domingo, 9 de dezembro de 2012

Sondas GRAIL completam o melhor mapa gravitacional da Lua de sempre

Mapa do campo gravitacional da Lua medido pela missão GRAIL.
Crédito: NASA/ARC/MIT.

Foram divulgados na semana passada na revista Science os primeiros resultados científicos da missão Gravity Recovery and Interior Laboratory (GRAIL). Em órbita lunar desde o início do ano, as duas sondas gémeas Ebb e Flow reuniram um conjunto de dados que disponibilizam uma visão sem precedentes da estrutura e composição interna da Lua, bem como o mais detalhado mapa gravitacional de qualquer objecto do Sistema Solar, incluindo a Terra.
Para criarem este novo mapa, as duas sondas tiveram de trocar sinais de rádio entre si durante toda a missão, com o propósito de medirem com rigor variações na distância que as separava enquanto orbitavam a Lua em perfeita formação, a apenas 55 quilómetros de altitude. À medida que sobrevoavam áreas com ligeiras variações gravitacionais associadas à presença de montanhas, crateras ou concentrações de massa subsuperficiais, as duas sondas iam sofrendo infímas perturbações na sua velocidade, medidas com uma precisão na ordem dos 55 nm.s-1 (o equivalente a 1/20.000 da velocidade de um caracol). Usando este método, os investigadores da missão conseguiram mapear uma variedade de antigas estruturas subsuperficiais, algumas delas nunca antes observadas.

Representação artística das sondas Ebb e Flow sobrevoando a Lua.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MIT.

O novo mapa mostra que o campo gravitacional da Lua preserva o registo dos violentos impactos que assolaram a superfície lunar ao longo da sua história, e revela evidências da presença de fracturas no seu interior, que se estendem até às regiões mais profundas da crusta e, possivelmente, até ao manto.
A equipa de investigadores da missão usou gradientes do campo magnético para evidenciar populações de anomalias gravitacionais lineares com comprimentos na ordem das centenas de quilómetros. Estas anomalias são interpretadas como assinaturas da presença de intrusões subsuperficiais de magma solidificado de formação anterior ao Grande Bombardeamento Tardio, período em que se formaram a maioria das grandes bacias de impacto lunares. A distribuição, orientação e dimensões destas estruturas sugerem a ocorrência de uma distensão global da crusta lunar quando a Lua era ainda um corpo jovem. Este fenómeno terá sido consequência de um aumento do seu diâmetro em cerca de 1,2 a 9,8 quilómetros, o que é consistente com as previsões dos actuais modelos de evolução térmica.

Mapa dos gradientes gravitacionais da Lua calculados pela missão GRAIL (o azul e o vermelho correspondem aos gradientes extremos).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/CSM.

Os dados obtidos pelas duas sondas mostram, ainda, que a densidade da crusta nas terras altas da Lua é de apenas 2,550 g.cm-3,um valor substancialmente inferior ao que era assumido anteriormente. Este valor está, no entanto, em concordância com os dados obtidos pelas últimas missões Apollo no início dos anos 70, uma clara indicação de que as amostras lunares recolhidas pelos astronautas americanos são representativas de processos globais.

Mapa da densidade da crusta nas terras altas dos dois hemisférios da Lua, construído com dados da gravidade lunar obtidos pela missão GRAIL e com dados topográficos da Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/IPGP.

A partir dos resultados da densidade da crusta lunar, os cientistas da missão descobriram que a espessura média da crusta se encontra entre os 34 e os 43 quilómetros, ou seja, menos 10 a 20 quilómetros que o determinado em anteriores modelos da estrutura interna da Lua. Estas dimensões médias mostram que a composição elementar da Lua é semelhante à da Terra, o que suporta os modelos que explicam a génese da Lua a partir de um impacto catastrófico na Terra, no primórdios da formação do Sistema Solar.

Mapa da espessura da crusta lunar deduzido a partir de dados da gravidade lunar obtidos pela missão GRAIL e de dados topográficos da missão Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MIT/GSFC.

Estes resultados dizem respeito apenas à missão primária das GRAIL, concluída em Maio passado. Neste momento, as duas sondas encontram-se a apenas 11 quilómetros de altitude da superfície lunar, em plena fase final da missão prolongada, missão que deverá produzir um conjunto de dados com uma melhor resolução.
Podem ler mais sobre estes resultados aqui, aqui e aqui.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Asteróide Toutatis em aproximação à Terra

Como já havia referido aqui, o asteróide 4179 Toutatis passará no próximo dia 12 de Dezembro a cerca de 7 milhões de quilómetros de distância da Terra (cerca de 18 vezes a distância média entre a Terra e a Lua). Como aconteceu em todas as suas anteriores visitas ao nosso planeta desde 1992, Toutatis será alvo de uma campanha de observação pelos radiotelescópios de Goldstone e de Arecibo que se estenderá até ao dia 22 de Dezembro. Durante esta campanha de 2012, os cientistas dos dois observatórios esperam obter imagens de radar com uma resolução máxima de 7,5 metros.pixel-1. Entretanto, já se iniciaram durante esta semana as observações em Goldstone. Vejam em baixo as primeiras três imagens de radar do encontro deste ano.

O asteróide Toutatis em três imagens de radar obtidas entre 4 e 7 de Dezembro pelo antenas de radar de Goldstone.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

Esta aproximação de Toutatis ao nosso planeta será acompanhada de um outro evento especial. A Chang'E-2 está neste momento a poucos dias de um encontro com o asteróide a cerca de 300 quilómetros de distância da sua superfície. Esta será a primeira vez que uma sonda chinesa se aventura tão longe da Terra, pelo que esta passagem terá um significado especial para o programa espacial chinês.
O encontro será, no entanto, um grande desafio para a equipa da missão. As câmaras da Chang'E-2 foram concebidas para mapear a superfície lunar (tarefa que concluiram com sucesso no início de 2011), e não para fotografar a superfície de um objecto com pouco mais de 4 quilómetros de comprimento durante uma passagem a uma velocidade estonteante de 10,7 km.s-1, pelo que, na melhor das hipóteses, a sonda deverá conseguir obter dois pares de imagens (um no ingresso e outro no egresso) com uma resolução máxima de algumas dezenas de metros. Esta resolução não se aproxima à das imagens de radar de Goldstone e de Arecibo, mas permitirá a identificação de variações de albedo ao longo da superfície de Toutatis, uma informação inacessível aos dois radiotelescópios.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Águas de antigas inundações catastróficas na superfície de Marte poderão ter sido engolidas por vastos sistemas de cavernas

Região terminal de Hebrus Valles numa imagem obtida pela sonda europeia Mars Express a 28 de Dezembro de 2007 (norte para cima).
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

Um grupo internacional de investigadores descobriu evidências de que as inundações catastróficas que rasgaram grandes vales nas terras baixas do hemisfério norte de Marte, há cerca de 2 mil milhões de anos, poderão ter sido drenadas para o subsolo marciano através de vastos sistemas de cavernas. A equipa liderada por J. Alexis P. Rodriguez chegou a esta conclusão após ter estudado um conjunto de estruturas situadas a jusante de Hebrus Valles, um sistema de vales com cerca de 250 km de comprimento situado na margem sudeste de Utopia Planitia, junto à base de Elysium Mons.
Estima-se que as inundações que escavaram os grandes vales fluviais marcianos foram as mais volumosas alguma vez ocorridas no Sistema Solar. Alguns cientistas sugerem que estas inundações periódicas poderão ter conduzido à formação de grandes lagos ou oceanos nas bacias mais profundas de Marte. No entanto, pouco se sabe acerca da sua natureza e do seu destino final, essencialmente, porque as estruturas terminais dos vales foram erodidas ou ocultadas por sedimentos.
Hebrus Valles é um conjunto de vales fluviais único em Marte, pois conserva a jusante formações geológicas contemporâneas à sua génese, interpretadas por Rodriguez e colegas como vulcões de lama alinhados com uma rede de valas lineares. O volume cumulativo de água drenada por Hebrus Valles excede largamente o volume que a rede de valas poderia comportar, pelo que os investigadores sugerem que estas estruturas são, provavelmente, secções colapsadas de um vasto sistema de cavernas criadas pelos vulcões de lama.
Apesar do vulcanismo de lama conseguir expelir grandes volumes de sedimentos e substâncias voláteis do subsolo, as cavernas por si formadas são altamente instáveis porque ocorrem no seio de materiais pouco consistentes. No entanto, o sistema de cavernas situadas a jusante de Hebrus Valles ter-se-á desenvolvido em solos gelados (permafrost), que nas temperaturas médias anuais típicas das latitudes de Utopia Planitia (cerca de -65º C) apresentam uma resistência mecânica semelhante ao calcário, um material rochoso que alberga a maioria das cavernas terrestres.
A recente descoberta de entradas para possíveis cavernas na superfície de Marte despertou o interesse da comunidade científica pelo seu potencial como habitats exobiológicos. No entanto, até agora, pouco se sabia acerca da sua idade e dimensões. A descoberta de um vasto sistema de cavernas em Utopia Planitia vem demonstrar que estes habitats existiram no planeta, pelo menos durante os últimos 2 mil milhões de anos.
Este trabalho foi publicado na semana passada na revista Geophysical Research Letters (leiam o resumo do artigo aqui).

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Voyager 1 encontra uma nova região nos limites exteriores do Sistema Solar

Representação artística da Voyager 1 explorando a nova região descoberta nas proximidades da heliopausa.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

São cada vez mais os indícios de que a Voyager 1 está à beira de abandonar definitivamente os domínios do Sistema Solar. Depois da recente detecção de um aumento rápido da densidade de partículas energéticas interestelares, acompanhada de uma diminuição brusca do nível de partículas com baixa energia provenientes do interior da heliosfera, a venerável sonda da NASA descobriu agora uma nova região onde as linhas do campo magnético do Sol se conectam às linhas do campo magnético interestelar. Estas conexões criam condições para que as partículas carregadas do meio interestelar fluam livremente para o interior da heliosfera, e as partículas carregadas com origem no Sol saiam rapidamente para o seu exterior.
Esta nova região encontra-se ainda aquém da derradeira fronteira do Sistema Solar (a heliopausa), porque a orientação das linhas do campo magnético em redor da Voyager 1 não sofreu qualquer alteração. Os cientistas da missão prevêem, no entanto, uma mudança na sua direcção assim que a sonda entrar no espaço interestelar.
A Voyager 1 tem estado a explorar a camada mais exterior da heliosfera desde Dezembro de 2004, altura em que atravessou o choque terminal, uma fronteira definida pela desaceleração abrupta do vento solar para velocidades subsónicas. Depois de navegar mais de 5 anos numa região de elevada turbulência magnética, a sonda detectou uma queda da velocidade das partículas do vento solar para valores próximos do zero, um primeiro sinal da aproximação da heliopausa. A este fenómeno seguiram-se o aumento da densidade dos raios cósmicos provenientes do espaço interestelar, a diminuição da quantidade de partículas com origem no interior da heliosfera, e um aumento gradual, mas significativo, da intensidade do campo magnético. A nova região agora descoberta possui um campo magnético 10 vezes mais intenso que o detectado antes da travessia do choque terminal, um valor que surpreendeu os investigadores.
Neste momento, a Voyager 1 encontra-se a cerca de 18,47 mil milhões de quilómetros da Terra, uma distância que a torna no mais longínquo objecto construído pelo Homem. O seu sinal leva pouco mais de 17 horas a cruzar o espaço até às antenas do Deep Space Network. A sua irmã gémea, a Voyager 2, viaja a 15,10 mil milhões de quilómetros de distância do nosso planeta, numa direcção diferente. Apesar de já ter registado alterações no ambiente em seu redor sugestivas da aproximação da heliopausa, estas aparentam ser mais graduais, pelo que os cientistas da missão não têm ainda quaisquer evidências de que a Voyager 2 tenha atingido uma região semelhante à descoberta pela Voyager 1.

Missão Curiosity: detectada química complexa no solo de Rocknest... mas sem a presença de composto orgânicos

Covas feitas pelo Curiosity nas areias de Rocknest, numa imagem obtida pela câmara MAHLI a 31 de Outubro de 2012 (sol 84).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

A equipa científica da missão Curiosity divulgou ontem, numa conferência de imprensa, os resultados da sua primeira análise completa a amostras de solo marciano recolhidas no interior da cratera Gale. Para desilusão de muitos, o robot da NASA não detectou quaisquer compostos orgânicos de origem marciana, mas encontrou uma variedade de interessantes moléculas que sugerem a presença de uma química complexa nas areias de Rocknest.
Dados recolhidos pelos instrumentos Alpha Particle X-Ray Spectrometer (APXS) e Mars Hand Lens Imager (MAHLI) confirmaram que Rocknest tem uma textura e composição química elementar semelhante ao solo de outros locais no planeta vermelho, visitados anteriormente pelas missões Pathfinder, Spirit e Opportunity. As imagens da MAHLI mostram que a pequena língua de areia se encontrava coberta por uma crusta com um a dois grãos de areia de espessura revestida por uma fina camada de poeira, o que sugere que se manteve imperturbada por muito tempo. Abaixo da crusta superficial, Rocknest revelou-se ser formada por grãos de areia escura mais finos.

Pormenores dos grãos de areia de Rocknest vistos pela câmara MAHLI. À esquerda, variedade de tamanhos nos grãos da crusta superficial numa imagem obtida a 04 de Outubro de 2012 (sol 58). À direita, finos grãos de areia escura subsuperficiais numa imagem obtida a 20 de Outubro de 2012 (sol 73).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

A composição mineralógica e química de Rocknest foi escrutinada pelo instrumento Chemistry and Mineralogy X-Ray Diffraction (CheMin) e pelo mini-laboratório de análise química Sample Analysis at Mars (SAM), em amostras recolhidas por uma pequena pá vibratória localizada na extremidade do braço robótico do Curiosity. De acordo com os dados obtidos pelo CheMin, as areias de Rocknest são constituídas por partes iguais de minerais vulcânicos comuns e de materiais não cristalinos semelhantes ao vidro vulcânico. A estes dados, o SAM adicionou informações relativas aos ingredientes presentes em menores concentrações e à razão isotópica de alguns elementos.
"Não temos uma detecção definitiva de [compostos] orgânicos marcianos nesta fase, mas vamos continuar a procurá-los nos diversos ambientes existentes na cratera Gale", afirmou na conferência de imprensa o investigador principal do SAM Paul Mahaffy.
Entre as moléculas detectadas nas areias de Rocknest não se encontravam as tão esperadas moléculas orgânicas marcianas. No entanto, o SAM identificou vários compostos interessantes entre os mais abundantes, incluindo a água (em quantidades insuficientes para suportar vida tal como a conhecemos, mas ainda assim acima do esperado), o enxofre (numa proporção até 10% no conjunto das amostras) e os percloratos (compostos muito reactivos que já haviam sido identificados nos solos árticos marcianos pela missão Phoenix). Adicionalmente, foram detectadas quantidades vestigiais de compostos orgânicos simples, que os investigadores da missão pensam ser de origem terrestre (contaminantes terrestres possivelmente presentes no interior do SAM). A razão deutério/hidrogénio medida em Rocknest é, curiosamente, cinco vezes superior à encontrada nos oceanos terrestres, um resultado importante para a compreensão da evolução do ambiente marciano.
Terminados que estão os testes a todos os equipamentos do Curiosity, ficam assim reunidas as condições para o arranque, em breve, da fase científica da missão, já com uma primeira escala em Glenelg. "Usámos quase todas as partes da nossa aparelhagem científica neste local" disse o responsável científico da missão John Grotzinger. "A sinergia dos instrumentos e a riqueza dos dados dá-nos grandes promessas para o seu uso no destino científico principal da missão, o monte Sharp."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ode a um Sol (demasiado) tranquilo

A equipa do Space Weather Prediction Center do NOAA deixou esta madrugada na sua página do facebook este belo poema dedicado ao actual estado da actividade solar. Leiam em baixo uma tradução livre desse poema para português.

O Sol visto a 03 de Dezembro de 2012, pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory (SDO), na banda do ultravioleta extremo (canal 171 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

No nosso canto do Sistema Solar

O Sol está sedado
As partículas, plácidas
O vento solar, indolente
O campo magnético, flácido

Nenhuma região está em fulguração
Nem nenhum filamento em erupção
Nenhum fluxo de alta velocidade está soprando
E a magnetosfera perturbando

Mas no coração do Sol
A fusão inabalável
Mantém tudo,
Ainda assim, em actividade.

Não faltará muito
Para novas manchas solares aparecerem
E ejecções de massa coronal acontecerem
Para os especialistas se animarem…

Rochas estratificadas em Glenelg

Vejam só este belíssimo conjunto de rochas estratificadas rasgando a paisagem de Glenelg, no interior da cratera Gale, na superfície do planeta Marte!

Rochas estratificadas em Glenelg, num panorama obtido pela MastCam-100 do Curiosity a 26 de Novembro de 2012, sol 110 da missão (explorem-no com o Zoom.it).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Sérgio Paulino.