segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Colina em Yellowknife Bay

Pequena colina sobranceira a Yellowknife Bay, num mosaico de 5 imagens obtidas pelo Curiosity a 28 de Dezembro de 2012 (sol 141 da missão).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems/Sérgio Paulino.

Enquanto na Terra comemoramos o final de 2012, o Curiosity continua a sua odisseia marciana no interior da cratera Gale. Nas últimas 3 semanas, o robot da NASA tem estado ocupado a explorar uma depressão ovalada pouco profunda em Glenelg, denominada Yellowknife Bay. O terreno no seu interior é particularmente interessante porque possui uma inércia térmica superior à observada noutras áreas visitadas anteriormente pelo Curiosity. As imagens que compõem o mosaico de cima mostram uma pequena colina que se eleva no seu extremo leste, na direcção oposta ao local que o Curiosity deverá visitar nos próximos sóis.
Explorem a imagem em baixo com o Zoom.it:

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Espectacular vídeo da última ocultação lunar de Júpiter

Na noite de 25 de Dezembro, Júpiter desapareceu dos céus brasileiros! O responsável por este fenómeno não foi Nibiru, Hercólubus ou outro objecto celeste imaginário, mas sim a bela e sedutora Lua. Durante pouco mais de uma hora, o disco lunar ocultou o maior planeta do Sistema Solar para todos os felizardos observadores localizados num estreito corredor que se estendeu desde os países sul-americanos situados abaixo do equador terrestre até aos territórios mais meridionais do continente africano.

Mapa mostrando os locais onde foi possível observar a ocultação lunar de Júpiter do passado dia 25 de Dezembro de 2012.
Crédito: HM Nautical Almanac Office.

Apesar de não ter sido possível observar esta ocultação a partir de Portugal, pudemos contar com centenas de astrónomos amadores brasileiros que gentilmente disponibilizaram na internet belíssimas imagens do evento. Vejam, por exemplo, este espectacular vídeo do astrofotógrafo Rafael Defavari, obtido a partir de São Bernardo do Campo, em São Paulo:

Ocultação lunar de Júpiter de 25 de Dezembro de 2012.
Crédito: Rafael Defavari.

As ocultações lunares de planetas são fenómenos relativamente frequentes. No próximo ano poderemos assistir a um total de cinco, infelizmente todas elas observáveis apenas a partir do hemisfério sul. A próxima ocorrerá já no próximo dia 22 de Janeiro, e será visível em alguns arquipélagos do Pacífico e em grande parte da América do Sul (ver aqui mais informações).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Presentes de Natal da Cassini: espectaculares imagens de Reia e de Dione

No passado fim de semana, a Cassini realizou uma passagem a pouco mais de 23 mil quilómetros de Reia, a segunda maior lua de Saturno. O encontro serviu para a sonda da NASA mapear em alta resolução uma estreita faixa de terreno, desde a região a oeste da bacia de impacto de Izanagi até à secção mais setentrional de Galunlati Chasmata. Já no egresso, a Cassini voltou as suas câmaras para a região do pólo norte para obter um conjunto de imagens com uma resolução máxima de 240 metros/pixel (superior à resolução das imagens desta região obtidas em encontros anteriores). Vejam em baixo alguns dos melhores momentos deste encontro (cliquem nas imagens para as ampliarem):

Mosaico de 10 imagens obtidas pela sonda Cassini a 22 de Dezembro de 2012, mostrando a região a oeste da bacia de impacto de Izanagi, entre as crateras Melo (à esquerda) e Izanami (à direita, com o seu pico central espreitando na sombra).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

Galunlati Chasmata num mosaico de 5 imagens obtidas pela Cassini a 22 de Dezembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

Região do pólo norte de Reia. Mosaico de 4 imagens obtidas pela sonda Cassini a 22 de Dezembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

Pouco depois da passagem a curta distância de Reia, a Cassini sobrevoou o hemisfério norte de Dione, a uma altitude de 248 mil quilómetros. Neste encontro foram recolhidas imagens globais centradas na jovem cratera Creusa. Vejam na composição colorida de baixo a dimensão do seu extenso sistema de raios:

O hemisfério norte de Dione em cores aproximadamente naturais. O poló norte encontra-se visível acima da cratera Creusa, entre Tibur Chasmata (que parte do lado direito de Creusa para norte) e as grandes crateras Phorbas e Haemon (crateras próximas do terminador). Esta composição foi construída com imagens obtidas pela Cassini a 23 de Dezembro de 2012, através de filtros para o ultravioleta (340 nm), o verde (562 nm) e o infravermelho próximo (757 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/Sérgio Paulino.

Consultem aqui e aqui os mapas de Reia e de Dione para se orientarem nas figuras.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Asteróide 2011 AG5: NASA elimina risco de impacto para 2040

Asteróide 2011 AG5 numa imagem obtida através do telescópio Gemini a 27 de Outubro de 2012.
Crédito: Gemini Observatory.

A NASA anunciou anteontem que o asteróide 2011 AG5 deixou de constituir uma potencial ameaça para a Terra. Descoberta pelo programa Catalina Sky Survey a 8 de Janeiro de 2011, esta rocha com cerca de 140 metros de diâmetro tornou-se uma preocupação para os cientistas quando as incertezas na sua órbita projectaram um risco de colisão com nosso planeta de 1 em 500 para o encontro de Fevereiro de 2040. Caso este objecto atingisse a superfície terrestre, o impacto libertaria uma energia equivalente a cerca de 100 megatoneladas de TNT, ou seja, o dobro da energia libertada pela mais poderosa bomba nuclear alguma vez detonada, a soviética Tsar Bomba!

Incertezas na trajectória de 2011 AG5 para o encontro com a Terra em Fevereiro de 2040, antes (em cima) e depois (em baixo) dos novos cálculos orbitais.
Crédito: NASA/JPL/Paul Chodas.

Com o objectivo de reduzir as incertezas na trajectória de 2011 AG5, astrónomos da Universidade do Hawai'i realizaram um conjunto de observações do pequeno asteróide a 20, 21 e 27 de Outubro, através do telescópio Gemini de 8 metros, em Mauna Kea, Hawai'i. A estas múltiplas observações juntaram-se um conjunto de imagens obtidas pela mesma equipa duas semanas antes, através do vizinho telescópio de 2,2 metros.
Após a sua análise pelo Near-Earth Object Program da NASA, as novas observações permitiram eliminar por completo o risco de colisão anteriormente previsto para 2040. A nova trajectória não é significativamente diferente, mas os dados obtidos pelos astrónomos americanos reduziram as incertezas orbitais ao ponto da Terra já não se encontrar no caminho do asteróide. Em Fevereiro de 2040, 2011 AG5 passará assim, certamente, a mais de 890 mil quilómetros do nosso planeta, mais do dobro da distância entre a Lua e a Terra.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Solstício de Inverno 2012

Pôr-do-sol na baía de Cascais. Imagem captada a 21 de Dezembro de 2011.
Crédito: Sérgio Paulino.

O Solstício de Inverno ocorre hoje, pelas 11:12 (hora de Lisboa). Este instante assinala o inicío da estação mais fria do ano, uma estação que se prolongará por 88,99 dias, até ao próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2013.
Em Astronomia, os Solstícios correspondem aos momentos em que o Sol atinge declinações extremas, ou seja, as posições máxima e mínima no céu em relação ao equador. A palavra tem origem latina (Solstitium) e está associada à ideia de que o Sol fica estacionário ao atingir essas posições.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ovos fossilizados em Marte?

Estranha formação geológica vista pelo Curiosity a 09 de Dezembro de 2012 (sol 122 da missão), em Glenelg, no interior da cratera Gale.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems.

Agora que tenho a vossa atenção, esclareço-vos já que esta estrutura não é, certamente, um ovo fossilizado de um antigo dragão marciano. O que vêem na imagem de cima é algo não menos espectacular: uma concreção esférica oca.
Na Terra, as concreções são formadas pela precipitação selectiva de minerais (normalmente, carbonatos de cálcio ou de ferro) no seio de sedimentos expostos a aquíferos subterrâneos. Como os precipitados tendem a formar uma matriz densa, as concreções são, geralmente, bastante mais resistentes à acção erosiva do vento que as rochas sedimentares que as rodeiam. Quando ocorre redissolução dos precipitados no centro da concreção (por exemplo, por exposição a soluções aquosas com propriedades químicas diferentes da solução original), forma-se uma cavidade no seu interior, razão pela qual estas estruturas são, por vezes, confundidas com fósseis animais.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Saturno em contraluz

Saturno visto pela Cassini a 17 de Outubro de 2012, a uma distância aproximada de 800 mil quilómetros.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSI.

A NASA publicou hoje este magnífico retrato de Saturno, obtido pela sonda Cassini em Outubro passado, quando esta viajava na sombra do gigante. Composto por 60 imagens captadas através de filtros para o violeta, o vermelho e o infravermelho, o novo mosaico mostra todo o hemisfério nocturno do planeta e o seu complexo sistema de anéis, desde o anel D (o mais interior) até ao ténue anel E. Aninhadas no canto inferior esquerdo do retrato, logo abaixo dos anéis, encontram-se, ainda, duas das suas maiores luas: Encélado (no seio do anel E) e Tétis (um pouco mais abaixo).
Este novo mosaico assemelha-se a outro obtido pela Cassini em Setembro de 2006. Intitulado "Na sombra de Saturno", esse primeiro mosaico tornou-se famoso por incluir uma invulgar aparição da Terra junto ao sistema principal de anéis.

De olho na atmosfera de Titã

Titã vista pela Cassini a 16 de Dezembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A Cassini terminou ontem uma sessão de quase 30 horas de monitorização do movimento de nuvens na atmosfera titaniana. As imagens usadas na composição de cima foram obtidas no final dessa sessão, quando a sonda da NASA se encontrava sobre a região do pólo sul da lua de Saturno, a cerca de 993 mil quilómetros de distância. Esta região alberga desde Maio passado um impressionante vórtice polar.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Fim do Mundo - grande evento nacional do AstroPT


O AstroPT vai realizar no próximo dia 21 de Dezembro um grande evento nacional dedicado ao tema do fim do mundo. Vejam todos os pormenores aqui.

Missão GRAIL terminou hoje com o impacto das duas sondas da NASA na superfície lunar

Representação artística mostrando as trajectórias finais das sondas gémeas Ebb e Flow sobre a superfície lunar.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/GSFC/ASU.

A missão GRAIL terminou há poucos minutos, depois de uma descida controlada das sondas gémeas Ebb e Flow até à vertente sul de uma montanha situada na região do pólo norte da Lua, entre as crateras Philolaus e Mouchez. Os dois impactos ocorreram pelas 22:28 (hora de Lisboa), a uma velocidade relativa de 6.120 km.h-1, e com um intervalo de tempo aproximado de 20 segundos. Como a região se encontrava na altura imersa nas sombras, as duas sondas da NASA não registaram quaisquer imagens dos seus últimos momentos.
Podem ler sobre os primeiros resultados científicos da missão GRAIL aqui.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sonda Chang'E-2 capta espectaculares imagens do asteróide Toutatis!

De acordo com o canal televisivo chinês CCTV, a Chang'E-2 concretizou anteontem uma passagem bem sucedida por 4179 Toutatis! Viajando a uma velocidade relativa de 10,73 km.s-1, a sonda chinesa sobrevoou a superfície do asteróide pelas 08:30 (hora de Lisboa) a apenas 3,2 quilómetros de altitude. As imagens obtidas durante o evento são de uma qualidade impressionante. Vejam em baixo esta sequência divulgada há poucas horas, captada quando a sonda se encontrava a distâncias de Toutatis entre os 93 e 240 quilómetros.

4179 Toutatis numa série de imagens obtidas pela sonda Chang'E-2 a 13 de Dezembro de 2012 (máxima resolução 10 metros/pixel).
Crédito: CNSA/CLEP.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vulcanismo na orla sudoeste da bacia Caloris

Formação de origem vulcânica em Mercúrio, numa imagem obtida pela sonda MESSENGER a 17 de Novembro de 2012.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Situadas nas proximidades da orla sudoeste de Caloris, as depressões irregulares visíveis na imagem de cima ocupam a parte central de um dos maiores vulcões identificados na superfície de Mercúrio. A sua natureza é denunciada pelo manto de materiais piroclásticos que tinge o terreno envolvente num raio de cerca de 30 quilómetros. Produto de erupções explosivas, estes materiais criaram um fino depósito de margens difusas que cobre antigas crateras de impacto e outras edificações de origem vulcânica.

Cassini observa uma vasta bacia de drenagem na superfície de Titã

Rios titanianos numa imagem de radar captada pela sonda Cassini a 26 de Setembro de 2012 (norte para a direita).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASI.

A sonda Cassini obteve recentemente esta espectacular imagem de radar em alta resolução de uma das mais vastas bacias de drenagem existentes na superfície da maior lua de Saturno. Com mais de 400 quilómetros de comprimento, a bacia escoa directamente para Ligeia Mare, um dos três grandes mares de hidrocarbonetos existentes nas regiões mais setentrionais de Titã.
Os cientistas da missão deduzem que a rede de drenagem se encontra preenchida por hidrocarbonetos em toda a sua extensão, porque a sua superfície não dispersa os pulsos de radar, uma clara indicação de que estas áreas não possuem topografia.

Ligeia Mare num mosaico em cores falsas construído com imagens de radar obtidas pela sonda Cassini.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/USGS.

Tal como acontece noutras bacias existentes no extremo sul de Ligeia Mare, a geomorfologia do vale rasgado pelo rio principal sugere que o sistema segue o trajecto de, pelo menos, uma falha. Estas falhas não são, necessariamente, de natureza tectónica (como as falhas da crusta terrestre), mas poderão ter conduzido à abertura de grandes depressões na crusta titaniana e, talvez, à formação dos grandes mares presentes nesta região.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Asteróide 2012 XE54 passará na próxima madrugada pelo cone de sombra da Terra

A Terra receberá amanhã a visita do asteróide 2012 XE54. Descoberto apenas ontem à noite, o pequeno objecto passará pelas 10:10 (hora de Lisboa) a uma distância mínima de 214 mil quilómetros da superfície terrestre, pouco mais de metade da distância média entre a Terra e a Lua.
Durante a próxima madrugada, o asteróide fará uma incursão pelo cone de sombra do nosso planeta, um fenómeno relativamente raro em encontros entre asteróides e a Terra. De acordo com os mais recentes cálculos da sua trajectória, este eclipse parcial deverá ser visível entre as 01:22 e 02:00 (horas de Lisboa). O máximo do eclipse acontecerá por volta das 01:41 (hora de Lisboa), a uma distância de cerca de 447 mil quilómetros da superfície da Terra.

Animação mostrando a Terra e o Sol vistos da superfície do asteróide 2012 XE54 durante a sua passagem pelo cone de sombra do nosso planeta.
Crédito: Pasquale Tricarico.

2012 XE54 é um objecto rochoso com 22 a 49 metros de diâmetro, pertencente ao grupo Apollo. Espera-se que durante a madrugada, o pequeno asteróide atinja uma magnitude aparente de 13, pelo que deverá estar apenas acessível a telescópios com aberturas iguais ou superiores a 200 mm.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Sondas GRAIL completam o melhor mapa gravitacional da Lua de sempre

Mapa do campo gravitacional da Lua medido pela missão GRAIL.
Crédito: NASA/ARC/MIT.

Foram divulgados na semana passada na revista Science os primeiros resultados científicos da missão Gravity Recovery and Interior Laboratory (GRAIL). Em órbita lunar desde o início do ano, as duas sondas gémeas Ebb e Flow reuniram um conjunto de dados que disponibilizam uma visão sem precedentes da estrutura e composição interna da Lua, bem como o mais detalhado mapa gravitacional de qualquer objecto do Sistema Solar, incluindo a Terra.
Para criarem este novo mapa, as duas sondas tiveram de trocar sinais de rádio entre si durante toda a missão, com o propósito de medirem com rigor variações na distância que as separava enquanto orbitavam a Lua em perfeita formação, a apenas 55 quilómetros de altitude. À medida que sobrevoavam áreas com ligeiras variações gravitacionais associadas à presença de montanhas, crateras ou concentrações de massa subsuperficiais, as duas sondas iam sofrendo infímas perturbações na sua velocidade, medidas com uma precisão na ordem dos 55 nm.s-1 (o equivalente a 1/20.000 da velocidade de um caracol). Usando este método, os investigadores da missão conseguiram mapear uma variedade de antigas estruturas subsuperficiais, algumas delas nunca antes observadas.

Representação artística das sondas Ebb e Flow sobrevoando a Lua.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MIT.

O novo mapa mostra que o campo gravitacional da Lua preserva o registo dos violentos impactos que assolaram a superfície lunar ao longo da sua história, e revela evidências da presença de fracturas no seu interior, que se estendem até às regiões mais profundas da crusta e, possivelmente, até ao manto.
A equipa de investigadores da missão usou gradientes do campo magnético para evidenciar populações de anomalias gravitacionais lineares com comprimentos na ordem das centenas de quilómetros. Estas anomalias são interpretadas como assinaturas da presença de intrusões subsuperficiais de magma solidificado de formação anterior ao Grande Bombardeamento Tardio, período em que se formaram a maioria das grandes bacias de impacto lunares. A distribuição, orientação e dimensões destas estruturas sugerem a ocorrência de uma distensão global da crusta lunar quando a Lua era ainda um corpo jovem. Este fenómeno terá sido consequência de um aumento do seu diâmetro em cerca de 1,2 a 9,8 quilómetros, o que é consistente com as previsões dos actuais modelos de evolução térmica.

Mapa dos gradientes gravitacionais da Lua calculados pela missão GRAIL (o azul e o vermelho correspondem aos gradientes extremos).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/CSM.

Os dados obtidos pelas duas sondas mostram, ainda, que a densidade da crusta nas terras altas da Lua é de apenas 2,550 g.cm-3,um valor substancialmente inferior ao que era assumido anteriormente. Este valor está, no entanto, em concordância com os dados obtidos pelas últimas missões Apollo no início dos anos 70, uma clara indicação de que as amostras lunares recolhidas pelos astronautas americanos são representativas de processos globais.

Mapa da densidade da crusta nas terras altas dos dois hemisférios da Lua, construído com dados da gravidade lunar obtidos pela missão GRAIL e com dados topográficos da Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/IPGP.

A partir dos resultados da densidade da crusta lunar, os cientistas da missão descobriram que a espessura média da crusta se encontra entre os 34 e os 43 quilómetros, ou seja, menos 10 a 20 quilómetros que o determinado em anteriores modelos da estrutura interna da Lua. Estas dimensões médias mostram que a composição elementar da Lua é semelhante à da Terra, o que suporta os modelos que explicam a génese da Lua a partir de um impacto catastrófico na Terra, no primórdios da formação do Sistema Solar.

Mapa da espessura da crusta lunar deduzido a partir de dados da gravidade lunar obtidos pela missão GRAIL e de dados topográficos da missão Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MIT/GSFC.

Estes resultados dizem respeito apenas à missão primária das GRAIL, concluída em Maio passado. Neste momento, as duas sondas encontram-se a apenas 11 quilómetros de altitude da superfície lunar, em plena fase final da missão prolongada, missão que deverá produzir um conjunto de dados com uma melhor resolução.
Podem ler mais sobre estes resultados aqui, aqui e aqui.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Asteróide Toutatis em aproximação à Terra

Como já havia referido aqui, o asteróide 4179 Toutatis passará no próximo dia 12 de Dezembro a cerca de 7 milhões de quilómetros de distância da Terra (cerca de 18 vezes a distância média entre a Terra e a Lua). Como aconteceu em todas as suas anteriores visitas ao nosso planeta desde 1992, Toutatis será alvo de uma campanha de observação pelos radiotelescópios de Goldstone e de Arecibo que se estenderá até ao dia 22 de Dezembro. Durante esta campanha de 2012, os cientistas dos dois observatórios esperam obter imagens de radar com uma resolução máxima de 7,5 metros.pixel-1. Entretanto, já se iniciaram durante esta semana as observações em Goldstone. Vejam em baixo as primeiras três imagens de radar do encontro deste ano.

O asteróide Toutatis em três imagens de radar obtidas entre 4 e 7 de Dezembro pelo antenas de radar de Goldstone.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

Esta aproximação de Toutatis ao nosso planeta será acompanhada de um outro evento especial. A Chang'E-2 está neste momento a poucos dias de um encontro com o asteróide a cerca de 300 quilómetros de distância da sua superfície. Esta será a primeira vez que uma sonda chinesa se aventura tão longe da Terra, pelo que esta passagem terá um significado especial para o programa espacial chinês.
O encontro será, no entanto, um grande desafio para a equipa da missão. As câmaras da Chang'E-2 foram concebidas para mapear a superfície lunar (tarefa que concluiram com sucesso no início de 2011), e não para fotografar a superfície de um objecto com pouco mais de 4 quilómetros de comprimento durante uma passagem a uma velocidade estonteante de 10,7 km.s-1, pelo que, na melhor das hipóteses, a sonda deverá conseguir obter dois pares de imagens (um no ingresso e outro no egresso) com uma resolução máxima de algumas dezenas de metros. Esta resolução não se aproxima à das imagens de radar de Goldstone e de Arecibo, mas permitirá a identificação de variações de albedo ao longo da superfície de Toutatis, uma informação inacessível aos dois radiotelescópios.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Águas de antigas inundações catastróficas na superfície de Marte poderão ter sido engolidas por vastos sistemas de cavernas

Região terminal de Hebrus Valles numa imagem obtida pela sonda europeia Mars Express a 28 de Dezembro de 2007 (norte para cima).
Crédito: ESA/DLR/FU Berlin (G. Neukum).

Um grupo internacional de investigadores descobriu evidências de que as inundações catastróficas que rasgaram grandes vales nas terras baixas do hemisfério norte de Marte, há cerca de 2 mil milhões de anos, poderão ter sido drenadas para o subsolo marciano através de vastos sistemas de cavernas. A equipa liderada por J. Alexis P. Rodriguez chegou a esta conclusão após ter estudado um conjunto de estruturas situadas a jusante de Hebrus Valles, um sistema de vales com cerca de 250 km de comprimento situado na margem sudeste de Utopia Planitia, junto à base de Elysium Mons.
Estima-se que as inundações que escavaram os grandes vales fluviais marcianos foram as mais volumosas alguma vez ocorridas no Sistema Solar. Alguns cientistas sugerem que estas inundações periódicas poderão ter conduzido à formação de grandes lagos ou oceanos nas bacias mais profundas de Marte. No entanto, pouco se sabe acerca da sua natureza e do seu destino final, essencialmente, porque as estruturas terminais dos vales foram erodidas ou ocultadas por sedimentos.
Hebrus Valles é um conjunto de vales fluviais único em Marte, pois conserva a jusante formações geológicas contemporâneas à sua génese, interpretadas por Rodriguez e colegas como vulcões de lama alinhados com uma rede de valas lineares. O volume cumulativo de água drenada por Hebrus Valles excede largamente o volume que a rede de valas poderia comportar, pelo que os investigadores sugerem que estas estruturas são, provavelmente, secções colapsadas de um vasto sistema de cavernas criadas pelos vulcões de lama.
Apesar do vulcanismo de lama conseguir expelir grandes volumes de sedimentos e substâncias voláteis do subsolo, as cavernas por si formadas são altamente instáveis porque ocorrem no seio de materiais pouco consistentes. No entanto, o sistema de cavernas situadas a jusante de Hebrus Valles ter-se-á desenvolvido em solos gelados (permafrost), que nas temperaturas médias anuais típicas das latitudes de Utopia Planitia (cerca de -65º C) apresentam uma resistência mecânica semelhante ao calcário, um material rochoso que alberga a maioria das cavernas terrestres.
A recente descoberta de entradas para possíveis cavernas na superfície de Marte despertou o interesse da comunidade científica pelo seu potencial como habitats exobiológicos. No entanto, até agora, pouco se sabia acerca da sua idade e dimensões. A descoberta de um vasto sistema de cavernas em Utopia Planitia vem demonstrar que estes habitats existiram no planeta, pelo menos durante os últimos 2 mil milhões de anos.
Este trabalho foi publicado na semana passada na revista Geophysical Research Letters (leiam o resumo do artigo aqui).

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Voyager 1 encontra uma nova região nos limites exteriores do Sistema Solar

Representação artística da Voyager 1 explorando a nova região descoberta nas proximidades da heliopausa.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

São cada vez mais os indícios de que a Voyager 1 está à beira de abandonar definitivamente os domínios do Sistema Solar. Depois da recente detecção de um aumento rápido da densidade de partículas energéticas interestelares, acompanhada de uma diminuição brusca do nível de partículas com baixa energia provenientes do interior da heliosfera, a venerável sonda da NASA descobriu agora uma nova região onde as linhas do campo magnético do Sol se conectam às linhas do campo magnético interestelar. Estas conexões criam condições para que as partículas carregadas do meio interestelar fluam livremente para o interior da heliosfera, e as partículas carregadas com origem no Sol saiam rapidamente para o seu exterior.
Esta nova região encontra-se ainda aquém da derradeira fronteira do Sistema Solar (a heliopausa), porque a orientação das linhas do campo magnético em redor da Voyager 1 não sofreu qualquer alteração. Os cientistas da missão prevêem, no entanto, uma mudança na sua direcção assim que a sonda entrar no espaço interestelar.
A Voyager 1 tem estado a explorar a camada mais exterior da heliosfera desde Dezembro de 2004, altura em que atravessou o choque terminal, uma fronteira definida pela desaceleração abrupta do vento solar para velocidades subsónicas. Depois de navegar mais de 5 anos numa região de elevada turbulência magnética, a sonda detectou uma queda da velocidade das partículas do vento solar para valores próximos do zero, um primeiro sinal da aproximação da heliopausa. A este fenómeno seguiram-se o aumento da densidade dos raios cósmicos provenientes do espaço interestelar, a diminuição da quantidade de partículas com origem no interior da heliosfera, e um aumento gradual, mas significativo, da intensidade do campo magnético. A nova região agora descoberta possui um campo magnético 10 vezes mais intenso que o detectado antes da travessia do choque terminal, um valor que surpreendeu os investigadores.
Neste momento, a Voyager 1 encontra-se a cerca de 18,47 mil milhões de quilómetros da Terra, uma distância que a torna no mais longínquo objecto construído pelo Homem. O seu sinal leva pouco mais de 17 horas a cruzar o espaço até às antenas do Deep Space Network. A sua irmã gémea, a Voyager 2, viaja a 15,10 mil milhões de quilómetros de distância do nosso planeta, numa direcção diferente. Apesar de já ter registado alterações no ambiente em seu redor sugestivas da aproximação da heliopausa, estas aparentam ser mais graduais, pelo que os cientistas da missão não têm ainda quaisquer evidências de que a Voyager 2 tenha atingido uma região semelhante à descoberta pela Voyager 1.

Missão Curiosity: detectada química complexa no solo de Rocknest... mas sem a presença de composto orgânicos

Covas feitas pelo Curiosity nas areias de Rocknest, numa imagem obtida pela câmara MAHLI a 31 de Outubro de 2012 (sol 84).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

A equipa científica da missão Curiosity divulgou ontem, numa conferência de imprensa, os resultados da sua primeira análise completa a amostras de solo marciano recolhidas no interior da cratera Gale. Para desilusão de muitos, o robot da NASA não detectou quaisquer compostos orgânicos de origem marciana, mas encontrou uma variedade de interessantes moléculas que sugerem a presença de uma química complexa nas areias de Rocknest.
Dados recolhidos pelos instrumentos Alpha Particle X-Ray Spectrometer (APXS) e Mars Hand Lens Imager (MAHLI) confirmaram que Rocknest tem uma textura e composição química elementar semelhante ao solo de outros locais no planeta vermelho, visitados anteriormente pelas missões Pathfinder, Spirit e Opportunity. As imagens da MAHLI mostram que a pequena língua de areia se encontrava coberta por uma crusta com um a dois grãos de areia de espessura revestida por uma fina camada de poeira, o que sugere que se manteve imperturbada por muito tempo. Abaixo da crusta superficial, Rocknest revelou-se ser formada por grãos de areia escura mais finos.

Pormenores dos grãos de areia de Rocknest vistos pela câmara MAHLI. À esquerda, variedade de tamanhos nos grãos da crusta superficial numa imagem obtida a 04 de Outubro de 2012 (sol 58). À direita, finos grãos de areia escura subsuperficiais numa imagem obtida a 20 de Outubro de 2012 (sol 73).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

A composição mineralógica e química de Rocknest foi escrutinada pelo instrumento Chemistry and Mineralogy X-Ray Diffraction (CheMin) e pelo mini-laboratório de análise química Sample Analysis at Mars (SAM), em amostras recolhidas por uma pequena pá vibratória localizada na extremidade do braço robótico do Curiosity. De acordo com os dados obtidos pelo CheMin, as areias de Rocknest são constituídas por partes iguais de minerais vulcânicos comuns e de materiais não cristalinos semelhantes ao vidro vulcânico. A estes dados, o SAM adicionou informações relativas aos ingredientes presentes em menores concentrações e à razão isotópica de alguns elementos.
"Não temos uma detecção definitiva de [compostos] orgânicos marcianos nesta fase, mas vamos continuar a procurá-los nos diversos ambientes existentes na cratera Gale", afirmou na conferência de imprensa o investigador principal do SAM Paul Mahaffy.
Entre as moléculas detectadas nas areias de Rocknest não se encontravam as tão esperadas moléculas orgânicas marcianas. No entanto, o SAM identificou vários compostos interessantes entre os mais abundantes, incluindo a água (em quantidades insuficientes para suportar vida tal como a conhecemos, mas ainda assim acima do esperado), o enxofre (numa proporção até 10% no conjunto das amostras) e os percloratos (compostos muito reactivos que já haviam sido identificados nos solos árticos marcianos pela missão Phoenix). Adicionalmente, foram detectadas quantidades vestigiais de compostos orgânicos simples, que os investigadores da missão pensam ser de origem terrestre (contaminantes terrestres possivelmente presentes no interior do SAM). A razão deutério/hidrogénio medida em Rocknest é, curiosamente, cinco vezes superior à encontrada nos oceanos terrestres, um resultado importante para a compreensão da evolução do ambiente marciano.
Terminados que estão os testes a todos os equipamentos do Curiosity, ficam assim reunidas as condições para o arranque, em breve, da fase científica da missão, já com uma primeira escala em Glenelg. "Usámos quase todas as partes da nossa aparelhagem científica neste local" disse o responsável científico da missão John Grotzinger. "A sinergia dos instrumentos e a riqueza dos dados dá-nos grandes promessas para o seu uso no destino científico principal da missão, o monte Sharp."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ode a um Sol (demasiado) tranquilo

A equipa do Space Weather Prediction Center do NOAA deixou esta madrugada na sua página do facebook este belo poema dedicado ao actual estado da actividade solar. Leiam em baixo uma tradução livre desse poema para português.

O Sol visto a 03 de Dezembro de 2012, pelo instrumento Atmospheric Imaging Assembly (AIA) do Solar Dynamics Observatory (SDO), na banda do ultravioleta extremo (canal 171 Å).
Crédito: SDO (NASA)/AIA consortium.

No nosso canto do Sistema Solar

O Sol está sedado
As partículas, plácidas
O vento solar, indolente
O campo magnético, flácido

Nenhuma região está em fulguração
Nem nenhum filamento em erupção
Nenhum fluxo de alta velocidade está soprando
E a magnetosfera perturbando

Mas no coração do Sol
A fusão inabalável
Mantém tudo,
Ainda assim, em actividade.

Não faltará muito
Para novas manchas solares aparecerem
E ejecções de massa coronal acontecerem
Para os especialistas se animarem…

Rochas estratificadas em Glenelg

Vejam só este belíssimo conjunto de rochas estratificadas rasgando a paisagem de Glenelg, no interior da cratera Gale, na superfície do planeta Marte!

Rochas estratificadas em Glenelg, num panorama obtido pela MastCam-100 do Curiosity a 26 de Novembro de 2012, sol 110 da missão (explorem-no com o Zoom.it).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Sérgio Paulino.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Missão Cassini: belas imagens do mais recente encontro com Titã

A sonda Cassini realizou anteontem a última passagem deste ano pela lua Titã. Este encontro serviu, principalmente, para o instrumento Visual and Infrared Mapping Spectrometer (VIMS) recolher imagens de Mackay Lacus, um grande lago situado nas proximidades do pólo norte, de Tortola Facula, uma região acidentada a noroeste de Shangri-La, e de Santorini Facula, uma cratera de impacto localizada a sul de Tortola. Depois de sobrevoar os campos de dunas de Shangri-La, a Cassini colocou em acção as suas câmaras e fotografou as regiões mais meridionais do hemisfério anti-saturniano de Titã, incluindo o local onde a sonda Huygens poisou em Janeiro de 2006.
Vejam em baixo algumas das belas imagens recolhidas durante este encontro.

Um crescente de Titã em cores naturais. Composição de três imagens obtidas pela sonda Cassini a 30 de Novembro de 2012, através de filtros para o violeta (430 nm), o verde (562 nm) e o vermelho (650 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A região mais meridional do hemisfério anti-saturniano de Titã numa composição em cores naturais construída com três imagens obtidas pela sonda Cassini a 30 de Novembro de 2012, através de filtros para o violeta (430 nm), o verde (562 nm) e o vermelho (650 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A mesma região visível na imagem de cima vista através de um filtro para uma estreita faixa da banda do infravermelho próximo onde a atmosfera titaniana é mais transparente.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

A região de Adiri, local onde a Huygens poisou em 2006. Mosaico de 3 imagens obtidas pela câmara de ângulo fechado da Cassini através de um filtro semelhante ao usado na imagem de cima.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição e anotações de Sérgio Paulino.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

MESSENGER encontra novas evidências da presença de gelo de água nas regiões polares de Mercúrio

Em Março passado, cientistas da NASA divulgaram resultados obtidos durante a missão primária da MESSENGER que sugeriam a presença de depósitos de gelo de água e de outros materiais voláteis em crateras permanentemente sombrias nas regiões polares de Mercúrio, os mesmos locais onde haviam sido descobertas nos anos 90 superfícies com elevada reflectividade radar (ler mais aqui). Ontem foram publicados três artigos na revista Science onde são descritas novas evidências a suportar esta hipótese.

Mosaico do pólo norte de Mercúrio mostrando a localização dos depósitos com elevada reflectividade radar (a amarelo) e as regiões no interior das crateras que se encontram permanentemente escondidas da luz solar (a vermelho).
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/National Astronomy and Ionosphere Center, Arecibo Observatory.

Num dos artigos, um grupo de cientistas liderado por David Lawrence do Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Johns Hopkins analisou dados recolhidos pelo espectrómetro de neutrões da MESSENGER no pólo norte de Mercúrio. Aplicada ao mapeamento de neutrões emitidos pelas superfícies planetárias expostas à radiação cósmica, a espectrometria de neutrões permite inferir variações na concentração de diferentes elementos nessas superfícies. Os elementos mais leves como o hidrogénio absorvem com maior eficácia a energia dos neutrões, pelo que materiais com grandes concentrações desses elementos tendem a provocar um descrécimo acentuado no fluxo de neutrões mais energéticos: os neutrões rápidos e epitérmicos. De acordo com os autores deste artigo, o espectrómetro de neutrões da MESSENGER detectou uma quebra na emissão de neutrões rápidos e epitérmicos na região do pólo norte de Mercúrio correspondente à presença em alguns locais de uma camada subsuperficial rica em hidrogénio com algumas dezenas de centímetros de espessura, coberta por uma fina camada com 10 a 20 centímetros pobre nesse elemento. A concentração de hidrogénio na camada subsuperficial é consistente com a presença de gelo de água quase puro nestas regiões.

Ilustração mostrando o efeito do hidrogénio do gelo de água de uma cratera mercuriana nos neutrões mais energéticos.
CréditoNASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Noutro artigo, os autores analisaram a reflectência dos pulsos de laser disparados pelo instrumento Mercury Laser Altimeter (MLA) sobre as regiões permanentemente sombrias nas crateras do pólo norte mercuriano, e obtiveram dados que corroboram as observações realizadas pelo espectrómetro de neutrões. De acordo com as medições obtidas pelo MLA, estas regiões estão preenchidas com materiais brilhantes com propriedades ópticas típicas do gelo de água. O altímetro da MESSENGER detectou ainda áreas cobertas com materiais com reflectência diminuída, que poderão corresponder a pequenas superfícies ricas em compostos orgânicos que, provavelmente, isolam camadas subsuperficiais de gelo da erosão térmica. Estas anomalias correlacionam-se espacialmente com as superfícies com elevada reflectividade radar mapeadas nos anos 90.

Mapa topográfico da região do pólo norte de Mercúrio criado com dados obtidos pelo instrumento MLA da MESSENGER. No centro da imagem encontra-se Prokofiev, uma profunda cratera com 110 km de diâmetro que contém uma vasta área permanentemente sombria.
Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

No artigo de David Paige e colegas são apresentados os primeiros modelos detalhados da distribuição de temperaturas superficiais e subsuperficias na região do pólo norte de Mercúrio, baseados nos mais recentes dados topográficos obtidos pelo MLA. Estes novos modelos prevêm a estabilidade térmica do gelo de água nas regiões com elevada reflectividade radar, o que suporta as conclusões dos outros dois trabalhos.

Ilustração mostrando o provável mecanismo de formação dos depósitos de gelo de água e de outros compostos voláteis nas regiões permanentemente sombrias de Mercúrio. A - distribuição de temperaturas no interior de uma cratera polar. B- impacto de um cometa ou de um asteróide rico em compostos voláteis. C - Distribuição dos materiais voláteis sobre a cratera. D - Vaporização da água e de outros compostos voláteis nas áreas expostas à radiação solar. E - Configuração termicamente estável com concentração de compostos orgânicos nas zonas mais quentes das regiões permanentemente sombrias.
Crédito: NASA/UCLA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington.

Paige e colegas sugerem que os materiais com baixa reflectência mapeados pelo MLA são, provavelmente, moléculas orgânicas deixadas na superfície de Mercúrio pelo impacto de cometas e de asteróides ricos em compostos voláteis, os mesmos objectos que transportaram a água até aos planetas interiores do Sistema Solar. Nas regiões permanentemente sombrias das crateras dos pólos, esses compostos poderão ter sido concentrados em áreas onde o gelo de água é instável à superfície, criando um depósito rico em materiais orgânicos posteriormente enegrecidos por exposição ao ambiente espacial.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Imagens incríveis do vórtice do pólo norte de Saturno

Preparem-se para uma visão absolutamente assombrosa!

Pólo norte de Saturno visto pela Cassini a 27 de Novembro de 2012, através de um filtro para o infra-vermelho próximo (750 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

O que estão a ver é o centro de um gigantesco vórtice polar que rodopia sobre o pólo norte de Saturno. Observado pela primeira vez pelas sondas Voyager 1 e 2 no início dos anos 80, esta complexa estrutura estende-se por quase 25 mil quilómetros e forma um padrão hexagonal facilmente reconhecível em imagens captadas em comprimentos de onda no infravermelho. Vejam em baixo:

Estrutura hexagonal do vórtice do pólo norte de Saturno numa imagem obtida pela sonda Cassini a 27 de Novembro de 2012, através de um filtro para o infravermelho próximo (752 nm).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Os vórtices polares são fenómenos atmosféricos que se formam nas regiões polares de objectos como a Terra, Titã, Vénus e Júpiter, locais onde exibem normalmente padrões circulares. O vórtice do pólo norte de Saturno é particularmente interessante, não só pela sua aparente estabilidade a longo termo, como também pela sua invulgar geometria.
Em 2010, a sua estrutura hexagonal foi recriada pela primeira vez em laboratório por uma equipa de físicos da Universidade de Oxford, liderada pela cientista portuguesa Ana C. Barbosa Aguiar (ver o artigo deste trabalho aqui). Usando um tanque cilíndrico cheio com água com dois discos concêntricos em rotação no seu interior, a equipa de investigadores simulou a formação do padrão hexagonal observado em Saturno e de outros padrões geométricos, alterando o gradiente de velocidades de rotação entre os dois discos. Com esta simples experiência, Ana Barbosa e colegas demonstraram que a estrutura do vórtice do pólo norte de Saturno emerge de distúrbios atmosféricos induzidos por um gradiente de velocidades nos ventos de secções adjacentes da atmosfera, em latitudes do hemisfério norte próximas dos 78º.
Vejam em baixo o vídeo de uma das experiências:


terça-feira, 27 de novembro de 2012

NASA observa asteróide 2007 PA8

Imagens de radar do asteróide 2007 PA8 obtidas entre 31 de Outubro e 13 de Novembro pela antena de 70 metros do Deep Space Network de Goldstone, Califórnia, EUA.
Crédito: NASA/JPL-Caltech.

No passado dia 05 de Novembro, o asteróide (214869) 2007 PA8 aproximou-se a apenas 0,043 UA da Terra (cerca de 17 vezes a distância média Terra-Lua), uma distância que o tornou num alvo favorável para  uma série de observações com as antenas de radar do Deep Space Network de Goldstone, na Califórnia, EUA. Os dados recolhidos durante a campanha permitiram aos cientistas da NASA diminuir drasticamente as incertezas da sua órbita, e assim recalcular a sua trajectória com grande precisão para os próximos 632 anos, período no qual não constituirá qualquer ameaça ao nosso planeta. A passagem deste ano foi a mais próxima da Terra desde 1880, e não terá paralelo pelo menos até 2488, quando o asteróide se aproximar a apenas 5,8 milhões de quilómetros (cerca de 15 vezes a distância Terra-Lua).
As imagens de radar obtidas em Goldstone mostram que 2007 PA8 é um objecto alongado com 1,5 a 2,0 quilómetros de diâmetro, com um período de rotação excepcionalmente longo (entre 3 a 4 dias). Em algumas imagens é possível vislumbrar alguns pormenores da sua superfície, incluindo possíveis crateras, cristas e rochedos.

Mais um Pac-Man no sistema saturniano

Recordam-se do curioso padrão de distribuição de temperaturas observado pela Cassini em 2010 na pequena lua Mimas? Cientistas da missão identificaram um segundo padrão em forma de Pac-Man no hemisfério líder de Tétis, em observações realizadas a 14 de Setembro de 2011 com o espectrómetro CIRS. A descoberta desta nova distribuição térmica com a silhueta da figura icónica dos videojogos dos anos 80 vem demostrar que os processos responsáveis pela sua criação não se encontram circunscritos a Mimas, e poderão ser encontrados noutras luas do sistema saturniano (e, provavelmente, nos satélites de Júpiter).

Distribuição das temperaturas superficiais nas luas Mimas (à esquerda) e Tétis (à direita). Mapas construídos com dados obtidos pelo espectrómetro CIRS da sonda Cassini em Fevereiro de 2010 e em Setembro de 2011.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/GSFC/SWRI.

De acordo com os investigadores, o padrão anómalo de temperaturas superficiais observado nas luas de Saturno poderá ser uma consequência da forma como os electrões de alta energia bombardeiam preferencialmente as baixas latitudes dos hemisférios líderes de cada lua (os hemisférios que se encontram voltados na direcção do movimento de revolução das luas em redor do planeta). O bombardeamento incessante destas partículas endurece nestas regiões o gelo superficial, aumentando consequentemente a sua inércia térmica. A detecção em Tétis de um padrão térmico superficial idêntico ao observado em Mimas não só confirma que os electrões de alta energia podem alterar de forma dramática a superfície gelada das luas saturnianas, como também sugere que essas alterações são mais rápidas que as provocadas pelo bombardeamento de partículas de gelo (no caso de Tétis, provenientes dos geisers de Encélado).
Contrariamente a Mimas, o padrão de distribuição de temperaturas de Tétis tem paralelo com subtis variações de brilho na sua superfície observadas nas bandas do infravermelho próximo e do visível. As regiões mais quentes da superfície tetiana atingem os 90 K (-183º C), uma temperatura ligeiramente inferior à das regiões mais quentes de Mimas (95 K ou -178º C). As baixas latitudes do hemisfério líder são cerca de 15 K mais frias que as regiões vizinhas, uma diferença também observada em Mimas.
Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

domingo, 25 de novembro de 2012

Descida até Glenelg

Vista sobre Glenelg (cliquem na imagem para a aumentar). Composição de 55 imagens obtidas pela MastCam-100 do robot Curiosity a 23 de Novembro de 2012 (sol 107).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Sérgio Paulino.

Completa-se hoje uma semana desde que o Curiosity levantou âncoras de Rocknest e reiniciou a sua viagem até às maravilhas geológicas de Glenelg. Anteontem, depois de trilhar mais alguns metros, o robot da NASA parou por breves momentos para obter um grande panorama sobre a espectacular paisagem que se abre agora na sua frente. Velada pela poeira recentemente lançada sobre a cratera Gale, a paisagem inclui uma amostra da diversidade geológica que caracteriza Glenelg, encimada pelas magníficas encostas do Monte Sharp.

sábado, 24 de novembro de 2012

Poeira atmosférica sobre a cratera Gale

Mudança na opacidade atmosférica entre os sóis 75 e 100. Imagens obtidas pela MastCam do Curiosity a 22 de Outubro e a 16 de Novembro de 2012.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Sérgio Paulino.

Na semana passada, a Mars Reconnaissance Orbiter observou o desenvolvimento de uma grande tempestade de poeira em Utopia Planitia. Nos sóis seguintes, a tempestade deslocou-se através de Isidis Planitia e Syrtis Major até ao hemisfério sul do planeta vermelho, aumentando em seguida de tamanho até atingir uma área com cerca de 10,4 milhões de quilómetros quadrados, cobrindo toda a bacia de Hellas e grande parte de Noachis Terra, a oeste, e Promethei Terra, a leste. Por essa altura, o fenómeno mostrava já sinais de enfraquecimento. No entanto, apesar de nunca ter estado a menos de 1.300 quilómetros de distância da cratera Gale, a tempestade lançou quantidades significativas de poeira sobre o local onde se encontra o robot Curiosity, como podem verificar na imagem de cima.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um planeta majestoso

Saturno em cores naturais numa composição de imagens obtidas pela sonda Cassini a 18 de Novembro de 2012, através de filtros para o azul, o verde e o vermelho (imagens originais: W00077010, W00077011 e W00077012).
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

A Cassini encontrava-se a 1,95 milhões de quilómetros de Saturno quando obteve este bonito retrato dos domínios mais meridionais deste majestoso planeta.

Indícios da presença de fluídos hidrotermais num meteorito proveniente de Marte

Imagem de microscopia electrónica de transmissão mostrando depósitos de argilas e de carbonatos numa fractura no interior do meteorito Lafayette (largura da imagem correspondente a 50 µm).
Crédito: University of Leicester.

Cientistas britânicos descobriram indicíos de que a superfície marciana poderá ter albergado num passado recente fontes hidrotermais potencialmente habitáveis. Usando dados mineralógicos do meteorito Lafayette (um meteorito de origem marciana pertencente ao grupo dos nakhlitos), John Bridges e Susanne Schwenzer criaram um modelo termoquímico que explica a presença e a composição dos precipitados que preenchem as fracturas existentes no seu interior. De acordo com o trabalho dos dois investigadores, os depósitos encontrados nas fracturas de Lafayette formaram-se a partir de fluídos hidrotermais saturados ricos em dióxido de carbono, com abundância de nutrientes e em condições de temperatura favoráveis à proliferação de vida microbiana, tal como a conhecemos.
Os nakhlitos são um grupo de rochas ígneas formadas há 1,3 mil milhões de anos, a partir de fluxos superficiais de magma basáltico, numa das grandes planícies vulcânicas do planeta vermelho. Depois de sofrerem cristalizações intersticiais e outras modificações químicas, os nakhlitos foram ejectados pelo impacto de um objecto na superfície de Marte há cerca de 10,75 milhões de anos. Nos últimos 10 mil anos chegaram à Terra, pelo menos, 8 exemplares, caindo em regiões tão distintas como a Antártida e o Norte de África. O meteorito Lafayette é o que contém a maior quantidade de registos da presença de fluídos hidrotermais no seu interior, pelo que foi escolhido pelos dois investigadores britânicos como fonte de dados para a elaboração do seu modelo.
Observações realizadas através de microscopia electrónica mostram que as fracturas de Lafayette estão preenchidas com unidades mineralógicas formadas em sequências distintas. Nas margens das fracturas encontram-se finas camadas de precipitados de carbonatos de ferro e de cálcio, seguidas de depósitos de esmectite e de serpentinas (minerais argilosos) ricos em ferro. No centro dos veios figuram fases amorfas de esmectite.
De acordo com o novo modelo de Bridges e Schwenzer, Lafayette terá estado, inicialmente, em contacto com um fluído saturado rico em dióxido de carbono, aquecido a temperaturas entre os 150 e os 200ºC. Nessas condições terá ocorrido a precipitação dos carbonatos de ferro e de cálcio no interior dos grânulos de olivina, entretanto erodidos por dissolução acídica. À medida que o pH foi evoluindo para condições neutras e básicas, e a temperatura do fluído foi descendo até aos 50ºC, deu-se a precipitação das esmectites e das serpentinas ricas em ferro, seguindo-se uma rápida precipitação do gel amorfo rico em esmectite. Estas transformações terão ocorrido há menos de 670 milhões de anos, num período relativamente recente da história de Marte, e terão gerado durante algum tempo um ambiente habitável com condições semelhantes a algumas fontes hidrotermais de origem vulcânica existentes na Terra.
Podem ler mais sobre este trabalho aqui e aqui.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Nomes de montanhas de Titã inspiradas nas obras de J. R. R. Tolkien

Doom Mons, um criovulcão com mais de 1.000 metros de altitude, situado na região de Aztlan, em Titã. Imagem obtida pelo RADAR da sonda Cassini a 22 de Fevereiro de 2007.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASI/anotações de Sérgio Paulino.

A União Astronómica Internacional aprovou esta semana 7 novos nomes para montanhas da lua saturniana Titã. Por convenção, as montanhas titanianas recebem nomes de montes, picos ou cadeias montanhosas da Terra Média, o cenário fictício das novelas do autor inglês J. R. R. Tolkien. Às 6 montanhas baptizadas em Dezembro passado juntam-se agora Doom Mons, Erebor Mons, Mithrim Montes, Misty Montes, Irensaga Montes, Mindolluin Montes e Taniquetil Montes (estas três últimas situadas a oeste do local onde poisou a sonda Huygens, em Janeiro de 2005).
Doom Mons é uma estrutura particularmente interessante porque se assemelha a uma versão gelada do Monte da Condenação, o vulcão onde Sauron, o senhor de Mordor, forjou o Anel Um. Com mais de 1.000 metros de altitude, Doom Mons é o melhor exemplo conhecido de um criovulcão. Das suas múltiplas crateras parte Mohini Fluctus, um conjunto de fluxos criovulcânicos que se estendem por cerca de 180 quilómetros em direcção a um extenso campo de dunas a norte.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Barrancos sulcados por lava numa cratera marciana

Pequena cratera marciana fotografada a 11 de Agosto de 2012 pelo sistema HiRISE da Mars Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

Localizada no extremo sul de Elysium Planitia, uma extensa planície com inúmeras estruturas de origem vulcânica, esta cratera de 3 quilómetros de diâmetro sobreviveu por pouco a uma inundação catastrófica de lava que cobriu toda a região em seu redor. A massa de rocha fluída conseguiu, no entanto, transpor o seu rebordo em pelo menos dois locais, rasgando nas encostas a oeste profundos barrancos e criando um pequeno lago de lava no centro da cratera. Na imagem é possível distinguir ainda pequenas estrias negras nas vertentes inclinadas, provavelmente formadas por recentes avalanches de poeira.
Existem barrancos semelhantes em crateras de impacto na Lua. No entanto, a sua formação está associada não a fenómenos vulcânicos, mas sim à génese da própria cratera. A energia libertada pelo impacto de um objecto numa superfície sólida liberta uma quantidade de energia suficiente para fundir grandes volumes de rocha, que podem ser arremessados para a orla da cratera e depois fluir de volta ao seu centro.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um mundo orfão na vizinhança do Sistema Solar?

Representação artística de uma imagem infravermelha do objecto CFBDSIR J214947.2-040308.9, um novo candidato a planeta errante recentemente descoberto.
Crédito: ESO/L. Calçada/P. Delorme/Nick Risinger (skysurvey.org)/R. Saito/VVV Consortium.

Astrónomos franceses e canadianos identificaram um corpo candidato a planeta errante a vaguear sozinho no espaço, a cerca de 100 anos-luz da Terra. Denominado CFBDSIR J214947.2-040308.9, o novo objecto parece estar associado a um grupo de estrelas conhecido como Associação Estelar AB Doradus, um grupo de cerca de 30 estrelas que se movem no espaço em conjunto com a estrela AB Doradus. A descoberta foi realizada em observações feitas com a câmara WIRCam do telescópio Canadá-França-Hawaii, no Hawaii, e com a câmara SOFI montada no New Technology Telescope do ESO, no Chile. Posteriormente, os investigadores usaram o espectrógrafo X-shooter do Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO) para estudar de forma detalhada a atmosfera do objecto.

CFBDSIR J214947.2-040308.9 numa imagem de infravermelho obtida com o instrumento SOFI, montado no New Technology Telescope do ESO, no Observatório de La Silla.
Crédito: ESO/P. Delorme.

Os cientistas pensam que as estrelas que compõem a Associação Estelar AB Doradus foram todas formadas ao mesmo tempo, há 50 a 120 milhões de anos. De acordo com os autores desta descoberta, existe uma probabilidade de 87% de CFBDSIR J214947.2-040308.9 estar associado a este grupo de estrelas. Caso se confirme esta associação, este novo objecto deverá ser um jovem planeta errante com 4 a 7 vezes a massa de Júpiter. A comparação dos espectros obtidos através do espectrógrafo X-shooter com modelos da metalicidade da atmosfera solar indicam que a temperatura da sua atmosfera deverá rondar os 700 K (cerca de 427ºC).
A sua ligação a um grupo estelar próximo, torna CFBDSIR J214947.2-040308.9 o mais interessante candidato a planeta errante alguma vez descoberto. "Procurar planetas em torno de estrelas é semelhante a estudar um pirilampo que se encontra a um centímetro de distância de um farol distante de automóvel," afirma Philippe Delorme (Institut de planétologie et d'astrophysique de Grenoble, CNRS/Université Joseph Fourier, França), autor principal do artigo com os pormenores desta descoberta (ver aqui). "Este objecto errante próximo oferece-nos a oportunidade de estudar o pirilampo com todo o pormenor, sem que as luzes brilhantes dos faróis do automóvel estraguem tudo."
Pensa-se que os planetas errantes são, pelo menos, tão numerosos como as estrelas, e que se formam de duas formas possíveis: ou como planetas normais que são, posteriormente, ejectados dos seus sistemas planetários; ou como objectos solitários, tais como as estrelas e as anãs castanhas. Em ambos os casos, o estudo destes objectos é essencial para a compreensão destes mecanismos. "Estes objetos são importantes, já que nos podem ajudar a compreender melhor como é que os planetas são ejectados dos sistemas planetários ou como é que objectos muito leves podem resultar do processo de formação estelar," diz Philippe Delorme. "Se este pequeno objecto for um planeta ejectado do seu sistema nativo, dá-nos a imagem de mundos orfãos, errando no vazio do espaço."