jason Davies criou um bonito poster que junta num mesmo retrato todas as missões enviadas a Marte. Estão incluídas junto a cada representação das sondas as datas de lançamentos e um breve comentário aos respectivos destinos.

Retrato de família de todas as missões enviadas a Marte, incluindo a Curiosity lançada ontem (clicar na imagem para aumentar).
Crédito: Jason Davies.