domingo, 18 de dezembro de 2011

As cores de Titã

Retrato de Titã em cores naturais. Composição construída com três imagens obtidas a 16 de Dezembro de 2011 pela sonda Cassini, através de filtros para as cores azul, verde e vermelho.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A atmosfera de Titã é única no Sistema Solar. Apesar de ser constituída quase na totalidade por azoto e metano (respectivamente, 95,0% e 4,9% na troposfera inferior), alberga uma variedade impressionante de outros compostos moleculares. Na sua viagem até à superfície titaniana, a sonda Huygens conseguiu detectar quantidades vestigiais de hidrogénio, árgon, monóxido de carbono, ácido cianídrico, dióxido de carbono e vapor de água, bem como mais de vinte outros compostos orgânicos, contando-se entre os mais abundantes: o etano, o acetileno, o propano, o etileno, o metilacetileno, o acetonitrilo, o cianoacetileno, o diacetileno, o dinitrilo e o benzeno. Toda esta riqueza química tem origem na destruição das moléculas de metano na termosfera titaniana, pela acção da radiação ultravioleta, dos raios cósmicos e das partículas do vento solar aprisionadas e aceleradas pelo campo magnético de Saturno.
No entanto, nenhuma destas moléculas é responsável pela distinta cortina alaranjada que oculta a superfície de Titã. A mesma fábrica química que destrói o metano nas camadas mais elevadas da atmosfera, produz um grupo enigmático de moléculas complexas conhecidos por tolinas, que formam uma fina névoa azulada logo acima da estratosfera. Desconhece-se a estrutura química destes compostos, mas a sua precipitação para as camadas atmosféricas mais baixas poderá estar na origem da neblina alaranjada de Titã, provavelmente pela sua transformação química em compostos mais complexos, tais como os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Lovejoy sobrevive!

Esta é uma notícia acabada de ser divulgada pela NASA. Lovejoy sobreviveu à passagem pelo periélio! O cometa conseguiu reemergir intacto do outro lado do disco solar! Aqui têm as imagens.

Lovejoy reemergindo do seu encontro com o Sol. Imagem obtida esta noite pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory (SDO), através do canal de 171 Å (Fe IX).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium.

Para os mais desatentos, Lovejoy é um membro da família de cometas rasantes Kreutz recentemente descoberto por Terry Lovejoy, um astrónomo amador australiano. Poucas horas antes de passar a menos de 140 mil quilómetros da superfície solar, Lovejoy atingiu um brilho de magnitude -4, tornando-se no cometa rasante ao Sol mais brilhante das últimas décadas. Para aprender um pouco mais sobre estes objectos, a NASA reservou parte do precioso tempo do Solar Dynamics Observatory para acompanhar em detalhe a passagem de Lovejoy pelo periélio, passagem esta que se concretizou há pouco mais de 2 horas.
Nas próximas horas deverão ser divulgadas novas imagens deste evento. Vamos aguardar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Cometa Lovejoy entra no campo de visão do SOHO!

Anunciei aqui na semana passada a espantosa descoberta de um novo membro da família de cometas rasantes ao Sol Kreutz, realizada pelo astrónomo amador Terry Lovejoy. Na altura adiantei que o cometa iria surgir pela primeira vez nas imagens do coronógrafo LASCO do observatório SOHO esta semana. Ontem de manhã, o cometa C/2011 W3 (Lovejoy) concretizou a sua aparição no campo de visão do SOHO. Vejam em baixo:

O cometa Lovejoy visto pelo coronógrafo LASCO do observatório SOHO.
Crédito: LASCO/SOHO Consortium/NRL/ESA/NASA.

De acordo com Karl Battams (responsável pelo site de cometas rasantes ao Sol do Naval Research Laboratory), Lovejoy é sem dúvida o cometa rasante ao Sol mais brilhante alguma vez observado pelo coronógrafo LASCO. Neste momento, o seu brilho já ultrapassa a magnitude 2,0 - bem acima do limiar da visibilidade a olho nu! No entanto, se Lovejoy seguir o padrão dos outros membros da família Kreutz, o seu brilho poderá mesmo aumentar até 8 ordens de magnitude! Ou seja, poderá atingir a magnitude -4 a -5, o suficiente para ser observado em plena luz do dia com o Sol devidamente bloqueado por um edifício ou outro objecto (ATENÇÃO: nunca olhar através de binóculos ou telescópios apontados na direcção do Sol sem filtros apropriados; tal acção provocará danos irreversíveis na visão).
Dentro de 24 horas, Lovejoy fará uma passagem a apenas 140 mil quilómetros da superfície do Sol! Apesar do seu núcleo ser particularmente grande (cerca de 200 metros de diâmetro), o cometa não deverá sobreviver intacto a tal ambiente extremo.
Estarão certamente disponíveis mais informações sobre este objecto dentro das próximas horas. Fiquem atentos!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Missão Cassini: imagens espectaculares do encontro com Dione

Depois da fenomenal série de trânsitos observados na semana passada, a Cassini concretizou anteontem uma passagem a apenas 98,8 km de distância da superfície de Dione! Este encontro foi primariamente destinado à obtenção de leituras térmicas das extensas fracturas existentes no hemisfério líder, e à realização de medições da propagação de ondas rádio no interior desta lua de Saturno para a determinação do seu grau de diferenciação interna. No entanto, apesar das limitações impostas por estas observações, a equipa de imagem conseguiu programar a sonda para a captação de algumas das mais belas imagens de toda a missão. Vejam em baixo:

Ocultação de Mimas pela lua Dione. Imagem obtida pela Cassini a 12 de Dezembro de 2011.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Mimas reemergindo no lado nocturno de Dione. Imagem obtida pela Cassini a 12 de Dezembro de 2011.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

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A pequena lua Prometeu pouco antes de ser ocultada por Dione. Estão incluídos neste cenário os anéis de Saturno e a lua Epimeteu. Animação composta por três imagens obtidas pela sonda Cassini a 12 de Dezembro de 2011.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/animação de Sérgio Paulino.

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Mais uma ocultação de uma lua pastora por Dione. Desta vez é Pandora a assumir o protagonismo. Animação composta por duas imagens obtidas pela sonda Cassini a 12 de Dezembro de 2011.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/animação de Sérgio Paulino.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Festim de trânsitos na órbita de Saturno

A Cassini assistiu na semana passada a uma fenomenal sequência de trânsitos envolvendo quatro das cinco maiores luas de Saturno. Durante a actual fase equatorial da missão, a Cassini beneficia de uma posição privilegiada para observar as luas mais interiores do sistema sem a interferência dos anéis. No entanto, é relativamente raro alinharem-se duas ou mais luas no seu campo de visão, pelo que os cinco trânsitos registados na semana passada foram um verdadeiro festim.
Deixo-vos aqui quatro composições em cores naturais e uma animação, cada uma a retratar um dos cinco eventos.

Dione e Reia vistos pela Cassini a 07 de Dezembro de 2011. Reia encontrava-se a 1,67 milhões de quilómetros. Dione estava mais distante, a 1,95 milhões de quilómetros. Reia exibe nesta imagem a grande cratera Tirawa (a norte), enquanto que na superfície de Dione são visíveis, de sul para norte, a grande bacia de impacto Evander e as três crateras Erulus, Lagus e Sagalis.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

Dione pouco antes de realizar um trânsito sobre a face de Titã. Imagem obtida pela sonda Cassini a 07 de Dezembro de 2011. Dione encontrava-se a 1,61 milhões de quilómetros, enquanto que Titã encontrava-se quase ao dobro da distância.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

Tétis passando entre os anéis de Saturno e a sua maior lua, Titã. Imagem obtida pela sonda Cassini a 08 de Dezembro de 2011. Tétis encontrava-se a 2,19 milhões de quilómetros, enquanto que Titã pousava mais distante, a cerca de 3,14 milhões de quilómetros.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

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Tétis passando acima do hemisfério norte de Titã. Animação composta por 25 imagens obtidas a 10 de Dezembro de 2011. Destaca-se na superfície de Tétis a grande bacia de impacto Odysseus.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/animação de Sérgio Paulino.

Reia pairando sobre o hemisfério norte de Titã. Imagem obtida a 10 de Dezembro de 2011. Nesta imagem, Reia encontrava-se muito mais próxima da sonda Cassini que a lua Titã.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A chegada da sonda Mariner 9 a Marte em filme

No passado dia 13 de Novembro completaram-se 40 anos sobre a chegada da sonda Mariner 9 a Marte. Este foi um marco histórico da exploração robótica do planeta vermelho, pois até essa data nenhuma outra sonda havia concretizado uma inserção bem sucedida na órbita marciana. Para assinalar este aniversário, um dos membros do fórum Unmanned Spaceflight.com, o checo Daniel Macháček, criou este espectacular vídeo que mostra a perspectiva da Mariner 9 sobre Marte durante a última fase de aproximação ao planeta.


O vídeo é composto por 40 imagens individuais combinadas num software de metamorfose de imagens para suavizar a animação. As imagens originais cobrem um intervalo de 43 horas (aqui compactadas em pouco mais de 2 minutos), e foram obtidas a distâncias da superfície marciana que variam entre os 850 e os 350 mil quilómetros.
À sua chegada a Marte, a Mariner 9 encontrou um planeta envolto numa densa tempestade de areia, que escondia todos os detalhes da superfície à excepção de quatro grandes manchas escuras. Na altura, os cientistas da missão concluíram que estariam a observar quatro gigantescas montanhas a espreitar no meio da poeira. A maior parecia situar-se na mesma posição de Nix Olympica, uma mancha brilhante até então apenas observada através de telescópios na Terra.
Depois da poeira assentar ficou claro que as quatro montanhas eram volumosos vulcões que excediam em altura qualquer congénere terrestre. O maior é hoje oficialmente designado Olympus Mons, e é a maior montanha do Sistema Solar. Os outros três são os grandes vulcões-escudo de Tharsis.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

20 Hz: uma visão artística de uma tempestade geomagnética

A Lighthouse é uma instituição cultural britânica que recruta artistas e realizadores cinematográficos para o desenvolvimento de trabalhos para exposições temáticas. Recentemente, a Lighthouse organizou em Barcelona a exposição Invisible Fields, uma mostra de trabalhos dedicada ao mundo invisível das ondas de rádio e das telecomunicações.
Um dos grupos de artistas participantes tem ganho particular notoriedade na internet devido ao espectacular vídeo realizado para a exposição. Denominado 20 Hz, o vídeo é uma animação digital criada a partir dos sinais electromagnéticos detectados pelo magnetómetro canadiano CARISMA durante uma tempestade geomagnética. Vejam:

20 Hz, um trabalho da autoria de Ruth Jarman e de Joe Gerhardt. Sinais de rádio obtidos durante uma tempestade geomagnética na frequência de 20 Hz são convertidos em audio e transformados num elemento visual que se move em harmonia com o elemento sonoro.
Crédito: Semicondutor.