domingo, 3 de março de 2013

Sofrerá Marte uma catástrofe global em 2014?

Representação artística do núcleo de um cometa.
Crédito: ESA/NASA.

No início de Janeiro, o astrónomo veterano Robert H. McNaught descobriu o cometa C/2013 A1 (Siding Spring), usando um dos telescópios do Observatório de Siding Spring, na Austrália. Na altura, o objecto viajava a cerca de 7,2 UA de distância do Sol, na direcção da constelação da Lebre, pelo que exibia um brilho muito débil. Logo após o anúncio da sua descoberta, astrónomos do programa Catalina Sky Survey resgataram dos seus arquivos observações adicionais obtidas a 8 de Dezembro de 2012, o que lhes permitiu encontrar uma solução para a órbita de C/2013 A1 e, para sua surpresa, extrapolar uma passagem a curta distância de Marte a 19 de Outubro de 2014.
Estas primeiras observações eram, no entanto, insuficientes para excluir um possível impacto na superfície marciana, pelo que os astrónomos têm estado desde então a reunir mais dados astrométricos para reduzir as incertezas na trajectória do cometa durante o seu encontro com o planeta vermelho. Neste momento, estão já somadas um total de 157 observações, cobrindo um período de 148 dias. Estes novos dados sugerem que C/2013 A1 passará a uma distância nominal da superfície marciana de apenas 50,1 mil quilómetros, com uma probabilidade de impacto de 1 em 1250! A essa distância, o cometa brilhará nos céus marcianos a uma magnitude aproximada de -8,5, o equivalente a 40 vezes o brilho de Vénus nos céus terrestres!
Como as comas dos cometas se estendem, geralmente, a mais de 100 mil quilómetros da superfície do núcleo, é praticamente garantido que o planeta vermelho ficará exposto a uma chuva de partículas cometárias durante a fase de maior aproximação. A maioria destas partículas são submicrométricas, mas algumas podem atingir alguns milímetros de diâmetro, um tamanho suficiente para constituírem uma ameaça às sondas presentes na altura na órbita marciana, pelo que este será, certamente, um problema a ser analisado em pormenor pelos responsáveis das missões Mars Express, Mars Odyssey, Mars Reconnaissance Orbiter, MAVEN e Mangalyaan (estas duas últimas com chegada prevista para Setembro de 2014).
Caso se verifique o cenário de impacto, o desastre será dantesco. C/2013 A1 viaja numa órbita hiperbólica retrógrada, pelo que passará por Marte a uma velocidade estonteante de 56 km.s-1! Os dados actualmente disponíveis sugerem que o núcleo deste cometa terá entre 3 a 50 km de diâmetro, o que significa que, em caso de colisão, a energia do impacto libertada atingirá no máximo o equivalente a 20 mil megatoneladas de TNT, ou seja, 350 vezes a energia libertada pela Tsar-Bomba, a mais poderosa bomba nuclear alguma vez detonada! Uma explosão desta magnitude produziria uma cratera com cerca de 500 km de diâmetro e 2 km de profundidade, e seria facilmente visível a partir da Terra. Desnecessário será referir que tal evento seria catastrófico para os robots Curiosity e Opportunity, actualmente em actividade na superfície do planeta.
C/2013 A1 estará em breve em conjunção com o Sol nos céus terrestres, pelo que voltará a posicionar-se de forma favorável para a realização de novas observações apenas no final do Verão. Nessa altura, os astrónomos reunirão, certalmente, dados suficientes para diminuírem as incertezas na trajectória do cometa ao ponto de poderem excluir ou não uma colisão com Marte em Outubro de 2014. Vamos aguardar.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma hélice no anel A de Saturno

Hélice Blériot no anel A de Saturno. Imagem obtida pela sonda Cassini a 11 de Novembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

Com apenas algumas centenas de metros de diâmetro, as mini-luas dos anéis de Saturno são objectos demasiado pequenos para poderem ser fotografados directamente pelas câmaras da sonda Cassini. No entanto, apesar do seu tamanho, a sua força gravitacional é suficiente para afectar a órbita das partículas anulares vizinhas, e criar estruturas densas em seu redor com a forma de hélices.
Na imagem de cima é possível ver a hélice Blériot (nome informal atribuído em honra ao aviador francês Louis Blériot), uma das maiores das mais de 150 até hoje identificadas no interior do anel A.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Encontrados primeiros fragmentos do meteorito de Chebarkul

Amostras do meteorito de Chebarkul recolhidas pela expedição do Comité de Meteoritos da Academia de Ciências da Rússia na região de Chelyabinsk.
Crédito: Instituto Vernadsky.

No dia 15 de Fevereiro, um meteoróide com cerca de 10.000 toneladas fez uma visita inesperada sobre a cidade russa de Chelyabinsk. O poderoso estrondo sónico sentido logo após a sua aparição fazia adivinhar que pelo menos alguns fragmentos haviam sobrevivido à passagem pela atmosfera, pelo que a Academia de Ciências da Rússia organizou rapidamente uma expedição à região para recolher as primeiras amostras. No dia seguinte foram encontrados um total de 53 fragmentos junto a um grande buraco na superfície gelada do lago Chebarkul, algumas dezenas de quilómetros a oeste de Chelyabinsk. As primeiras análises químicas realizadas no Instituto Vernadsky confirmaram que estas pequenas amostras eram pedaços de um condrito do tipo L, um meteorito vulgar pobre em ferro, provavelmente, proveniente da crusta de um asteróide.

Fragmentos rochosos encontrados no lago Cherbakul. O maior tem apenas 7 milímetros de comprimento.
Crédito: AP Photo/Universidade Federal dos Urais/Alexander Khlopotov.

Durante o resto da semana, habitantes das localidades vizinhas descobriram mais umas centenas de fragmentos de maiores dimensões enterrados na neve. Um exame preliminar a alguns destes pedaços revelou tratarem-se de condritos do tipo L5 ou LL5 não uniformes, rochas com composição semelhante à dos fragmentos do lago Chebarkul.

Corte de um dos fragmentos encontrados por habitantes locais na região do lago Chebarkul. É possível ver no seu interior grânulos redondos (côndrulos) e finos veios de fusão. A superfície encontra-se coberta por uma crusta de fusão negra, formada durante a passagem do meteorito pela atmosfera.
Crédito: Instituto Vernadsky.


A pequena Sasha Zarezina de 8 anos de idade, procurando por fragmentos do meteorito de Chebarkul numa pequena localidade nas proximidades do lago Chebarkul.
Crédito: Ben Solomon/New York Times.

Cálculos preliminares realizados pelos astrofísicos Jorge Zuluaga e Ignacio Ferrin permitiram, entretanto, reconstruir a órbita do meteoróide de Chelyabinsk. Aparentemente, este pequeno objecto era um membro da família Apolo, asteróides cujas órbitas cruzam a órbita da Terra.


Reconstrução da órbita do meteoróide de Chelyabinsk, com base na trajectória calculada a partir de vídeos obtidos por uma câmara situada na Praça da Revolução, em Chelyabinsk, e por diversas testemunhas na cidade próxima de Korkino.
Crédito: Jorge Zuluaga.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Dois cometas e a aurora austral nos céus australianos

Os cometas C/2012 F6 (Lemmon) e C/2011 L4 (PanSTARRS) estão a dar um bonito espectáculo nos céus austrais. Nas últimas semanas, os dois objectos tornaram-se visíveis a olho nu, o que os trasformou em alvos particularmente apetecíveis para os astrónomos amadores do hemisfério sul. Alex Cherney foi um dos muitos que aproveitaram as noites límpidas de Verão para registar a sua passagem pela cúpula celeste. Vejam em baixo este magnífico timelapse da sua autoria:



O vídeo mostra uma paisagem nocturna na costa sudeste da Austrália. São visíveis no céu, para além dos dois cometas, inúmeros satélites artificiais viajando na órbita terrestre, uma breve manifestação da aurora austral, e o traçado efémero de alguns meteoros. Junto ao cometa Lemmon surgem, ainda, proeminentes o enxame globular 47 Tucanae e a Pequena Nuvem de Magalhães.
O cometa PanSTARRS está, neste momento, a curta distância de uma passagem periélica no interior da órbita de Mercúrio, pelo que o seu brilho deverá aumentar significativamente nas duas primeiras semanas de Março. Nessa altura, o cometa fará as suas primeiras aparições nas latitudes de Portugal, um pouco acima do horizonte a oeste, logo após o pôr-do-sol, brilhando, de acordo com as previsões mais optimistas, a uma magnitude aparente máxima de -1!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Espectaculares arcos de chuva ardente sobre o Sol

No dia 19 de Julho de 2012, o Sol presenteou-nos com um magnífico espectáculo. No extremo oeste do disco solar, uma poderosa fulguração classe-M despoletou uma sequência de eventos que culminariam com um dos mais deslumbrantes fenómenos da coroa solar, uma chuva coronal. Vejam em baixo:



Obtidas pelo Solar Dynamics Observatory, as imagens mostram a interacção do gás ionizado da coroa solar com o intenso campo magnético associado à região activa 1520, ao longo de quase 10 horas. Após a intensa fulguração (visível no início do vídeo), as linhas do campo magnético sobre a região voltam a conectarem-se, formando uma série de arcos magnéticos que penetram a superfície do Sol. Estas estruturas invisíveis isolam-se de alguma forma do ambiente infernal da coroa solar, pelo que os materiais aí aprisionados acabam por arrefecer e condensar. Confinado no interior dos arcos, o plasma carregado flui graciosamente até à superfície solar, brilhando intensamente no ultravioleta extremo, numa região do espectro electro-magnético onde o gás aquecido a cerca de 50.000 ºC é mais facilmente visível.
A actividade visível no vídeo é tão bela quanto brutal. Não são só as dimensões dos arcos que são esmagadoras quando comparadas com a do nosso pequeno planeta. A quantidade de energia contida nos arcos é também ela imensa, suficiente para suprir as necessidades energéticas da Terra por muitos milénios!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Primeiras imagens de radar do asteróide 2012 DA14

Colagem de 72 imagens de radar do asteróide 2012 DA14 obtidas na noite de 15 para 16 de Fevereiro de 2013 pela antena de 70 metros do Deep Space Network de Goldstone, na Califórnia.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

A NASA divulgou há pouco as primeiras imagens de radar do asteróide 2012 DA14, obtidas por uma das antenas do Observatório de Goldstone. Com uma resolução aproximada de 4 metros/pixel, as imagens revelam, claramente, um corpo alongado com cerca de 40 metros de comprimento, executando uma rotação completa. Vejam em baixo um vídeo com a sequência de cima repetida 9 vezes:



As observações foram realizadas pouco antes do asteróide abandonar o sistema Terra-Lua, a distâncias crescentes de 120 a 314 mil quilómetros, e cobrem um período aproximado de 8 horas. A esta sessão seguiram-se duas adicionais, concretizadas anteontem e ontem (a quarta sessão agendada para hoje foi, entretanto, cancelada).
O radar é uma das melhores ferramentas para estudar as dimensões, a forma, a rotação e a topografia dos asteróides, bem como para melhorar os cálculos das respectivas órbitas, pelo que os dados obtidos em Goldstone irão, certamente, permitir aos cientistas refinar o conhecimento da trajectória de 2012 DA14 nas próximas décadas, e assim reduzir significativamente as incertezas em futuros encontros com a Terra.

Asteróide 2012 DA14 visto das Canárias

Na passada sexta-feira, o astrofotógrafo Daniel López escolheu os céus límpidos do Monte Teide, nas Ilhas Canárias, para observar a passagem do asteróide 2012 DA14 nas proximidades da Terra. Vejam em baixo o espectacular vídeo resultante dessa sessão: