domingo, 18 de março de 2012

Estará o impacto de um asteróide na origem das anomalias magnéticas da Lua?

Os cientistas têm-se intrigado com as anomalias magnéticas encontradas em algumas regiões da Lua desde que os astronautas da missão Apollo 12 descobriram, pela primeira vez, rochas fortemente magnetizadas nas planícies de Mare Cognitum, no sul de Oceanus Procellarum. Tipicamente, as rochas recolhidas nas missões Apollo são pobres em ferro, o que lhes confere um fraco potencial de magnetização. Por outro lado, a distribuição de regiões fortemente magnetizadas na superfície lunar nem sempre se correlaciona com estruturas geológicas que possam fornecer pistas sobre a sua origem, como por exemplo, bacias de impacto, vulcões ou fluxos de lava. Um trio de investigadores acreditam agora terem encontrado na antiga bacia de impacto de Pólo Sul-Aitken a chave para a solução deste enigma.

Astronauta da missão Apollo 12 colhendo uma amostra de rocha lunar.
Crédito: NASA.

Com um diâmetro médio de 2.200 km e com cerca de 13 km de profundidade, a gigantesca depressão é a maior estrutura de impacto do Sistema Solar. A sua forma elíptica é uma clara evidência de que terá sido esculpida pelo impacto de um grande objecto numa trajectória oblíqua. A norte de Pólo Sul-Aitken concentra-se o mais proeminente grupo de anomalias magnéticas de toda a superfície lunar.

A bacia de impacto de Pólo Sul-Aitken. Estão evidenciados a vermelho na metade esquerda da imagem os grupos de anomalias magnéticas situadas no limite norte da depressão.
Crédito: NASA/LRO/Science/AAAS.

Mark Wieczorek do Institut de Physique du Globe de Paris e os seus dois colegas do Massachusetts Institute of Technology publicaram um artigo na revista Science onde especulam que esta coincidência é uma forte evidência de que a gigantesca bacia foi esculpida por um grande asteróide com 10 a 30% de ferro na sua composição, e cerca de 100 vezes mais magnetizado que os materiais da crusta lunar. Para testarem a sua hipótese, os investigadores realizaram várias simulações de impacto em computador, onde fizeram variar as dimensões do projéctil, a sua velocidade e o ângulo da sua trajectória. Descobriram que o impacto de um asteróide rico em ferro, com 200 km de diâmetro, num ângulo de 45º e a uma velocidade de 15 km.s-1 provocaria a distribuição dos seus materiais num padrão semelhante ao observado para as anomalias magnéticas lunares. Curiosamente, as simulações reproduzem inclusive a presença de fortes anomalias isoladas no lado mais próximo da Terra, como é o caso de Reiner Gama e Descartes.
Os fragmentos metálicos do asteróide teriam condições para ser magnetizados durante o seu arrefecimento, caso existisse um campo magnético global na Lua quando a bacia de Pólo Sul-Aitken se formou, há cerca de 4,3 mil milhões de anos - uma distinta possibilidade, de acordo com os autores. Depois do dínamo lunar cessar a sua actividade, essas regiões poderiam permanecer magnetizadas, criando o estranho retalho observado nos dias de hoje.
Podem consultar o artigo original deste trabalho aqui.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Missão LRO comemora 1000 dias na órbita da Lua com dois espetaculares vídeos

A sonda Lunar Reconnaissance Orbiter completou anteontem 1.000 dias na órbita da Lua. Para assinalar tão impressionante longevidade, a equipa científica da missão preparou dois espectaculares vídeos. O primeiro, intitulado Evolution of the Moon, mostra a evolução da Lua ao longo de 4,5 mil milhões de anos em pouco mais de 2 minutos e meio. O segundo vídeo, Tour of the Moon, leva-nos numa visita a alguns dos locais mais interessantes da superfície lunar.

A Lua nem sempre teve o aspecto que nos é familiar. A sua superfície foi lentamente moldada ao longo de 4,5 mil milhões de anos por inúmeros impactos. Este vídeo mostra os principais eventos que esboçaram a actual face lunar.
Crédito: NASA/GSFC.

Este vídeo transporta-nos numa visita a alguns dos locais mais interessantes da superfície lunar, incluindo a gigantesca bacia de impacto de Mare Orientale, a misteriosa cratera Shackleton, os vulcões do complexo de Compton-Belkovich, ou o Vale de Taurus-Littrow, local de alunagem da missão Apollo 17.
Crédito: NASA/GSFC.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sol aponta um gigantesco buraco coronal na direcção da Terra

O Solar Dynamics Observatory tem estado a assistir nos últimos dias à lenta deslocação de um enorme buraco coronal acima da superfície do Sol. A gigantesca abertura deve a sua presença a uma lacuna na estrutura do campo magnético da coroa, que permite a fuga de um rápido e denso fluxo de partículas carregadas para o espaço interplanetário. Neste momento, o buraco coronal está voltado na direcção da Terra, pelo que se espera um aumento da actividade geomagnética nos próximos dias devido à interacção do campo magnético terrestre com o intenso vento solar gerado na região.

Buraco coronal observado ontem pelo Solar Dynamics Observatory na banda do ultravioleta extremo (193 Å). Estão representadas as linhas do campo magnético da coroa solar (representação obtida a partir de cálculos realizados com base no modelo PFSS).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium/Helioviewer.

A densidade de plasma no interior dos buracos coronais é tipicamente 100 vezes inferior à observada noutras regiões da coroa. Normalmente, os gases da coroa são superaquecidos a temperaturas superiores a 1.000.000 ºC, facto que os torna particularmente brilhantes em imagens captadas na banda do ultravioleta extremo. Devido à sua baixa densidade, os buracos coronais são relativamente mais frios e, consequentemente, mais escuros nessa zona do espectro electromagnético.
Durante os períodos de actividade solar mínima, os buracos coronais tendem a ficar confinados às regiões polares do Sol. A sua ocorrência em latitudes inferiores vai-se tornando mais comum à medida que o ciclo solar se aproxima do seu auge, pelo que a sua presença nestas regiões do disco solar nesta fase do actual ciclo é um fenómeno perfeitamente normal.

terça-feira, 13 de março de 2012

Estranho material negro em Vibídia

A cratera Vibídia, em Vesta. Imagem obtida pela sonda Dawn a 21 de Outubro de 2011 (resolução: 70 metros/pixel).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA.

Vibídia é uma pequena cratera vestiana que se destaca pela distribuição diferencial de materiais de aspecto e cor distintos em seu redor. Os materiais mais brilhantes formam um padrão circular que se estende a mais de 15 quilómetros da orla da cratera. A curta distância e no seu interior distingue-se um outro material mais escuro, curiosamente também visível na vertente de uma cratera vizinha (em baixo).
A origem e natureza deste material é ainda desconhecida, mas um levantamento preliminar da sua presença na superfície de Vesta sugere uma distribuição heterogénea (ver aqui). Em Vibídia parece localizar-se preferencialmente numa camada bem delimitada, que denuncia a presença de um estrato subsuperficial nesta região, escondido por um fino manto de regolito.
Vejam mais imagens de Vesta aqui.

domingo, 11 de março de 2012

Cratera listrada em Arabia Terra

Algumas regiões de Marte ostentam verdadeiras obras de arte. Vejam, por exemplo, o caso desta cratera fotografada recentemente pela Mars Reconnaissance Orbiter.

Listras radiais numa pequena cratera situada nos planaltos de Arabia Terra, em Marte. Imagem obtida a 05 de Fevereiro de 2012 pela câmara HiRISE da sonda Mars Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

As listras que decoram o interior desta cratera são estruturas vulgarmente encontradas em encostas por toda a superfície poeirenta de Marte. Pensa-se que são constituídas por material finamente granulado que se precipita ao longo de declives acentuados, formando bandas escuras que se desvanecem com o tempo.
A cratera da imagem destaca-se pela beleza do padrão radial de listras que exibe, certamente fruto de episódios repetidos de queda de material granulado do cimo das suas encostas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Memoriais lunares ao dia da mulher

O Dia Internacional da Mulher é assinalado em muitos países, há já várias décadas, no dia 8 de Março. A data ganhou particular relevância na União Soviética como símbolo político de exaltação da mulher soviética como peça fundamental na construção do regime comunista e na defesa da pátria durante a Grande Guerra Patriótica (II Grande Guerra Mundial).
Em 1971, os controladores da missão soviética Lunokhod 1 comemoraram a data de uma forma muito original. Ordenaram ao sofisticado robot que desenhasse com as suas rodas no regolito de Mare Imbrium um memorial ao dia da mulher. Depois de completar uma figura em forma de 8, o Lunokhod 1 reposicionou-se para criar um panorama que incluísse o memorial.

Memorial ao dia da mulher criado em 1971 pelo Lunokhod 1. Esta é uma parte do panorama fotografado pelo robot soviético pouco depois de ter criado a figura.
Crédito: Laboratory of Comparative Planetology.

Dois anos mais tarde, o seu sucessor Lunokhod 2 criaria um memorial semelhante, desta vez na orla da cratera Le Monnier, no extremo leste de Mare Serenitatis. Este segundo memorial tem a particularidade de ser facilmente reconhecível em imagens recentemente obtidas pela sonda americana Lunar Reconnaissance Orbiter.

Parte de um panorama obtido em 1973 pelo robot soviético Lunokhod 2 mostrando o memorial ao dia da mulher por si criado.
Crédito: Laboratory of Comparative Planetology.

O mesmo memorial fotografado quatro décadas mais tarde pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter. É visível a escassos metros a Luna 21, a sonda que transportou o Lunokhod 2 até à superfície da Lua.
Crédito: NASA/GSFC/ Arizona State University.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Espectacular explosão solar esta madrugada!

A região activa 1429 voltou esta madrugada à carga com uma poderosa fulguração classe X5,4, uma das mais intensas do actual ciclo. A explosão produziu de imediato uma interrupção nas comunicações rádio de alta frequência que afectou todo o hemisfério diurno terrestre durante alguns minutos. O fenómeno esteve ainda associado à libertação de uma brilhante ejecção de massa coronal que deverá passar amanhã nas proximidades da Terra e provocar uma forte tempestade geomagnética.

A fulguração desta madrugada vista pelo Solar Dynamics Observatory na banda do ultravioleta extremo (171 Å).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium/Helioviewer.

A fulguração gerou também um intenso fluxo de protões na direcção da Terra, que está a produzir neste momento uma tempestade de radiação solar classe-S3.

Um dos efeitos mais notórios das fortes tempestades de radiação solar é o ruído nos sistemas de imagem dos satélites provocado pela colisão das partículas energéticas nos seus detectores ópticos. Esta imagem foi obtida há cerca de 2 horas pelo coronógrafo LASCO do SOHO, quando a tempestade atingia uma intensidade classe S3.
Crédito: LASCO/SOHO Consortium/NRL/ESA/NASA.