domingo, 15 de janeiro de 2012

Pôr-do-sol num mundo distante

Conhecemos as cores do pôr-do-sol na Terra e em Marte. Mas já imaginaram um pôr-do-sol num dos distantes mundos recentemente descobertos fora do Sistema Solar?
Embora seja ainda impossível observar directamente estes fenómenos, os cientistas conhecem suficientemente bem a composição da atmosfera de alguns exoplanetas e o espectro das respectivas estrelas para os poderem reproduzir com algum rigor. Frédéric Pont, um astrofísico da Universidade de Exeter, especialista no estudo de atmosferas exoplanetárias, usou recentemente os dados científicos disponíveis do sistema planetário HD209458 para construir uma imagem de um pôr-do-sol no gigante gasoso HD209458b.

Representação artística de um ocaso visto 10 mil quilómetros acima de HD209458b. Reconstrução fiel ao que seria observado pelo olho humano, realizada a partir de espectros de transmissão obtidos pelo espectrómetro STIS do telescópio espacial Hubble.
Crédito: Frédéric Pont.

A imagem mostra um pôr-do-sol verdadeiramente extraterrestre. Apesar de HD209458 ser uma estrela semelhante ao Sol, existe sódio neutro suficiente na atmosfera do seu companheiro planetário para que a luz vermelha seja removida de forma eficaz. Nas camadas mais profundas da atmosfera, a luz azul é dispersa da mesma forma que na Terra, pelo que a estrela adquire uma estranha coloração esverdeada junto ao horizonte. Por fim, como o estrela se encontra a apenas 7 milhões de quilómetros de distância, aparenta um tamanho muito superior ao do Sol quando observado a partir do nosso planeta. Como resultado, o disco estelar de HD209458 não se limita a apenas uma camada atmosférica (como acontece na Terra). Em vez de mudar de cor à medida que se move em direcção ao horizonte, exibe as várias tonalidades descritas em cima em simultâneo!
HD209458b foi o primeiro exoplaneta a ser descoberto pelo método dos trânsitos. Podem ler mais sobre este curioso mundo aqui.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Regolito sobre basalto

Conjunto de pequenas crateras (possivelmente secundárias) localizadas no interior da cratera Tsiolkovskiy. Imagem obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter a 31 de Maio de 2011 (resolução: 61 cm/pixel).
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

A Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) localizou este curioso grupo de crateras na base da antiga cratera Tsiolkovskiy, nos limites dos depósitos basálticos que preenchem o seu interior.
Tsiolkovskiy é uma das mais espectaculares crateras de impacto do lado mais distante da Lua. Formada há cerca de 3,5 mil milhões de anos, teve tempo para acumular uma camada significativa de regolito, uma fina poeira resultante da meteorização das rochas lunares.

A cratera Tsiolkovskiy vista de uma das janelas do módulo de comando Endeavour da missão Apollo 15. Tsiolkovskiy tem cerca de 180 km de diâmetro e é uma das poucas crateras do lado mais distante da Lua inundadas por grandes volumes de basalto negro.
Crédito: NASA.

Algumas das pequenas crateras que compõem o grupo observado pela LRO apresentam uma estrutura anómala. Ao contrário da forma típica de taça, estas crateras possuem uma base abruptamente plana. Porquê?
Estas são provavelmente crateras secundárias formadas por material projectado de um impacto primário próximo. Os impactos secundários ocorrem geralmente a velocidades muito menores, pelo que dispõem de menos energia para escavar uma cratera. No caso dos exemplares aqui mostrados, os impactos responsáveis pela sua formação não tiveram energia suficiente para pulverizar a camada mais profunda de rocha sólida. A base plana destas crateras representa assim a fronteira entre a camada de basalto intacto e o regolito superficial. Ao medirem a profundidade destas crateras, os cientistas conseguem estimar com segurança a profundidade do regolito acumulado em Tsiolkovskiy.
Explorem esta e outras regiões vizinhas aqui.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Saturno em infravermelho

A sonda Cassini iniciou o ano de 2012 com várias sessões de observação dedicadas à atmosfera superior de Saturno, com o objectivo principal de estudar a sua opacidade a comprimentos de onda particulares na banda do infravermelho próximo. Deixo-vos aqui uma das mais recentes imagens de uma dessas sessões.

Saturno em cores falsas, visto pela sonda Cassini no passado dia 07 de Janeiro de 2012. Foram combinadas neste retrato do planeta três imagens obtidas na banda do infravermelho próximo, através de filtros sensíveis a diferentes graus de absorção do metano (727 nm, 752 nm e 890 nm). As cores vermelha e laranja correspondem a nuvens localizadas em camadas profundas da atmosfera. As nuvens das camadas intermédias surgem coloridas de amarelo e verde, enquanto que as nuvens mais altas e as camadas de neblina da atmosfera superior surgem tingidas de azul e branco. Os anéis aparecem coloridos de azul porque se encontram fora da atmosfera (o seu brilho não é afectado pela absorção de luz pelo metano atmosférico).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Porque é que a Lua está sempre a seguir-nos?"

Hoje, à saída de uma festinha de aniversário, fiz notar ao meu filho Gonçalo uma gloriosa Lua Cheia no céu, um pouco acima do horizonte.
- Que linda que está a Lua,  papá.
- Queres tirar uma fotografia com ela. - perguntei-lhe.
- Siiiiim!

Crédito: Sérgio Paulino.

- Papá, porque que é que a Lua está sempre a seguir-nos? - perguntou já dentro do carro, enquanto observava o seu brilho reflectido nas águas do rio Tejo.
- A Lua parece estar sempre a seguir-nos porque está muito longe e é muito grande. Está tão longe que os astronautas tiveram de viajar alguns dias no espaço para a visitar. Depois de descerem na sua superfície, viram muitas crateras e montanhas muito altas, e apanharam algumas rochas para trazerem para a Terra. Quando olharam para o céu, sabes o que é que viram?
- Não.
- Viram uma grande bola azulada... a Terra, o planeta onde tu vives.
- Uauu!

O autronauta Eugene Cernan, comandante da missão Apollo 17, segurando a bandeira norte-americana na superfície da Lua. Acima brilhava uma bola azul pálido, a Terra.
Crédito: NASA.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As cavidades de Eminescu

O anel de picos central da cratera Eminescu e as suas estranhas "cavidades". Imagem obtida pela sonda MESSENGER a 05 de Dezembro de 2011.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Durante a sua missão de 1 ano em Mercúrio, a sonda MESSENGER tem mapeado a superfície do planeta com uma resolução máxima de 250 metros/pixel. Porém, algumas pequenas áreas com particular interesse científico têm sido seleccionadas para observação a resoluções superiores. Foi este o caso da cratera Eminescu, fotografada em alta resolução no início do passado mês de Dezembro.
Eminescu é uma cratera de impacto com 130 km de diâmetro, que alberga um anel de picos central rodeado por estranhas depressões brilhantes. Desde a sua chegada à órbita de Mercúrio em Março passado, a MESSENGER tem identificado estruturas semelhantes por toda a superfície do planeta, geralmente agrupadas no interior de grandes crateras e rodeadas por terreno altamente reflectivo, tingido de um azul-claro.
Até agora, os cientistas têm apenas especulado quanto à sua origem e natureza. No entanto, a análise de imagens como esta tem revelado aos investigadores da missão detalhes surpreendentes, que os levam a concluir que estas estruturas poderão resultar de processos geológicos recentes, provavelmente, ainda presentes nos dias de hoje.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SDO observa três gigantescas proeminências solares

Três grandes proeminências solares no extremo oeste do disco solar. Imagem obtida a 02 de Janeiro de 2012 pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory, através do canal de 304 Å (He II). Foi incluída no lado direito da imagem uma representação da Terra à escala para comparação de dimensões.
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium/NASA (imagem da Terra)/montagem de Sérgio Paulino.

Ontem, três gigantescas colunas de plasma elevaram-se violentamente da superfície do Sol a uma altitude superior a 200 mil quilómetros! O fenómeno teve origem numa erupção classe C2 ocorrida na região activa 1384, agora localizada além do extremo oeste do disco solar. O Solar Dynamics Observatory registou toda a acção numa espectacular sequência de imagens. Vejam:


A erupção gerou uma ejecção de massa coronal numa direcção perpendicular à da Terra, pelo que não deverá provocar quaisquer efeitos no campo magnético terrestre.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sondas gémeas da NASA alcançam a órbita lunar

Representação artística das sondas gémeas GRAIL.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

2012 começou com duas novas sondas da NASA na órbita lunar. Depois de uma jornada de 3 meses e meio no espaço, as sondas gémeas GRAIL completaram este fim-de-semana a manobra de inserção orbital decisiva que as fez alcançar uma órbita elíptica quase polar em redor da Lua. GRAIL-A foi a primeira a chegar, pouco mais de duas horas antes do início do Ano Novo. GRAIL-B juntou-se à sua companheira de missão pelas 22:43 de ontem (hora de Lisboa), depois de uma última ignição de 40 minutos dos seus sistemas de propulsão.
Nas próximas semanas, as duas sondas vão moldar as respectivas órbitas com uma série de ignições que farão baixar o seu período orbital de 11,5 horas para menos de duas horas. A NASA prevê o arranque da fase científica da missão em Março, quando as sondas gémeas alcançarem um órbita quase circular a apenas 55 quilómetros de altitude da superfície lunar. O objectivo principal da missão GRAIL será a criação de um mapa global do campo gravitacional lunar, que permita aos cientistas deduzir a composição, densidade e estrutura do interior da Lua. Durante cerca de 82 dias, as duas sondas estarão em constante comunicação rádio, medindo a distância entre si com uma precisão de cerca de 1 μm (o equivalente a metade da espessura de um glóbulo vermelho)! Através desta técnica, as GRAIL conseguirão detectar pequeníssimas alterações nas suas posições relativas induzidas por pequenas variações locais da força da gravidade.
As duas sondas transportam ainda consigo um conjunto de câmaras designado GRAIL MoonKAM, que serão activadas no início da fase científica da missão. As câmaras fazem parte de um projecto educativo que permitirá a alunos americanos do ensino secundário o acesso a imagens de alta resolução da superfície lunar para o desenvolvimento de trabalhos e de outras actividades escolares.