domingo, 26 de fevereiro de 2012

Lua, Vénus, Júpiter e outras maravilhas celestes

Vénus, Júpiter e a Lua convergiram ontem nos céus crepusculares para formar um brilhante triângulo escaleno. O espectáculo serviu de pretexto para um passeio familiar até às falésias do Guincho, local onde também pudemos desfrutar de um bonito pôr-do-sol. Durante quase uma hora apontei a minha máquina fotográfica ao Sol, ao trio planetário e a outros alvos celestes. Deixo-vos aqui algumas das muitas fotografias tiradas ontem por mim.

Pôr-do-sol visto a 25 de Fevereiro de 2012, a partir das falésias da praia do Guincho.
Crédito: Sérgio Paulino.


Um disco solar ovalado, um fenómeno óptico resultante da refracção provocada pela atmosfera junto ao horizonte. A espessa neblina que ontem se concentrava junto ao mar criou um filtro natural que permitiu também a observação da maior mancha solar actualmente visível no Sol, a AR1423.
Crédito: Sérgio Paulino.


Vénus e a Lua separados no céu por apenas 3,5º. Reparem como é visível na imagem a face nocturna da Lua iluminada pelo brilho da Terra.
Crédito: Sérgio Paulino.


O trio Júpiter, Vénus e a Lua.
Crédito: Sérgio Paulino.


Orionte, o caçador. Esta é a mais brilhante constelação visível nesta altura do ano logo após o pôr-do-sol.
Crédito: Sérgio Paulino.

Caso não tenham assistido ao espectáculo de ontem, terão nova oportunidade hoje, logo a seguir ao pôr-do-sol. O arranjo será, no entanto, um pouco diferente. A Lua estará mais próxima de Júpiter, e Vénus completará o triângulo no vértice mais distante. Os dois planetas estão entretanto a convergir para uma conjunção que se concretizará a 15 de Março, quando estiverem separados por apenas 3º.
Nos próximos dias podem ainda tentar encontrar o planeta Mercúrio logo após o pôr-do-sol. O planeta fará a sua máxima elongação a 5 de Março, a 18º do Sol. Esta será, no entanto, uma tarefa difícil pois Mercúrio estará mergulhado no brilho do céu a poente. Por fim, espreitem o céu a nascente uma hora após o Sol mergulhar no horizonte e poderão encontrar o planeta vermelho. Marte estará em oposição no próximo dia 3 de Março.
Aproveitem o bom tempo e divirtam-se a observar o céu. O espectáculo é inteiramente gratuito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Misteriosos visitantes nas noites de Fevereiro

A Terra tem estado a receber visitas inesperadas durante todo o mês de Fevereiro. Durante as últimas semanas, grandes rochas espaciais têm colidido com a atmosfera terrestre, produzindo bolas de fogo particularmente brilhantes. Só nos EUA foram registados cerca de 6 destes fenómenos. A mais mediática foi sem dúvida a espectacular bola de fogo que no dia 1 de Fevereiro surpreendeu várias centenas de pessoas na região central do Texas.
Não é o número de bólides que tem sido invulgar neste mês. De facto, não se registou qualquer alteração significativa na frequência destes fenómenos durante todo o mês de Fevereiro. Na verdade, estes objectos têm-se destacado pela sua aparência, velocidade e trajectória. "Estas bolas de fogo atingem o topo da atmosfera com velocidades inferiores a 15 km.s-1, desaceleram rapidamente, e mantêm alguma integridade até 50 km acima da superfície terrestre", explicou ao Science@NASA Peter Brown, professor de Física da University of Western Ontario e especialista em meteoros.
Até agora, as câmaras do All-Sky Fireball Network registaram em território norte-americano cerca de meia dúzia de bolas de fogo com características semelhantes. Todas foram produzidas por grandes meteoróides, com dimensões que variam entre as dezenas de centímetros até ao tamanho de um autocarro.
A determinação das respectivas órbitas revelou algo surpreendente. "Partem todas da Cintura de Asteróides, mas não de um único ponto" explica Bill Cooke do Meteoroid Environment Office. "Não existe uma origem comum para estes objectos, o que é algo intrigante."

Sumário dos dados obtidos pelo sistema de vigilância do All-Sky Fireball Network para uma das invulgares bolas de fogo observadas este mês.
Crédito: NASA.

Não é a primeira vez que tais objectos fazem a sua aparição na Terra. Desde a década de 60, astrónomos amadores têm testemunhado um crescente número de bolas de fogo muito brilhantes penetrando fundo na atmosfera nas noites frias de Fevereiro. Nos anos 90, o astrónomo Ian Holliday analisou fotografias de centenas de bólides obtidas nas duas décadas anteriores. Holliday concluiu que deve existir um fluxo de meteoróides a intersectar a órbita da Terra nesta altura do ano. Os seus resultados possuem, no entanto, grandes incertezas estatísticas, pelo que permanecem controversos.
Espera-se que as imagens obtidas pela rede de câmaras do All-Sky Fireball Network possam esclarecer em breve este interessante enigma. Até lá espreitem o céu nas próximas noites. Quem sabe? Talvez assistam à chegada de mais um destes misteriosos visitantes do espaço.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um eclipse no Carnaval

A Lua passou ontem, ao início da tarde, na frente do Sol, produzindo um eclipse solar parcial apenas visível a partir do espaço. Felizmente, durante cerca de 100 minutos, o Solar Dynamics Observatory (SDO) esteve posicionado numa região favorável à observação deste fenómeno. Vejam estas belas imagens registadas pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly em diferentes comprimentos de onda:

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta extremo (AIA canal 171 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta extremo (AIA canal 304 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Trânsito lunar visto a 21 de Fevereiro de 2012 pelo Solar Dynamics Observatory em ultravioleta (AIA canal 4500 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

Vejam também este vídeo que reproduz todo o fenómeno numa variedade ainda maior de comprimentos de onda:


Sempre que o Sol e a Lua se alinham com o SDO, a equipa da missão fica com uma oportunidade valiosa para calibrar os sistemas ópticos do observatório. A fina silhueta da Lua projectada no disco solar permite aos cientistas rastrear e corrigir defeitos instrumentais que possam degradar a qualidade das imagens.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A paleta de Amaral

Fim de tarde na cratera Amaral. Imagem obtida pela sonda MESSENGER a 04 de Fevereiro de 2012.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Os cumes dos picos centrais da cratera Amaral brilhavam intensamente à luz do Sol vespertino quando a sonda MESSENGER obteve este magnífico retrato. Observada pela primeira vez durante a primeira passagem da sonda da NASA por Mercúrio, Amaral atraiu a atenção dos investigadores da missão pela sua curiosa paleta de cores (bastante proeminentes nas composições em cores falsas). Os seus picos centrais destacavam-se particularmente pela sua cor relativamente azulada em comparação com o terreno envolvente, uma tonalidade que muito se assemelha à observada nos picos centrais de Eminescu, locais onde foram identificados impressionantes conjuntos de cavidades. Não se sabe ainda se Amaral exibe estruturas semelhantes às de Eminescu, mas os cumes brilhantes dos seus picos centrais parecem denunciar a sua presença.

A superfície de Mercúrio fotografada pela sonda MESSENGER em cores falsas, durante a sua primeira passagem pelo planeta em 2008. As diferentes tonalidades representam diferentes composições minerais. Estão identificadas na imagem a bacia de impacto de Caloris e as cratera Amaral, Eminescu e Raditladi. As três crateras exibem no seu interior uma forte tonalidade azulada, que se correlaciona em Eminescu e Raditladi com estranhas depressões brilhantes conhecidas pelos investigadores da missão por "cavidades".
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington (apontamentos de Sérgio Paulino).

Amaral recebeu o seu nome em honra à pintora brasileira Tarsila do Amaral (1886 - 1973), figura central da primeira fase do movimento modernista brasileiro. São da sua autoria algumas das obras mais aclamadas da arte latino-americana (vejam aqui algumas das obras mais famosas).

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Um antigo cataclismo em Sudbury

Tenho um amigo que viveu grande parte da sua infância numa pequena cidade do sudeste de Ontário, Canadá. No outro dia perguntei-lhe se alguma vez tinha visitado Sudbury (uma cidade localizada a algumas centenas de quilómetros a norte), e se sabia algo sobre o seu curioso passado geológico. Ele respondeu-me que tinha passado por lá há alguns anos, mas que não sabia nem tinha notado na altura qualquer vestígio invulgar na paisagem.
De facto, quem visita Sudbury não imagina que os seus edifícios foram erigidos sobre a cicatriz de um dos mais violentos impactos ocorridos na Terra. Actualmente com pouco mais de 150 mil habitantes, a cidade deve o seu florescimento à exploração mineira dos vastos depósitos de Ni (níquel) existentes no seu subsolo. Descobertos nos finais do século XIX, os depósitos de minério de Sudbury albergam as maiores reservas mundiais de Ni e Cu (cobre) do mundo. No entanto, os recursos minerais da região não se limitam apenas a estes dois metais. Nas minas de Sudbury foram já extraídas quantidades apreciáveis de Co (cobalto), Au (ouro), Pt (platina), Pd (paládio), Rh (ródio), Ru (ruténio), Ir (irídio), Ag (prata), Se (selénio) e Te (telúrio) (para mais informações sobre os recursos minerais de Sudbury, ver aqui).

A bacia de Sudbury. A rosa está representada a área metropolitana da cidade de Sudbury. O lago Wanapitei, localizado a leste, é uma segunda cratera de impacto, formada posteriormente ao evento de Sudbury, há cerca de 37 milhões de anos (Eoceno).
Crédito: Atlogis (adaptado por Sérgio Paulino).

No seu conjunto, os depósitos de minério de Sudbury distribuem-se na periferia de uma unidade geológica ovalada conhecida por Complexo Ígneo Eruptivo de Sudbury. Esta estrutura é contemporânea de uma segunda unidade mais exterior constituída por brecha, que delimita uma bacia elíptica com cerca de 60 km de comprimento. Esta bacia é tudo o que resta na superfície do evento catalísmico que assolou a região há 1,85 mil milhões de anos (segunda metade da Era Paleoproterozóica).

Brecha fotografada na bacia de Sudbury.
Crédito: LPI.

Com uma diâmetro original estimado de 190 a 260 km, a bacia de Sudbury foi esculpida pelo impacto de um asteróide com 10 a 15 km de diâmetro. A sua actual forma elíptica é resultado da deformação da crusta terrestre ocorrida na região durante as últimas fases da Orogenia Penokeana (um dos mais importantes episódios geológicos ocorridos na América do Norte). O impacto foi de tal forma violento que espalhou ejecta por uma área superior a 1,5 milhões de km2 (foram encontradas brechas provenientes de Sudbury em locais tão distantes como o norte de Minnesota, nos EUA).
Na altura, os continentes eram vastas superfícies áridas, mas nos oceanos e nas regiões costeiras a vida florescia. A Terra era ainda um planeta relativamente jovem e a vida dava os seus primeiros passos num ambiente ainda hostil. Nas águas pouco profundas cresciam os estromatólitos, estruturas formadas por carbonato de cálcio, erigidas por grandes colónias de cianobactérias, organismos vivos fotossintéticos dominantes em grande parte da Era Paleoproterozóica (2,5 a 1,6 mil milhões anos atrás).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A escala do Universo

Encontrei esta espectacular infografia no blog da Sociedade Planetária e não resisti a publicá-la aqui. Compara as dimensões de vários objectos desde partículas subatómicas como os neutrinos e os quarks até às dimensões do Universo observável. Para verem as diferentes escalas apenas têm que movimentar a barra de baixo. Podem também obter informações acerca de cada objecto clicando na respectiva imagem.
Surpreendentemente, esta animação em flash foi criada por dois gémeos com apenas 14 anos de idade! Podem ver mais alguns trabalhos da sua autoria aqui.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A azáfama diária no Observatório Keck

Como será um dia normal de trabalho num dos maiores observatórios astronómicos do mundo? A resposta está neste vídeo criado por Andrew Cooper, engenheiro no Observatório W. M. Keck, em Mauna Kea, Hawaii.