sábado, 30 de julho de 2016

Um labirinto em Titã

Relevo cársico na superfície de Titã. Imagem de radar obtida pela sonda Cassini, a 07 de junho de 2016 (área da imagem: 140 por 120 km; resolução aproximada:400 metros/píxel).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASI.

Esta imagem de radar mostra um excelente exemplo de um relevo cársico na superfície de Titã.

Localizada a sul dos terras baixas de Shangri-La, esta paisagem labiríntica é provavelmente uma região montanhosa esculpida num padrão caótico pela ação erosiva de inúmeros sistemas fluviais formados por pequenos rios de metano. Alguns destes sistemas formam vales paralelos, o que sugere que a sua direção é influenciada pela presença de outras estruturas geológicas ou pelo gradiente topográfico local.

Na Terra, as paisagens cársicas têm geralmente origem na dissolução de rochas carbonatadas (calcários, dolomitos ou mármores) pela ação de água da chuva acidificada pela incorporação de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera ou de outros compostos provenientes do solo.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Onde estão as grandes crateras de impacto de Ceres?

Mapa topográfico de Ceres mostrando a localização de Kerwan, uma cratera com 280 km de diâmetro, e de Vendimia Planitia, uma gigantesca depressão com 800 km de diâmetro e cerca de 4 km de profundidade.
Crédito: SwRI/Simone Marchi.

Ceres é o maior objeto da Cintura de Asteroides, uma região tumultuosa encaixada entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Nos últimos 4,55 mil milhões de anos, o planeta anão foi atingido por numerosos asteroides e cometas de grandes dimensões. Estes eventos deveriam ter deixado marcas facilmente reconhecíveis na superfície de Ceres, contudo um estudo publicado esta semana na revista Nature Communications revelou uma surpreendente escassez destas enormes cicatrizes na população de crateras de impacto do planeta anão.

"Concluímos que, ao longo de escalas de tempo geológicas, uma população significativa de crateras de grandes dimensões foi obliterada ao ponto de não poder ser mais reconhecida", explicou Simone Marchi, investigador do Southwest Research Institute, nos Estados Unidos, e primeiro autor deste trabalho. "[Isto] é provavelmente resultante da evolução interna e composição peculiar de Ceres."

Modelos computacionais sugerem que o planeta anão deveria ter acumulado desde a sua formação 10 a 15 crateras com mais de 400 km de diâmetro e, pelo menos, 40 crateras com mais de 100 km de diâmetro. As imagens obtidas pela sonda Dawn revelam, no entanto, a presença de apenas 16 crateras com um diâmetro superior a 100 km, sendo que nenhuma ultrapassa os 280 km de diâmetro. Esta escassez é ainda mais significativa se consideramos que grandes porções do hemisfério norte de Ceres estão saturadas com crateras com menos de 60 km de diâmetro.

Uma possível explicação para esta discrepância poderá estar na topografia de Ceres. Usando modelos topográficos construídos com dados obtidos pela sonda Dawn, Marchi e colegas identificaram, pelo menos, três planícies circulares na superfície de Ceres, com diâmetros entre os 500 e os 800 km.

"Estas depressões - ou planitiae - poderão ser antigas bacias de impacto remanescentes de grandes colisões ocorridas logo após a formação de Ceres", disse Marchi. Esta hipótese sugere que as enormes crateras previstas pelos modelos de colisões poderão ter, de facto, existido na superfície do planeta anão, mas foram lentamente apagadas ao longo de milhões de anos. "É como se Ceres curasse as suas próprias grandes cicatrizes de impacto e criasse novas superfícies, uma e outra vez."

Os investigadores sugerem que estas antigas estruturas de impacto poderão ter sido apagadas pelo relaxamento topográfico das respetivas orlas, causado pela possível presença de uma camada rica em gelo ou em materiais com baixa viscosidade logo abaixo da superfície de Ceres. Uma hipótese alternativa seria a destruição destas crateras num passado distante por fenómenos criovulcânicos generalizados. Este processo seria, no entanto, ineficiente na eliminação das crateras maiores e mais profundas.

"Independentemente dos mecanismos específicos responsáveis pela eliminação das crateras, os nossos resultados requerem que o processo de destruição das crateras de maiores dimensões se tenha mantido ativo até muito depois do Grande Bombardeamento Tardio, há aproximadamente 4 mil milhões de anos", disse Marchi. "Esta conclusão revela que o registo de impactos em Ceres se encontra indissociavelmente ligado à sua composição peculiar e evolução interna."

domingo, 24 de julho de 2016

SDO observa um trio de fulgurações classe-M

A segunda de três fulgurações classe-M produzidas pelo Sol a 23 de julho de 2016. A imagem foi obtida pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly do Solar Dynamics Observatory da NASA, através de um filtro na banda do ultravioleta extremo (304 Å).
Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium.

Foram ontem observadas três fulgurações solares de intensidade média com origem na região ativa 2567. A primeira foi um evento não eruptivo de classe-M5,0, com um pico de intensidade pelas 03:11 (hora de Lisboa). A este fenómeno seguiram-se dois eventos de classe-M7,6 e M5,5 com picos de intensidade pelas 06:16 e 06:31, respetivamente.

A fulguração classe-M7,6 foi a mais intensa até agora registada em 2016 e foi responsável pela libertação de uma gigantesca ejeção de massa coronal. A nuvem de plasma dirige-se para longe da Terra, no entanto é possível que um dos seus flancos atinja o nosso planeta na próxima terça-feira.

O Sol encaminha-se neste momento para o longo período de baixa atividade que caracteriza o final de cada ciclo solar, pelo que estes fenómenos tendem a ser agora cada vez mais raros. O atual ciclo teve o seu início em janeiro de 2008 e deverá terminar dentro dos próximos 2 a 3 anos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Rosetta terminará missão com impacto na região de Ma'at

A região de Ma'at vista pela sonda Rosetta, a 17 de junho de 2016. O círculo vermelho assinala o local onde a sonda europeia deverá pousar no próximo dia 30 de setembro.
Crédito: ESA/Rosetta/NavCam.

Foi divulgado há poucas horas o destino final da sonda Rosetta no próximo dia 30 de setembro. Num comunicado publicado no blog da missão, a ESA anunciou que a sonda europeia deverá concluir a sua prolífica missão com uma descida controlada até à região de Ma'at, no lobo mais pequeno do cometa.

O local foi escolhido tendo em conta o seu potencial científico e a complexidade das manobras necessárias para colocar a Rosetta na trajetória desejada. O impacto deverá ocorrer por volta das 11:30 (hora de Lisboa), a uma velocidade aproximada de 1,8 km/h, e será antecedido pela recolha de dados científicos, incluindo imagens em alta resolução, da superfície do cometa.

domingo, 17 de julho de 2016

Dunas de gesso em Olympia Undae

Gesso nas dunas de Olympia Undae. Imagem obtida pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter, a 10 de abril de 2016.
Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

Nesta imagem podemos ver uma pequena secção de Olympia Undae, um vasto campo de dunas que rodeia parcialmente a região do polo norte de Marte. A maioria das dunas marcianas são formadas por areia basáltica, mas em Olympia Undae estas estruturas são ricas em gesso, um mineral formado pela evaporação de soluções aquosas ricas em sulfato de cálcio (CaSO4).

A ocorrência de gesso nesta região é um mistério, uma vez que as dunas são claramente do período Amazoniano e os depósitos de sulfatos ocorrem geralmente em terrenos mais antigos. É possível que as dunas tenham sido criadas pela acumulação de materiais resultantes da erosão eólica de antigos estratos polares ou de depósitos hidrotermais mais localizados.

sábado, 16 de julho de 2016

Sobrevoando o complexo vulcânico de Compton-Belkovich

Pequena porção do complexo vulcânico de Compton-Belkovich numa imagem recentemente obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, a uma altitude de 52 km.
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

Um dos primeiros resultados da missão Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) foi a descoberta de um pequeno complexo vulcânico félsico, com aproximadamente 35 km de comprimento por 25 km de largura, localizado entre as crateras Belkovich e Compton, no hemisfério lunar mais distante da Terra. Dados obtidos em 1998 pelo espetrómetro de raios gama da sonda Lunar Prospector tinham já revelado uma abundância anómala de tório na região. Porém, foram as imagens e as medições das emissões térmicas recolhidas pela LRO que permitiram aos cientistas confirmar a presença de depósitos vulcânicos com uma composição félsica (possivelmente riolítica) distinta do vulcanismo basáltico tipicamente observado na superfície da Lua.

A imagem de cima mostra parte da zona central do complexo vulcânico de Compton-Belkovich (CVCB). No seu interior podemos encontrar muitas áreas com uma refletância relativamente elevada e uma baixa concentração de crateras de pequenas dimensões. O seu carácter refletivo está associado à composição félsica dos materiais que cobrem a região. A baixa concentração de crateras de impacto sugere, no entanto, que o CVCB representa provavelmente um dos raros exemplos de vulcanismo lunar relativamente recente.

Num trabalho recentemente publicado na revista Icarus, uma equipa de investigadores usou a análise da estratigrafia das crateras Compton e Hayn e a contagem e medição de crateras de impacto nas áreas com alta refletância e topografia elevada para estimar a idade dos depósitos vulcânicos do CVCB. Os resultados indicam que a região exibiu atividade vulcânica pela última vez há aproximadamente 3,5 mil milhões de anos. Contudo, estes derradeiros episódios vulcânicos não foram suficientemente intensos para cobrir a região com novos materiais, pelo que é possível observar superfícies formadas há pelo menos 3,8 mil milhões de anos. Esta idade coincide com a formação de Belkovich, uma cratera com 200 km de diâmetro localizada a oeste do CVCB.

Podem ler mais sobre este trabalho aqui e aqui.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Descoberto um anel de moléculas orgânicas complexas na órbita de uma estrela bebé

Representação artística de um disco protoplanetário.
Crédito: ESO/L. Calçada.

Investigadores detetaram a presença de um anel de moléculas orgânicas complexas movendo-se em redor de uma protoestrela. A descoberta foi realizada usando a rede interferométrica de antenas do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no norte do Chile, e confirma que muitos dos compostos orgânicos formados no espaço interestelar são transportados até aos discos protoplanetários que rodeiam as estrelas em formação. Este trabalho sugere ainda que as espécies moleculares depositadas nos discos protoplanetários variam consoante a protoestrela, pelo que o estudo da composição química destas regiões poderá revelar no futuro se o Sistema Solar é ou não um exemplo típico de um sistema planetário.

Desde há muito que os astrónomos sabem que as nuvens interestelares são fábricas muito eficientes na criação de moléculas orgânicas complexas. Pensa-se que durante a formação do Sistema Solar, há aproximadamente 4,6 mil milhões de anos, algumas destas moléculas foram transportadas desde o espaço interestelar até ao disco de poeira em rotação donde emergiram os planetas que hoje conhecemos. Mais tarde, estes compostos tiveram um papel essencial na química prebiótica responsável pelo aparecimento da vida na Terra. Contudo, permanece ainda por explicar quais as moléculas orgânicas e em que quantidades foram fornecidas pelo espaço interestelar.

Na última década, observações radioastronómicas permitiram detetar moléculas orgânicas complexas saturadas, como o metanol (CH3OH) e o metanoato de metilo (HCOOCH3), em protoestrelas do tipo solar, no entanto a sua distribuição era demasiado compacta para ser resolvida pelos radiotelescópios até então disponíveis. Recorrendo às capacidades revolucionárias do observatório ALMA, a equipa de investigadores liderada por Yoko Oya do Departamento de Física da Universidade de Tóquio, no Japão, estudou a distribuição espacial em alta resolução de uma variedade de compostos orgânicos complexos em redor de IRAS 16293-2422A, uma protoestrela de classe 0 localizada na direção da constelação de Ofiúco, a aproximadamente 390 anos-luz de distância da Terra.

Este mapa mostra a localização da região de formação estelar Rho Ophiuchi, localizada na direção da constelação Ofiúco. A estrela Rho Ophiuchi, que dá o nome à região, está marcada com a letra grega rho (ρ). IRAS 16293-2422 é um sistema composto por duas protoestrelas, a primeira (A) com uma massa semelhante à do Sol e a segunda (B) com menos de um décimo da massa da nossa estrela. A sua posição está assinalada no mapa a vermelho.
Crédito: ESO, UAI e Sky and Telescope.

As observações permitiram aos investigadores identificar uma estrutura em forma de anel circunstelar rica em moléculas orgânicas complexas, com um raio aproximado de 50 UA. Esta estrutura representa provavelmente a região de transição entre a nuvem de gás interestelar e o disco de poeira e gás em rotação que rodeia a jovem estrela. No interior do disco, os investigadores observaram ainda diferenças importantes nas distribuições das moléculas de metanoato de metilo e de sulfureto de carbonilo (OCS). Aparentemente, o metanoato de metilo encontra-se confinado a uma região mais compacta em redor da protoestrela, enquanto que o sulfureto de carbonilo reside principalmente na região mais interior do envelope gasoso que rodeia o disco protoplanetário. "Quando medimos, através do efeito Doppler, o movimento do gás contendo metanoato de metilo, descobrimos um claro movimento de rotação específico da estrutura em anel", explicou Oya. As mesmas observações permitiram também a identificação de uma distribuição similar para as moléculas de metanol.

Em cima: representação esquemática da estrutura em forma de anel descoberta em redor de IRAS 16293-2422A. Em baixo: distribuição espacial das moléculas de metanoato de metilo e de sulfureto de carbonilo observada pelo ALMA. O metanoato de metilo concentra-se principalmente numa região localizada a cerca de 50 UA de IRAS 16293-2422A, enquanto que o sulfureto de carbonilo se distribui até uma distância de cerca de 200 UA.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Oya et al.

Os compostos orgânicos identificados em IRAS 16293-2422A são formados no espaço interestelar e preservados na superfície de grãos de poeira. Nas proximidades da fronteira externa do disco, estes compostos evaporam-se devido provavelmente ao calor gerado pela colisão entre os materiais em rotação no disco e os gases em colapso provenientes da nuvem interestelar. Este resultado constitui assim a primeira evidência direta de que os compostos orgânicos interestelares são, de facto, transportados até aos discos circunstelares em rotação a partir do qual emergem os sistemas planetários.

Em 2014, a mesma equipa identificou uma estrutura em anel semelhante formada por monóxido de enxofre (SO) no disco que rodeia a protoestrela L1527. Curiosamente, nessa jovem estrela, os investigadores observaram uma concentração relativamente elevada de compostos orgânicos insaturados, tais como o radical etinil (CCH) e o ciclopropino (c-C3H2), no envelope gasoso que rodeia o disco protoplanetário, enquanto que o monóxido de enxofre se distribuía preferencialmente na fronteira entre o gás em colapso e a estrutura do disco. Mais importante ainda foi a ausência praticamente absoluta de compostos orgânicos complexos saturados no disco de L1527, o que demonstra com clareza que os materiais depositados nos discos protoplanetários diferem de estrela para estrela.

Este trabalho foi publicado no passado mês de junho na revista Astrophysical Journal e pode ser encontrado aqui.