quarta-feira, 13 de março de 2013

Curiosity descobre vestígios de um ambiente favorável à vida numa antiga rocha marciana

Comparação dos padrões de difracção de raios-X obtidos nas areias de Rocknest (à esquerda) e nas amostras de rocha pulverizada de John Klein (à direita). A abundância de argilas (filosilicatos) e a pobreza de sais sugere que John Klein foi formada num ambiente de água doce ou ligeiramente salobra.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Ames.

Resultados divulgados ontem pelos cientistas da missão Curiosity sugerem que Marte poderá ter sustentado no passado condições favoráveis à vida tal como a conhecemos. Dados recolhidos pelos instrumentos CheMin (Chemistry and Mineralogy) e SAM (Sample Analysis at Mars) em amostras de rocha pulverizada indicam que Yellowknife Bay, a área que o Curiosity está neste momento a explorar, terá sido a zona terminal de um antigo sistema fluvial ou leito de um lago. Este ambiente poderá ter providenciado gradientes químicos e outras condições propicias para a vida microbiana.

Localização da rocha John Klein (círculo azul) em relação ao local de amartagem do robot Curiosity (cruz negra) e ao leque de aluvião que domina a paisagem de Aeolis Pallus, num mapa construído com imagens obtidas pelo instrumento THEMIS da sonda Mars Odyssey. A vermelho estão assinaladas as áreas com elevada inércia térmica (materiais que retêm o calor com maior eficiência).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASU.

John Klein é composto por argilitos de grão fino que contêm argilas, sulfatos e outros minerais. A rocha exibe, ainda, na sua superfície evidências de múltiplos períodos caracterizados por condições húmidas, incluindo veios e nódulos. As argilas resultam do contacto de água doce com minerais ígneos como a olivina, também detectada nas amostras analisadas. No caso de John Klein, as argilas encontradas poderão ter sido formadas por reacções químicas no local de repouso do depósito sedimentar, durante o seu transporte desde a orla da cratera Gale, ou a montante do sistema fluvial, no local de origem dos materiais que o compõem. A presença de sulfato de cálcio nas amostras sugere que as condições no local eram neutras ou ligeiramente alcalinas. Aparentemente, este antigo ambiente húmido era radicalmente diferente doutros ambientes extremamente oxidantes, hipersalinos ou altamente acídicos, presentes no passado noutros locais do planeta vermelho.
A variedade de compostos químicos identificados em John Klein surpreendeu os investigadores da missão. O instrumento SAM detectou enxofre, azoto, hidrogénio, oxigénio, fósforo e carbono - ingredientes essenciais para a vida. Foram encontradas, ainda, misturas de compostos químicos com diferentes níveis de oxidação, o que revela uma abundância de possíveis fontes de energia química essenciais para a sustentação dos processos biológicos.
Os cientistas da missão planeiam manter o Curiosity em Yellowknife Bay por mais algumas semanas. Depois de concluídos todos os trabalhos na área, o robot iniciará a sua viagem até ao sopé do monte Sharp, local onde investigará camadas de sedimentos mais recentes, em busca das argilas e dos sulfatos identificados a partir da órbita marciana.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cassini completa última passagem programada por Reia

A Cassini realizou anteontem o seu quarto e último encontro programado com Reia, a uma distância da sua superfície de apenas 997 quilómetros. O objectivo principal desta passagem foi determinar a estrutura interna da segunda maior lua de Saturno, através da medição precisa do efeito doppler nas ondas de rádio enviadas para a Terra durante o encontro. Os resultados irão permitir aos cientistas verificar se o interior de Reia é homogéneo, ou se se encontra diferenciado em crusta, manto e núcleo.
Durante o encontro, a Cassini realizou, ainda, a recolha de dados relativos ao ambiente em redor de Reia, o mapeamento das temperaturas da região do pólo sul, e a obtenção de imagens da superfície reiana, em particular, das regiões polares do hemisfério norte. Vejam em baixo algumas das belíssimas imagens captadas neste fim-de-semana:

Um crescente de Reia numa imagem obtida a 09 de Março de 2013 pela sonda Cassini, durante a fase de ingresso do encontro, a uma distância aproximada de 63 mil quilómetros.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Pormenor da superfície reiana numa imagem em alta resolução obtida a uma distância aproximada de 4 mil quilómetros.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Região do pólo norte de Reia em cores aproximadamente naturais, numa composição construída com imagens obtidas através de filtros para o violeta, o verde e o infravermelho próximo. É possível identificar no extremo direito Tirawa, uma cratera de impacto com cerca de 360 km de diâmetro.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

Mosaico da mesma região composto por 10 imagens obtidas pela Cassini a uma distância média de 78 mil quilómetros (resolução entre os 370 e os 520 metros/pixel). Cliquem na imagem para a ampliarem.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

A Cassini não voltará a aproximar-se de Reia até 10 de Fevereiro de 2015, altura em que concretizará uma passagem distante, a uma altitude aproximada de 47 mil quilómetros.

domingo, 10 de março de 2013

Espectacular vista sobre os vulcões de Gruithuisen

A sonda Lunar Reconnaissance Orbiter captou, recentemente, uma magnífica vista oblíqua sobre as cúpulas vulcânicas de Gruithuisen. Situadas no extremo nordeste de Oceanus Procellarum, as três cúpulas são um exemplo notável de vulcanismo félsico na Lua, uma forma de vulcanismo caracterizada pela ocorrência de lavas muito viscosas ricas em sílica.

Vista oblíqua sobre a vertente norte de Mons Gruithuisen Gamma, uma das três cúpulas vulcânicas localizadas a norte da cratera Gruithuinsen (norte para a direita). Pormenor de uma imagem obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter a 28 de Outubro de 2012 (explorem o resto da imagem aqui).
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

Dados espectrais obtidos pelas sondas americanas Lunar Prospector e Clementine mostram que as cúpulas de Gruithuisen são constituídas por materiais diferentes dos encontrados nos maria e nos antigos terrenos acidentados da Lua. As suas superfícies são caracterizadas por um albedo relativamente elevado e por uma forte absorção espectral no visível e no ultravioleta. Os materiais que edificam as três cúpulas são, relativamente, pobres em ferro e titânio, quando comparados com os depósitos vulcânicos dos maria lunares. Dados recentes do instrumento Diviner da Lunar Reconnaissance Orbiter confirmam que estas estruturas são ricas em sílica.

As três cúpulas de Gruithuisen e os terrenos envolventes, numa imagem obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, a 13 de Agosto de 2009 (largura da imagem correspondente a 64 km).
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

São raros os vestígios de vulcanismo félsico na superfície lunar. A formação das cúpulas de Gruithuisen é anterior ao aparecimento dos maria que as rodeiam, pelo que algumas porções destas estruturas estão cobertas por materiais basálticos mais recentes. É provável que esta forma de vulcanismo fosse mais generalizada no passado geológico da Lua; no entanto, quaisquer evidências da sua presença poderão estar, irremediavelmente, subterradas debaixo dos vastos maria.

SHARAD revela a presença de vales subterrados em Elysium Planitia

Localização dos mais de 1.000 quilómetros de extensão do sistema de vales de Marte Vallis. Mapa topográfico obtido a partir de dados do altímetro MOLA da sonda Mars Global Surveyor.
Crédito: NASA/MOLA Team/Smithsonian.

Dados recentemente obtidos pelo instrumento italiano SHARAD (SHAllow-RADar) da sonda Mars Reconnaissance Orbiter revelaram, pela primeira vez, a presença de vales subterrados nas jovens planícies vulcânicas de Elysium Planitia, em Marte. Estas estruturas incluem a origem e a maior parte dos mais de 1.000 quilómetros de extensão de Marte Vallis, o mais recente sistema de canais marcianos rasgados por inundações catastróficas. A sua descoberta é uma importante contribuição para a compreensão da hidrologia marciana dos últimos 2,5 mil milhões de anos, um período da história do planeta caracterizado por um clima extremamente frio e seco.

Radargrama construído com dados do SHARAD, mostrando a estrutura subsuperficial de um corte na região oeste de Elysium Planitia. São visíveis duas anomalias paralelas com propriedades reflectivas (L1R e L2R), interpretadas pelos cientistas como fronteiras entre camadas geológicas. Nos locais onde estão presentes os vales do sistema de Marte Vallis, estas camadas encontram-se seccionadas.
Crédito: Smithsonian/NASA/JPL-Caltech/Sapienza University of Rome.

Marte Vallis tem uma morfologia semelhante a outros sistemas de vales mais antigos, actualmente expostos na superfície marciana. Porém, como consequência do vulcanismo que moldou a paisagem de Elysium Planitia durante centenas de milhões de anos, grande parte da sua extensão encontra-se subterrada em materiais vulcânicos, pelo que, até agora, pouco se sabia acerca da sua formação. Usando os novos dados do SHARAD, cientistas da NASA conseguiram mapear os vales subterrados até à sua origem, uma secção até agora desconhecida do sistema de fracturas de Cerberus Fossae.
De acordo com os investigadores, a violência das cheias que rasgaram Marte Vallis foi muito superior ao assumido anteriormente. Os dados obtidos pelo SHARAD revelam que o vale principal atingiu uma profundidade máxima de 113 metros, um valor duas vezes superior às estimativas anteriores. A localização de seu ponto de origem em Cerberus Fossae sugere que as inundações catastróficas irromperam de grandes reservatórios subterrâneos, como consequência da actividade tectónica ou vulcânica na região.
Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Vénus visto da órbita de Saturno

A equipa de imagem da missão Cassini divulgou anteontem duas espectaculares imagens mostrando o distante planeta Vénus a brilhar intensamente através do sistema de anéis de Saturno. Vejam em baixo:

Vénus junto à orla de Saturno, logo acima do ténue anel G, numa imagem obtida pela sonda Cassini a 04 de Janeiro de 2013. A faixa difusa visível mais abaixo é o anel E, uma estrutura exterior ao anel G, criada pelos gêiseres da lua Encélado.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

Outra imagem de Vénus, desta vez, espreitando através do anel C de Saturno. Composição em cores naturais obtida pela sonda Cassini a 10 de Novembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute.

Mesmo nos domínios exteriores do Sistema Solar, Vénus surge como um ponto excepcionalmente brilhante nos céus. Esta característica deve-se à presença de uma densa camada de nuvens de ácido sulfúrico na atmosfera venusiana, capaz de reflectir cerca de 75% da radiação solar incidente. Nas duas imagens, a Cassini encontrava-se na sombra de Saturno, pelo que, apesar da sua proximidade relativa ao Sol, Vénus destacava-se com facilidade no negrume do espaço.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Terra receberá hoje a visita de mais um pequeno asteróide

Representação artística de um asteróide em aproximação à Terra.
Crédito: NASA (imagem da Terra)/ESA/DLR/FU Berlin (imagem de Deimos)/Sérgio Paulino.

Hoje, pelas 07:35 (hora de Lisboa), uma rocha espacial passará em segurança, a cerca de 356 mil quilómetros da superfície terrestre, uma distância ligeiramente inferior à distância média que separa a Terra da Lua. Designado provisoriamente 2013 EC, o pequeno asteróide foi descoberto no Sábado passado, no Observatório de Mount Lemmon, no Arizona, e tem um tamanho semelhante ao do meteoróide que há cerca de duas semanas explodiu sobre a cidade de Chelyabinsk, na Rússia.

domingo, 3 de março de 2013

Sofrerá Marte uma catástrofe global em 2014?

Representação artística do núcleo de um cometa.
Crédito: ESA/NASA.

No início de Janeiro, o astrónomo veterano Robert H. McNaught descobriu o cometa C/2013 A1 (Siding Spring), usando um dos telescópios do Observatório de Siding Spring, na Austrália. Na altura, o objecto viajava a cerca de 7,2 UA de distância do Sol, na direcção da constelação da Lebre, pelo que exibia um brilho muito débil. Logo após o anúncio da sua descoberta, astrónomos do programa Catalina Sky Survey resgataram dos seus arquivos observações adicionais obtidas a 8 de Dezembro de 2012, o que lhes permitiu encontrar uma solução para a órbita de C/2013 A1 e, para sua surpresa, extrapolar uma passagem a curta distância de Marte a 19 de Outubro de 2014.
Estas primeiras observações eram, no entanto, insuficientes para excluir um possível impacto na superfície marciana, pelo que os astrónomos têm estado desde então a reunir mais dados astrométricos para reduzir as incertezas na trajectória do cometa durante o seu encontro com o planeta vermelho. Neste momento, estão já somadas um total de 157 observações, cobrindo um período de 148 dias. Estes novos dados sugerem que C/2013 A1 passará a uma distância nominal da superfície marciana de apenas 50,1 mil quilómetros, com uma probabilidade de impacto de 1 em 1250! A essa distância, o cometa brilhará nos céus marcianos a uma magnitude aproximada de -8,5, o equivalente a 40 vezes o brilho de Vénus nos céus terrestres!
Como as comas dos cometas se estendem, geralmente, a mais de 100 mil quilómetros da superfície do núcleo, é praticamente garantido que o planeta vermelho ficará exposto a uma chuva de partículas cometárias durante a fase de maior aproximação. A maioria destas partículas são submicrométricas, mas algumas podem atingir alguns milímetros de diâmetro, um tamanho suficiente para constituírem uma ameaça às sondas presentes na altura na órbita marciana, pelo que este será, certamente, um problema a ser analisado em pormenor pelos responsáveis das missões Mars Express, Mars Odyssey, Mars Reconnaissance Orbiter, MAVEN e Mangalyaan (estas duas últimas com chegada prevista para Setembro de 2014).
Caso se verifique o cenário de impacto, o desastre será dantesco. C/2013 A1 viaja numa órbita hiperbólica retrógrada, pelo que passará por Marte a uma velocidade estonteante de 56 km.s-1! Os dados actualmente disponíveis sugerem que o núcleo deste cometa terá entre 3 a 50 km de diâmetro, o que significa que, em caso de colisão, a energia do impacto libertada atingirá no máximo o equivalente a 20 mil megatoneladas de TNT, ou seja, 350 vezes a energia libertada pela Tsar-Bomba, a mais poderosa bomba nuclear alguma vez detonada! Uma explosão desta magnitude produziria uma cratera com cerca de 500 km de diâmetro e 2 km de profundidade, e seria facilmente visível a partir da Terra. Desnecessário será referir que tal evento seria catastrófico para os robots Curiosity e Opportunity, actualmente em actividade na superfície do planeta.
C/2013 A1 estará em breve em conjunção com o Sol nos céus terrestres, pelo que voltará a posicionar-se de forma favorável para a realização de novas observações apenas no final do Verão. Nessa altura, os astrónomos reunirão, certalmente, dados suficientes para diminuírem as incertezas na trajectória do cometa ao ponto de poderem excluir ou não uma colisão com Marte em Outubro de 2014. Vamos aguardar.