sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um retrato de Vesta antes da despedida da Dawn

No passado dia 25 de Julho, a Dawn foi impulsionada pelos seus propulsores iónicos numa espiral ascendente que a tem afastado progressivamente da superfície de Vesta. No dia 4 de Setembro, a sonda abandonará definitivamente a órbita do asteróide e embarcará numa nova odisseia de dois anos e meio em direcção ao planeta anão Ceres. Durante esta fase final da sua estadia em Vesta, a equipa da missão tem aproveitado o tempo extra para realizar algumas observações adicionais, em particular, de regiões próximas do pólo norte, regiões que só agora se encontram iluminadas pelo Sol (relembro que o equinócio vernal de Vesta ocorreu no passado dia 20 de Agosto).
Para assinalar o final de mais de um ano de presença da Dawn na órbita de Vesta, o Jet Propulsion Laboratory divulgou ontem uma espectacular nova animação que simula uma visita às principais maravilhas geológicas do asteróide. O vídeo inicia-se com uma aproximação ao pólo sul e à enorme montanha implantada no centro da gigantesca bacia de impacto Rheasilvia. Depois de atravessar algumas das mais intrigantes crateras vestianas, a visita prolonga-se por Divalia Fossa, um sistema de sulcos localizados na região do equador, por Aricia Tholus, uma montanha no hemisfério norte, e pelas grandes crateras Marcia e Calpurnia, depressões que compõem parte da estrutura conhecida informalmente por "boneco de neve". O vídeo encerra com passagens por Saturnalia Fossa e pelas regiões mais setentrionais do asteróide, aqui ainda ocultadas pelas sombras do Inverno. Vejam em baixo:


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Neil Armstrong: 1930 - 2012

Neil Armstrong, comandante da missão Apollo 11.
Crédito: NASA.

Foi longe de Portugal que soube de uma triste notícia. Neil Armstong morreu anteontem, poucos dias após completar 82 anos. Submetido no início do mês a uma cirurgia ao coração, Armstrong não resistiu a uma série de complicações pós-cirúrgicas.
Homem reservado, a sua vida foi, no entanto, marcada por um evento histórico que será recordado para sempre enquanto existir humanidade. A 20 de Julho de 1969, Armstrong tornou-se no primeiro ser humano a caminhar na superfície de outro mundo. Com o seu acto heróico o Homem quebrou definitivamente as amarras com a Terra, e deu início à exploração tripulada do espaço interplanetário e dos mundos além do nosso planeta, uma aventura que, certamente, teve nas missões Apollo apenas o seu primeiro capítulo.
Até sempre, comandante Armstrong!

sábado, 18 de agosto de 2012

Monte Sharp visto pelo Curiosity: primeiro panorama em alta resolução

O monte Sharp numa composição de três imagens obtidas a 18 de Agosto de 2012 por uma das NavCam do robot Curiosity.
Crédito: NASA / JPL / Emily Lakdawalla.

Eram 13:39 locais (12:56 em Portugal) quando o Curiosity apontou as suas NavCam em direcção ao Monte Sharp (ou Aeolis Mons, como é oficialmente conhecido) para obter as primeiras imagens em alta resolução de toda a sua extensão, desde o sopé até ao topo! Bem... Na verdade, aquele não é o verdadeiro topo desta enorme montanha. Infelizmente, o ponto mais alto do monte Sharp encontra-se mais a sul, além do horizonte visível no mosaico. Para o observar com as suas câmaras, o robot Curiosity terá de escalar toda a encosta norte, uma aventura que apenas poderá concretizar depois de concluídos os seus dois anos de missão. No entanto, não desesperem porque até lá haverá muita acção!
Ontem foram anunciados pela equipa da missão os planos para as próximas semanas. Depois de terminados todos os testes e calibrações aos sistemas e equipamentos do Curiosity (actividades que consumirão pelo menos mais três semanas), a equipa deslocará o robot até ao seu primeiro alvo científico: uma área localizada 400 metros a leste do local de amartagem, designada informalmente Glenelg.

O local de amartagem do Curiosity e Glenelg, o primeiro alvo científico da missão, numa imagem obtida pela Mars Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Univ. of Arizona.

Os cientistas da missão seleccionaram Glenelg entre outros possíveis alvos porque é o ponto exacto onde se  intersectam três unidades geológicas distintas (para saberem mais pormenores sobre este local, leiam este excelente artigo da Emily Lakdawalla). Para chegar ao local, o Curiosity deverá levar cerca de 3 a 4 semanas. Depois de concluídas todas as observações em Glenelg, o robot rumará para sudoeste, em direcção a um ponto na base do monte Sharp onde uma quebra natural nas dunas permitirá o acesso à encosta íngreme.

Curiosity: impacto do disco térmico visto pela MARDI!

Continuam a chegar imagens espectaculares da entrada do Curiosity na atmosfera marciana. Ontem, o Jet Propulsion Laboratory publicou este belíssimo vídeo que mostra o impacto do escudo térmico na superfície do planeta vermelho visto pela câmara MARDI. Apreciem:


Sequência de 25 imagens (repetidas 5 vezes) mostrando o impacto do escudo térmico do Curiosity na superfície marciana. As imagens cobrem uma área com um comprimento aproximado de 1 quilómetro, e foram obtidas pela câmara MARDI quando o robot se encontrava ainda suspenso pelo paraquedas. A sequência inicia-se com o aparecimento da sombra do escudo no canto inferior esquerdo. O escudo aparece pouco depois do lado direito, e reúne-se com a sua sombra no momento em que embate violentamente no solo.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um impacto muito recente em Marte

Pequena cratera a sul de Echus Chasma fotografada em cores falsas pela Mars Reconnaissance Orbiter a 06 de Maio de 2012.
Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

A câmara HiRISE da sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) observou recentemente esta pequena cratera raiada no planalto a sul de Echus Chasma. O aspecto fresco do seu manto de ejecta indica-nos que deverá ter sido formada por um impacto muito recente. Os ventos marcianos são particularmente eficazes a dispersar os materiais escuros exumados do interior destas crateras e a cobri-los com poeiras mais claras, pelo que estruturas como os raios tendem a desaparecer rapidamente da superfície marciana. No entanto, qual será a idade exacta desta cratera em particular?
Neste caso, os cientistas sabem exactamente quão recente foi o impacto que a formou. Os raios escuros que a rodeiam eram já aparentes numa imagem obtida em 2011 pela câmara de contexto da MRO. Curiosamente, numa outra imagem captada dois anos antes pelo sistema THEMIS da Mars Odyssey, não é visível qualquer mancha escura na região, pelo que esta cratera não terá certamente mais de 3 anos, um mero instante em termos geológicos! Vejam aqui esta cratera em cores naturais.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os vossos nomes na superfície de Marte!

Tal como já havia acontecido noutras missões, a NASA deu-nos a oportunidade de enviar o nosso nome para a superfície de Marte a bordo do Curiosity. Quem aderiu a esta iniciativa teve a honra de constar numa longa lista gravada em duas placas de sílica com 23 milímetros de diâmetro.

Placa de sílica com lista de nomes enviada a bordo do robot Curiosity. No canto inferior direito encontra-se visível parte dessa lista vista ao microscópio (barra equivalente a 10 μm).
Crédito: NASA/JPL.

Em todo o mundo foram enviados 1.246.445 nomes de 246 nacionalidades diferentes. Dos territórios de língua oficial portuguesa chegaram à lista 50.815 nomes: 46.689 do Brasil, 3.899 de Portugal, 74 de Timor-Leste, 55 de Macau, 32 de Angola, 24 de Moçambique, 20 de Cabo Verde, 13 da Guiné-Bissau e 9 de São Tomé e Príncipe. Para todos estes participantes, aqui estão os vossos nomes na superfície de Marte:

A traseira do robot Curiosity com as montanhas da orla da cratera Gale em segundo plano. As pequenas placas de sílica com os nomes de mais de 1,24 milhões de pessoas de todo o mundo encontram-se abrigadas num pequeno compartimento (assinalado com um círculo vermelho) junto à antena de UHF.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Sérgio Paulino.

domingo, 12 de agosto de 2012

Curiosity: primeira semana na superfície de Marte

Faz amanhã uma semana que o Curiosity entrou na atmosfera marciana a uns estonteantes 21 mil km.h-1, para poisar apenas 7 minutos depois no interior da cratera Gale. Como tinha prometido na sexta-feira passada, vou deixar-vos aqui um sumário das actividades realizadas pelo robot durante estes primeiros sóis (cada sol corresponde a um dia marciano, ou seja, 24 horas, 39 minutos e 35 segundos), e dar-vos a conhecer alguns dados oficiais relativos à amartagem, entretanto divulgados pela equipa da missão.
Comecemos pela amartagem. De acordo com a NASA, este momento crucial da missão concretizou-se exactamente às 06:17:57 (hora de Lisboa), cerca de 13 minutos e 48 segundos antes do sinal de confirmação chegar à Terra e a euforia irromper na sala de controlo da equipa EDL (Entry, Descent and Landing). A sucessão de complicadas manobras que conduziram o Curiosity até à cratera Gale realizou-se de acordo com o previsto, colocando o robot a cerca de 2,4 quilómetros da melhor estimativa calculada logo após a amartagem, e a cerca de 6 km do seu destino, o monte Sharp.

Comparação entre o local de amartagem do Curiosity (marcado com um X vermelho) determinado a partir das imagens obtidas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), e a previsão inicial realizada pela equipa EDL (elipse azul clara). São visíveis ainda a estimativa realizada logo após a amartagem (circunferência verde) e as coordenadas determinadas pelo computador de bordo do robot (cruz preta). A ilustração mostra também os locais de impacto das massas de tungsténio usadas como lastro na entrada (marcas negras visíveis na imagem de contexto da MRO) e compara-as com as previsões realizadas pela equipa EDL (elipse e círculos azuis escuros).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/MSSS.

Os locais de repouso final do escudo térmico, do paraquedas, da cápsula e do sky crane foram entretanto identificados numa imagem obtida pela sonda MRO. O escudo térmico embateu no solo aproximadamente 1.500 metros a leste do local onde se encontra o robot. As restantes peças estão numa direcção oposta. O paraquedas e a cápsula caíram a cerca de 615 metros de distância, enquanto que o sky crane formou um leque de destroços a cerca de 650 metros do Curiosity.

Local de amartagem do Curiosity fotografado pela câmara HiRISE da MRO cerca de 24 horas após a sua chegada. Estão assinalados os locais onde repousam as 4 principais peças de hardware que acompanharam o robot até à sua entrada na atmosfera marciana.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Univ. of Arizona.

Como puderam verificar pela sucessão de espectaculares imagens divulgadas pela NASA durante toda a semana, as operações na superfície começaram pouco tempo depois das rodas do robot tocarem o solo marciano. No sol 1 (a amartagem ocorreu no sol 0 por volta das 15:00 locais), a equipa da missão esteve essencialmente ocupada a abrir a antena de alto ganho e a optimizar as comunicações com a Terra. Foram também testados alguns dos equipamentos científicos, com particular destaque para o Mars Hand Lens Imager (MAHLI), a pequena câmara localizada no braço do robot.
No sol 2, foi erguido o mastro onde se encontram as NavCam e as MastCam, e foram obtidas as primeiras imagens panorâmicas do local de amartagem. A equipa da missão continuou com a calibração da antena de alto ganho, aumentando a velocidade de envio de dados para um máximo de 256 kb.s-1. Esta tem sido a principal razão para a lentidão na chegada de imagens em alta-resolução.
A tão aguardada panorâmica a cores da MastCam foi enviada no sol 3, ainda numa versão preliminar com imagens individuais de 144 por 144 pixels. Entretanto, as versões de 1.200 por 1.200 pixels destas imagens têm estado a chegar aos poucos desde sexta-feira, e já dão para construir um fabuloso mosaico que vale a pena espreitar aqui.
Por fim, o sol 4, o último da semana, foi dedicado inteiramente à instalação de uma nova actualização do software de navegação do Curiosity, e à eliminação das versões anteriores. A nova versão, a R10, inclui todas as linhas de código necessárias para o robot se movimentar na superfície, operar o seu braço robótico e analisar amostras. Esta actividade prolongar-se-à até ao sol 8 e incluirá uma série de diagnósticos ao desempenho dos dois computadores do robot (um deles redundante). As actividades científicas ficarão assim adiadas até ao sol 9, ou seja, até à próxima quarta-feira.
Estamos quase lá!