terça-feira, 29 de outubro de 2013

Identificada crista de hematite no sopé do monte Sharp

Sopé do monte Sharp, numa imagem obtida pelo Curiosity, a 12 de Outubro de 2013 (sol 421). É possível ver no centro da imagem uma crista rochosa rica em hematite.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

O Curiosity poderá vir a encontrar um importante alvo científico no sopé do monte Sharp, no interior da cratera Gale, em Marte. Cientistas americanos identificaram quantidades substanciais de hematite no estrato superior de uma crista rochosa, situada a menos de dois quilómetros do ponto onde o robot da NASA iniciará a escalada pela montanha. A hematite é um mineral rico em ferro, geralmente formado na presença de água, pelo que o estudo destes depósitos é fundamental para a compreensão do passado húmido da cratera Gale.

Abigail Fraeman e colegas usaram imagens em alta resolução obtidas pelo instrumento CRISM (Compact Reconnaissance Imaging Spectrometer for Mars) da sonda Mars Reconnaissance Orbiter para mapear a crista num detalhe sem precedentes. A crista tem cerca de 200 metros de largura, e corre paralela à base do monte Sharp, numa extensão aproximada de 6,5 quilómetros. Os seus estratos são coerentes com as camadas expostas nas encostas vizinhas, o que sugere que a estrutura está associada aos depósitos sedimentares do monte Sharp.

Os dados recolhidos pelo CRISM não permitiram a determinação dos processos responsáveis pela formação dos depósitos de hematite. De acordo com a equipa liderada por Fraeman, concorrem duas explicações possíveis: precipitação química no interior de rochas, por exposição de fluídos subterrâneos ricos em Fe2+ a um ambiente oxidante; ou erosão de materiais ricos em silicatos pela acção de fluídos aquosos neutros ou ligeiramente ácidos, sob condições de oxidação.

Ambos os processos indicam que o local foi palco de antigas reacções de oxidação do ferro. Na Terra, estas reacções dependem, quase em exclusivo, da presença de microrganismos, pelo que estes depósitos são locais ideais para o Curiosity procurar sinais ancestrais de habitabilidade na superfície do planeta vermelho.

Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sol emite um par de fulgurações classe X em menos de 8 horas!

Duas fulgurações classe X observadas a 25 de Outubro de 2013, pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly do Solar Dynamics Observatory, através de um filtro para o ultravioleta extremo (131 Å).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium/montagem de Sérgio Paulino.

O Sol produziu hoje as primeiras fulgurações classe X desde Maio passado. Os dois fenómenos tiveram origem na região activa 1882, uma mancha solar recém-numerada, e foram classificados respectivamente como eventos classe X1,7 e X2,1.

A primeira fulguração ocorreu pelas 09:01 (hora de Lisboa) e esteve, aparentemente, associada à erupção de dois filamentos situados a centenas de milhares de quilómetros de distância. O segundo evento atingiu o pico de intensidade pelas 16:07 (hora de Lisboa).

Nenhuma destas erupções produziu ejecções de massa coronal direccionadas à Terra, pelo que não se esperam alterações significativas da actividade geomagnética relacionadas com estes dois eventos.

SDO observa um rasgão na superfície do Sol

No dia 29 de Setembro, o Sol exibiu-nos uma pequena amostra do seu imenso poder. Pelas 22:40 (hora de Lisboa), um filamento de matéria solar com mais de 300 mil quilómetros de comprimento elevou-se da superfície do Sol, deixando para trás o que aparenta ser um gigantesco desfiladeiro de plasma escaldante.

Vejam em baixo as espectaculares imagens deste evento captadas pelo Solar Dynamics Observatory:



A erupção do filamento arremessou violentamente para o espaço dezenas a centenas de milhões de toneladas de hidrogénio super-aquecido, o que deu origem a uma ejecção de massa coronal que atingiu a Terra dias depois. Na superfície ficou um emaranhado de arcos magnéticos formados por plasma quente movimentando-se ao longo das linhas do campo magnético solar, entretanto, restabelecidas sobre o local.

O mesmo filamento observado de outro ângulo, pelo observatório STEREO-A. Imagem obtida pelo instrumento SECCHI a 29 de Setembro de 2013.
Crédito: NASA/STEREO/Helioviewer.

Cassini observa terrenos invulgares nas margens dos mares e lagos das latitudes boreais de Titã

Variações na composição da superfície da região do pólo norte de Titã, num mosaico construído com imagens obtidas pelo instrumento VIMS da Cassini, a 12 de Setembro de 2013.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/University of Idaho.

Com a aproximação do Verão no hemisfério norte de Titã, os lagos e mares de metano e etano da região do pólo norte, estão agora, finalmente, ao alcance dos sensores remotos de infravermelhos da sonda Cassini. Imagens obtidas recentemente por estes instrumentos mostram que muitas destas superfícies líquidas encontram-se rodeadas por materiais brilhantes nunca antes vistos noutras regiões da lua de Saturno.

Titã é o único objecto conhecido, além da Terra, com massas líquidas estáveis na sua superfície. A grande maioria reside na região do pólo norte, acima dos 55º de latitude. Mapeada em grande parte pelo radar da Cassini, esta região apenas tinha sido examinada de forma parcial e pouco detalhada pelas câmaras do subsistema de imagem e pelo espectrómetro de infravermelhos VIMS (Visual and Infrared Mapping Spectrometer).

A recente combinação da chegada da luz solar às latitudes mais setentrionais, de condições atmosféricas excepcionais na região do pólo norte, e de trajectórias polares com geometrias de observação muito favoráveis, vieram, no entanto, proporcionar à Cassini, nos últimos meses, uma visão sem precedentes dos inúmeros lagos e dos grandes mares presentes nesta região.

"A observação realizada pelo VIMS dá-nos uma visão holística de uma área que antes apenas tínhamos observado em pedaços e em baixa resolução", afirmou à NASA Jason Barnes, um dos cientistas da equipa responsável pelo instrumento da Cassini. "Parece que o pólo norte de Titã é ainda mais interessante do que pensávamos, com uma complexa interacção de líquidos em lagos e mares, e depósitos deixados pela evaporação de antigos lagos e mares."

Os mares e alguns lagos do pólo norte de Titã, numa imagem de infravermelho obtida pela Cassini, a 12 de Setembro de 2013.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSI/JHUAPL/University of Arizona.

As novas imagens de infravermelho obtidas pelo VIMS revelam a presença de faixas de terreno brilhantes nas margens dos lagos e mares da região do pólo norte titaniano, semelhantes às identificadas há dois anos nos leitos secos de antigos lagos localizados a sul de Ligeia Mare. Os dados sugerem que estas áreas não são mais do que materiais depositados por processos semelhantes aos responsáveis pela formação dos evaporitos encontrados em planícies salgadas na Terra.

A presença destas unidades brilhantes numa região onde se concentram a grande maioria das massas líquidas de Titã sugere que esta é uma área com uma geologia única em toda superfície da lua de Saturno. A morfologia distintiva dos lagos, com silhuetas circulares recortadas e margens inclinadas, tem levado os cientistas a propor diversas explicações para a sua formação. Contam-se entre as mais vulgares o colapso de antigas caldeiras vulcânicas, e a presença na região de terrenos cársicos, versões extraterrestres dos terrenos que estão na origem das belas paisagens observadas, por exemplo, na costa dálmata, na Croácia.

"Desde que os lagos e mares foram descobertos, que nos temos questionado porque se concentram eles nas latitudes mais setentrionais", disse Elizabeth Turtle, cientista da equipa de imagem da missão. "Portanto, verificar que existe algo de especial relativo à superfície nesta região é uma grande pista que nos ajuda a limitar as possíveis explicações."

"A região dos lagos setentrionais de Titã é uma das regiões mais parecidas com a Terra e intrigantes do Sistema Solar", afirmou Linda Spilker, cientista do projecto Cassini. "Sabemos que aqui os lagos mudam com as estações, e a longa missão da Cassini em Saturno dá-nos também a oportunidade de observar as mudanças das estações em Titã. Agora que o Sol brilha no norte e nós temos estas maravilhosas observações, podemos começar a comparar os diferentes conjuntos de dados, e a desvendar o que os lagos de Titã estão a fazer na região do pólo norte."

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

1000 exoplanetas em duas décadas

Exoplanetas confirmados até ao dia 22 de Outubro de 2013.
Crédito:PHL/adaptado por Sérgio Paulino.

Foi ontem ultrapassada a marca dos 1000 exoplanetas confirmados. A lista de planetas extra-solares conta agora com 1010 objectos confirmados, distribuídos em 759 sistemas planetários. Ficam, ainda, a aguardar confirmação mais de 3500 candidatos.

A primeira descoberta de um sistema planetário extra-solar ocorreu em 1992, no Observatório de Arecibo. Constituído por dois pequenos objectos na órbita de um pulsar, este sistema era diferente de tudo aquilo que os cientistas imaginavam. Localizados na órbita de um remanescente de uma violenta supernova, os dois estranhos mundos formaram-se, provavelmente, após a catástrofe, a partir da agregação das cinzas de uma antiga companheira estelar. A esta fabulosa descoberta seguiu-se a detecção dos primeiros exoplanetas na órbita de estrelas semelhantes ao Sol, em 1995.

Apesar de ser um marco assinalável, alcançado em apenas 20 anos, este número corresponde apenas a uma ínfima fracção do total de planetas que existirão na órbita dos milhares de milhões de estrelas que povoam a Galáxia. Os próximos anos irão trazer-nos, certamente, uma melhor compreensão das características destes mundos, bem como novas e inesperadas descobertas.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Terra vista pela Juno

O nosso planeta numa imagem obtida pela sonda Juno, a 09 de Outubro de 2013.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems.

No dia 09 de Outubro, a sonda Juno passou a cerca de 561 quilómetros da superfície terrestre, uma manobra que lhe proporcionou o impulso gravitacional necessário para alcançar a órbita de Júpiter dentro de 21 meses. Durante este breve regresso a casa, a sonda da NASA esteve ocupada a testar a maioria dos seus instrumentos científicos, incluindo a JunoCam, uma pequena câmara de grande angular desenhada para observar os intrincados padrões da atmosfera joviana.

A imagem de cima foi obtida pela JunoCam, minutos antes da Juno atingir o ponto mais próximo da Terra. Na imagem podemos reconhecer grande parte do continente sul-americano, em particular, os contornos da cadeia montanhosa dos Andes, as pampas argentinas, e os meandros do Rio Paraná, e de três dos seus maiores afluentes, os rios Paranapanema, Tietê e Grande.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Espectacular mosaico de Saturno

Recordam-se da imagem de Saturno que aqui publiquei no passado Domingo? Na altura, expliquei que a composição era apenas uma pequena fracção de um mosaico que incluía um total de 36 imagens.

Construir mosaicos com as imagens da Cassini não é tarefa fácil. Tipicamente, a sonda viaja a uma velocidade entre 3 a 10 km.s-1 relativamente aos seus alvos, o que produz uma notória mudança de perspectiva entre os diferentes enquadramentos de um mosaico. Esta particularidade leva a que seja extremamente difícil alinhá-los na perfeição.

Felizmente, o croata Gordan Ugarkovic abraçou este desafio, e deu-nos a conhecer o que é provavelmente o mais belo retrato de sempre do planeta dos anéis. Vejam em baixo:

Saturno visto pela Cassini, a 10 de Outubro de 2013.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Gordan Ugarkovic.

Na imagem podemos apreciar detalhes incríveis na atmosfera e nos anéis do planeta. Na altura, a Cassini pairava sobre o pólo norte de Saturno, a uma distância de aproximadamente 1,5 milhões de quilómetros, o que lhe oferecia uma ampla visão sobre o hemisfério norte do planeta e o lado iluminado do sistema de anéis.

Nesta perspectiva, é possível observar toda a extensão do vórtice do pólo norte, uma bizarra tempestade com uma forma hexagonal, bem como o subtil bandeamento que ornamenta a alta atmosfera nas latitudes inferiores. O sistema de anéis surge destacado de Saturno, iluminando com o seu intenso brilho o lado nocturno do planeta.

Podem admirar todos os pormenores deste magnífico retrato aqui.