segunda-feira, 5 de março de 2012

SDO observa forte fulguração solar

Depois de um período de quase duas semanas de relativa tranquilidade, a actividade solar está novamente em alta. A região activa 1429 tem estado a produzir fortes fulgurações desde que emergiu no passado dia 2 de Março no extremo leste do disco solar. O Solar Dynamics Observatory detectou hoje de madrugada mais uma explosão - uma fulguração classe-X, a mais forte até agora emitida pela região. Vejam em baixo as imagens:

Fulguração classe-X1 observada pelo Solar Dynamics Observatory na banda do ultravioleta extremo (131 Å). As variações bruscas de brilho são artefactos produzidos pelo software responsável por esta animação, e resultam de ajustes ao aumento do brilho do disco solar provocado pelo fenómeno.
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium/Helioviewer.

A explosão provocou uma momentânea interrupção na propagação de ondas rádio de alta frequência no hemisfério diurno da Terra, e libertou uma ejecção de massa coronal que deverá atingir nas próximas horas os planetas Mercúrio e Vénus. Não se esperam alterações significativas na actividade geomagnética nos próximos dias resultantes deste evento.

domingo, 4 de março de 2012

Tesouros da missão Voyager: ciclones jovianos

É impressionante a quantidade de imagens obtidas pelas duas sondas Voyager que nunca foram tornadas públicas. Tudo isso aconteceu não porque a NASA as quisesse esconder, mas porque simplesmente é um vasto material em bruto, até agora apenas usado por cientistas. E digo até agora porque felizmente começam a proliferar amadores com a paciência e a habilidade necessárias para mergulharem nesse imenso tesouro e trazerem a público belíssimos retratos dos gigantes gasosos e das suas luas. Relembro que todo esse vasto material está disponível a quem o quiser observar (e utilizar) aqui.
Daniel Macháček é um dos entusiastas desta actividade. Recentemente, desenterrou dos arquivos de dados da NASA imagens do planeta Júpiter obtidas pela sonda Voyager 2 em 1979. Com a mestria com que já nos habituou, compôs um magnífico retrato da atmosfera turbulenta do gigante gasoso. Os pormenores visíveis são impressionantes. Numa extensão de cerca de 12 mil quilómetros, desfilam grandes ciclones, cada uma com o seu respectivo olho bem delineado. Vejam:

Tempestades na Cintura Temperada do hemisfério norte de Júpiter. Mosaico de imagens obtidas pela sonda Voyager 2 a 9 de Julho de 1979. O retrato final foi colorizado, usando como modelo uma outra imagem de contexto (em baixo).
Crédito: NASA/JPL/Daniel Macháček.

Imagem de contexto em cores aproximadamente naturais, mostrado a região retratada na imagem de cima e comparando-a com as dimensões da Terra.
Crédito: NASA/JPL/Daniel Macháček.

Espectacular, não? E que tal ao som deste tema?

sábado, 3 de março de 2012

Dione tem atmosfera de oxigénio

A lua Dione fotografada pela sonda Cassini a 11 de Outubro de 2005.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

A sonda Cassini detectou pela primeira vez iões de oxigénio molecular (O2+) junto à superfície de Dione, confirmando a presença de uma ténue atmosfera em redor desta lua de Saturno. A descoberta foi divulgada num artigo recentemente publicado na revista Geophysical Research Letters (ver aqui).
Há já algum tempo que os cientistas suspeitavam da presença de O2+ em Dione. Nos anos 90, o telescópio espacial Hubble tinha detectado nesta lua saturniana a assinatura espectral de ozono (O3), o que sugeria a existência de quantidades apreciáveis de oxigénio molecular junto à sua superfície. A confirmação da existência de uma ténue atmosfera (ou exosfera) de O2+ em Dione surgiu a 7 de Abril de 2010, durante uma passagem próxima da sonda Cassini, a apenas 503 quilómetros de altitude. Com o seu instrumento INMS (Ion and Neutral Mass Spectrometer), a sonda da NASA mediu densidades de iões situadas entre 0,01 e 0,09 O2+.m-3,o equivalente ao encontrado a 480 quilómetros acima da superfície terrestre.
Terá a exosfera de Dione origem biogénica? É muito improvável que tal ocorra. Como explicam os autores do artigo, o oxigénio molecular de Dione deverá ser libertado da sua superfície pelo intenso bombardeamento do gelo de água superfícial com protões solares ou outras partículas energéticas. Os cientistas da missão vão, no entanto, continuar a procurar outros processos responsáveis pelo O2+ da exosfera dioniana, incluindo mecanismos geológicos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Lua, Vénus, Júpiter e outras maravilhas celestes

Vénus, Júpiter e a Lua convergiram ontem nos céus crepusculares para formar um brilhante triângulo escaleno. O espectáculo serviu de pretexto para um passeio familiar até às falésias do Guincho, local onde também pudemos desfrutar de um bonito pôr-do-sol. Durante quase uma hora apontei a minha máquina fotográfica ao Sol, ao trio planetário e a outros alvos celestes. Deixo-vos aqui algumas das muitas fotografias tiradas ontem por mim.

Pôr-do-sol visto a 25 de Fevereiro de 2012, a partir das falésias da praia do Guincho.
Crédito: Sérgio Paulino.


Um disco solar ovalado, um fenómeno óptico resultante da refracção provocada pela atmosfera junto ao horizonte. A espessa neblina que ontem se concentrava junto ao mar criou um filtro natural que permitiu também a observação da maior mancha solar actualmente visível no Sol, a AR1423.
Crédito: Sérgio Paulino.


Vénus e a Lua separados no céu por apenas 3,5º. Reparem como é visível na imagem a face nocturna da Lua iluminada pelo brilho da Terra.
Crédito: Sérgio Paulino.


O trio Júpiter, Vénus e a Lua.
Crédito: Sérgio Paulino.


Orionte, o caçador. Esta é a mais brilhante constelação visível nesta altura do ano logo após o pôr-do-sol.
Crédito: Sérgio Paulino.

Caso não tenham assistido ao espectáculo de ontem, terão nova oportunidade hoje, logo a seguir ao pôr-do-sol. O arranjo será, no entanto, um pouco diferente. A Lua estará mais próxima de Júpiter, e Vénus completará o triângulo no vértice mais distante. Os dois planetas estão entretanto a convergir para uma conjunção que se concretizará a 15 de Março, quando estiverem separados por apenas 3º.
Nos próximos dias podem ainda tentar encontrar o planeta Mercúrio logo após o pôr-do-sol. O planeta fará a sua máxima elongação a 5 de Março, a 18º do Sol. Esta será, no entanto, uma tarefa difícil pois Mercúrio estará mergulhado no brilho do céu a poente. Por fim, espreitem o céu a nascente uma hora após o Sol mergulhar no horizonte e poderão encontrar o planeta vermelho. Marte estará em oposição no próximo dia 3 de Março.
Aproveitem o bom tempo e divirtam-se a observar o céu. O espectáculo é inteiramente gratuito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Misteriosos visitantes nas noites de Fevereiro

A Terra tem estado a receber visitas inesperadas durante todo o mês de Fevereiro. Durante as últimas semanas, grandes rochas espaciais têm colidido com a atmosfera terrestre, produzindo bolas de fogo particularmente brilhantes. Só nos EUA foram registados cerca de 6 destes fenómenos. A mais mediática foi sem dúvida a espectacular bola de fogo que no dia 1 de Fevereiro surpreendeu várias centenas de pessoas na região central do Texas.
Não é o número de bólides que tem sido invulgar neste mês. De facto, não se registou qualquer alteração significativa na frequência destes fenómenos durante todo o mês de Fevereiro. Na verdade, estes objectos têm-se destacado pela sua aparência, velocidade e trajectória. "Estas bolas de fogo atingem o topo da atmosfera com velocidades inferiores a 15 km.s-1, desaceleram rapidamente, e mantêm alguma integridade até 50 km acima da superfície terrestre", explicou ao Science@NASA Peter Brown, professor de Física da University of Western Ontario e especialista em meteoros.
Até agora, as câmaras do All-Sky Fireball Network registaram em território norte-americano cerca de meia dúzia de bolas de fogo com características semelhantes. Todas foram produzidas por grandes meteoróides, com dimensões que variam entre as dezenas de centímetros até ao tamanho de um autocarro.
A determinação das respectivas órbitas revelou algo surpreendente. "Partem todas da Cintura de Asteróides, mas não de um único ponto" explica Bill Cooke do Meteoroid Environment Office. "Não existe uma origem comum para estes objectos, o que é algo intrigante."

Sumário dos dados obtidos pelo sistema de vigilância do All-Sky Fireball Network para uma das invulgares bolas de fogo observadas este mês.
Crédito: NASA.

Não é a primeira vez que tais objectos fazem a sua aparição na Terra. Desde a década de 60, astrónomos amadores têm testemunhado um crescente número de bolas de fogo muito brilhantes penetrando fundo na atmosfera nas noites frias de Fevereiro. Nos anos 90, o astrónomo Ian Holliday analisou fotografias de centenas de bólides obtidas nas duas décadas anteriores. Holliday concluiu que deve existir um fluxo de meteoróides a intersectar a órbita da Terra nesta altura do ano. Os seus resultados possuem, no entanto, grandes incertezas estatísticas, pelo que permanecem controversos.
Espera-se que as imagens obtidas pela rede de câmaras do All-Sky Fireball Network possam esclarecer em breve este interessante enigma. Até lá espreitem o céu nas próximas noites. Quem sabe? Talvez assistam à chegada de mais um destes misteriosos visitantes do espaço.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um eclipse no Carnaval

A Lua passou ontem, ao início da tarde, na frente do Sol, produzindo um eclipse solar parcial apenas visível a partir do espaço. Felizmente, durante cerca de 100 minutos, o Solar Dynamics Observatory (SDO) esteve posicionado numa região favorável à observação deste fenómeno. Vejam estas belas imagens registadas pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly em diferentes comprimentos de onda:

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta extremo (AIA canal 171 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta extremo (AIA canal 304 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta (AIA canal 4500 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Vejam também este vídeo que reproduz todo o fenómeno numa variedade ainda maior de comprimentos de onda:


Sempre que o Sol e a Lua se alinham com o SDO, a equipa da missão fica com uma oportunidade valiosa para calibrar os sistemas ópticos do observatório. A fina silhueta da Lua projectada no disco solar permite aos cientistas rastrear e corrigir defeitos instrumentais que possam degradar a qualidade das imagens.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A paleta de Amaral

Fim de tarde na cratera Amaral. Imagem obtida pela sonda MESSENGER a 04 de Fevereiro de 2012.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Os cumes dos picos centrais da cratera Amaral brilhavam intensamente à luz do Sol vespertino quando a sonda MESSENGER obteve este magnífico retrato. Observada pela primeira vez durante a primeira passagem da sonda da NASA por Mercúrio, Amaral atraiu a atenção dos investigadores da missão pela sua curiosa paleta de cores (bastante proeminentes nas composições em cores falsas). Os seus picos centrais destacavam-se particularmente pela sua cor relativamente azulada em comparação com o terreno envolvente, uma tonalidade que muito se assemelha à observada nos picos centrais de Eminescu, locais onde foram identificados impressionantes conjuntos de cavidades. Não se sabe ainda se Amaral exibe estruturas semelhantes às de Eminescu, mas os cumes brilhantes dos seus picos centrais parecem denunciar a sua presença.

A superfície de Mercúrio fotografada pela sonda MESSENGER em cores falsas, durante a sua primeira passagem pelo planeta em 2008. As diferentes tonalidades representam diferentes composições minerais. Estão identificadas na imagem a bacia de impacto de Caloris e as cratera Amaral, Eminescu e Raditladi. As três crateras exibem no seu interior uma forte tonalidade azulada, que se correlaciona em Eminescu e Raditladi com estranhas depressões brilhantes conhecidas pelos investigadores da missão por "cavidades".
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington (apontamentos de Sérgio Paulino).

Amaral recebeu o seu nome em honra à pintora brasileira Tarsila do Amaral (1886 - 1973), figura central da primeira fase do movimento modernista brasileiro. São da sua autoria algumas das obras mais aclamadas da arte latino-americana (vejam aqui algumas das obras mais famosas).